“Quando
o mundo era cinco séculos mais jovem, tudo o que acontecia na vida era dotado
de contornos bem mais nítidos que os de hoje. Entre a dor e a alegria, o
infortúnio e a felicidade, a distância parecia maior do que para nós; tudo que
o homem vivia ainda possuía aquele teor imediato e absoluto que no mundo de
hoje só se observa nos arroubos infantis de felicidade e dor. Cada momento da
vida, cada feito era cercado de formas enfáticas e expressivas, realçado pela solenidade de um estilo de vida rígido e perene. Os grandes
fatos da vida – o nascimento, o matrimônio,
a morte – eram envoltos, por obra dos sacramentos, no esplendor do mistério
divino. Mas também os menores – uma viagem, uma tarefa, uma visita – eram acompanhados
de mil bênçãos, cerimônias,
ditos e convenções” Johan
Huizinga – O outono da idade média.
Este primeiro parágrafo do Outono da idade média, de Huizinga, soa
como uma grande verdade que, no fundo, já conhecíamos e que, quando expressa
pelo autor, acaba com uma ansiedade – embora esquecida, recôndita em algum
lugar – por não conseguirmos dizer aquela ideia ou aquele sentimento fugidios, os
quais passam por nosso ser sem que os possamos apreender.
Nenhuma novidade é dizer que a morte da forma
no cotidiano caracteriza nosso tempo. Todavia, Huizinga coloca esta questão
acentuando outros aspectos. Na verdade, o autor escreve no início do século XX,
tendo por objeto de estudo as sociedades na área dos Países Baixos e França,
aproximadamente, dos séculos XIV e XV. Isto torna a observação do autor ainda mais
interessante, vez que então somos inclinados à conclusão de que a perda da
forma no cotidiano vem desde tempos remotos, e já estava presente nas reflexões
dos homens no início do século passado.
O nascimento, o matrimônio, a morte, todos
aqueles fatos marcantes e significantes da vida possuem hoje em dia
características tão díspares às daquela época que acaba sendo difícil encarar
as solenidades então existentes com naturalidade.
Sem qualquer pretensão de examinar todo o
tema, ou de salientar o aspecto mais importante, queria apenas compartilhar uma
ou outra meditação que fiz sobre isso.
Chama-me a atenção que, nesta perda da forma,
os aspectos que distinguem as situações da vida vão sendo aplainados, de
maneira que tudo aquilo que marcava a diferença específica do momento é
extirpado, e por consequência uma equiparação empobrecedora vai tomando os
espaços. Daí porque, como já comentamos em outros textos, o casamento vira
carnaval, a formatura vira carnaval, as datas comemorativas viram carnaval e o
carnaval mesmo vira sei lá que misto de aberrações, promiscuidade e futilidades
pretensamente culturais.
De bloco a bloco, de batida em batida, os
acontecimentos biográficos perdem sentido, substituídos por entregas hedonistas
pueris, a troca de alianças perdeu lugar para o confete.
Ainda não li as obras de Jane Austen. Mas
assisti, com muito gosto, as produções da BBC que versaram em série Orgulho e preconceito, Emma e Razão e Sensibilidade.
Essas histórias ilustraram de modo
contrastante a perda da forma. Diferentemente do que vemos atualmente, nenhum
acontecimento de proporções históricas, apocalípticas ou fatais existe naqueles
romances. É nos eventos considerados pequenos por nossa geração que surgem
narrativas maravilhosas, elegantes e sensíveis, que revelam dilemas morais
universais, resolvidos com inteligência e beleza pela escritora.
Os personagens amam e possuem intimidade, às
vezes até mais profunda do que se tem hoje, mas não abrem mão das formas de
tratamento, da cordialidade, dos minúsculos atos solenes que organizam os
relacionamentos humanos. O marido e a esposa se chamam por sra. e sr., sem que
isto signifique cumplicidade a menor. Pelo contrário, é justamente este
contorno estruturado pela educação que permite a tessitura de uma comunicação
altamente límpida e que avança no assunto, sem se perder em desencontros. A
forma, ao invés de aprisionar, liberta.
Também não existe ali uma exaltação de todo e
qualquer costume. Trata-se com bastante ironia – uma ironia pura, se assim
pudermos qualificar – certas condutas equivocadas, realizando-se a crítica dos
costumes em bom-tom.
Vejamos o trecho inicial de Orgulho e preconceito:
“É uma verdade universalmente conhecida que
um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de uma
esposa.
Por pouco que os sentimentos ou as opiniões de tal homem sejam
conhecidos ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal modo
impressa nos espíritos das famílias vizinhas que o rapaz é desde logo
considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas.
_ Caro Mr. Bennet – disse-lhe um dia a sua esposa –, já ouviu dizer
que Netherfield Park foi alugado, afinal?
Mr. Bennet respondeu que não sabia.
_ Pois foi – assegurou ela. – Mrs. Long acabou de sair daqui e me
contou tudo.
Mr. Bennet não respondeu.
_ Afinal, não deseja saber que é o locatário? – gritou a mulher,
impacientemente.
_ Você é quem está querendo me dizer e eu não faço nenhuma objeção a
isso.
Esse convite foi suficiente”.
Em seguida, Mrs. Bennet conta que um rico
homem solteiro residirá na propriedade, e tenta dissuadir Mr. Bennet a
prestar-lhe uma visita, uma circunstância para abrir uma oportunidade, a fim de
que o novo morador conheça e, ao final, tome a mão de uma de suas filhas. Mr.
Bennet, entretanto, ironiza a ideia de sua esposa, mas diz que escreverá ao
cobiçado morador, adiantando que, de suas filhas, Lizzy mereceria que fosse
feito um elogio a mais em relação às irmãs.
“_ Nenhuma delas tem muito o que as recomende – respondeu Mr. Bennet.
_ São tolas e ignorantes como as outras moças. Mas Lizzy é realmente um pouco
mais viva do que as irmãs.
_ Como pode falar mal assim dos próprios filhos, Mr. Bennet? Você se
compraz em aborrecer-me; não tem nenhuma pena dos meus pobres nervos.
_ Está enganada, minha cara. Tenho muito respeito pelos seus nervos.
São meus velhos amigos. Venho escutando você falar a respeito deles com grande
consideração, pelo menos durante estes últimos vinte anos.
_ Ah, você não sabe o que eu sofro!
_ Espero que você se restabeleça e viva bastante tempo para ver
muitos rapazes com quatro mil libras anuais de rendimento se instalarem na
vizinhança.
_ Pouco nos adiantará que venham vinte deles se você se recusar a visitá-los.
_ Pode ficar certa, minha querida, de que quando chegarem os vinte eu
os visitarei a todos.
Mr. Bennet era um misto tão curioso de vivacidade, humor sarcástico, reserva
e capricho que a experiência de vinte e três anos juntos tinha sido
insuficiente para que a sua esposa lhe conhecesse o caráter. O espírito dela era
menos difícil de compreender; tratava-se de uma senhora dotada de inteligência
medíocre, pouca cultura e gênio instável. Quando se aborrecia imaginava que
estava nervosa. A única preocupação de sua vida era casar as filhas. Seu
consolo, fazer visitas e saber das novidades”.
Um excerto maravilhoso, não é mesmo? A
crítica não é atenuada, mas é feita com elegância, em um diálogo que ilustra
praticamente toda a vida familiar naqueles tempos, naqueles lugares.
Eu não conseguiria, sem passar por ridículo e
ser comicamente artificial, chamar minha esposa de Sra. Xavier. Vou tentar
caprichar um pouco mais na minha educação, na elaboração completa dos
pensamentos e de minhas comunicações, não desleixar os cumprimentos, recordar-me
das distâncias impessoais volta e meia necessárias. Não posso ser um homem de
outro século, mas desejaria muito incorporar alguma coisa daquela sabedoria e
daquela beleza, daquela forma que se perdeu e que devemos encontrar.