quarta-feira, 28 de abril de 2010

Água para João Augusto

Querido Amigo,

Infelizmente não tenho as respostas que procura, nem tenho a força para apaziguar o seu tormento, para dar-lhe o grito que tanto clama... Ofereço-lhe, no entanto, um pouco de água, nesta parada que fez em sua caminhança, esgotado e sem fôlego (porque paradas assim são essenciais para manter saudáveis os motores). Sem deixar de lembrar, como Santa Teresinha do Menino Jesus à uma irmã que admirava-se de suas poesias e de sua tamanha devoção: “Não se engane. Eu não canto a fé que possuo, mas a fé que desejo”. Assim é a água que compartilho, a mesmíssima água que também preciso e desejo (onde a encontro em abundância?)
Ora, meu caro, suas perguntas são simplesmente toda a pergunta. Este é o enigma da vida, cuja solução aponta para um mistério... A perfeição da vida não está em encontrar a decifração definitiva deste enigma, mas perseverar na batalha. Não desistir, seguir em frente! Todas as vezes que cedemos à tentação de achar respostas nos afastamos da vida (e morremos, pouco a pouco... no comodismo, no conforto sem esperança, na preguiça prazenteira, no desânimo...). Portanto, se se angustia na dúvida, quanto melhor! Está saudável! Sofre! Corre sangue em suas veias, ainda é um homem...
Quem está vivo neste mundo carrega a sua cruz e quem a aceita abraça a própria vida. A caminhança já está nos seus pés... A poesia já aconteceu na sua história... O sublime se revela aí mesmo onde você existe... Quem saberá a razão pela qual João Augusto existe? Por que cresceu nesta família, por que nesta cidade, neste país, com estes amigos, nesta profissão? Tudo assim, desde que nascemos, por quê? Não sei. Sei que é esta e não outra. E é só esta, especialmente feita para cada um de nós. Único lugar no mundo em que não somos inquilinos de nada e de ninguém (quem é que quer viver de aluguel?). Temos é que ter a coragem de abraçá-la, assim como ela é, imperfeita (e como é difícil! Tantas vezes desejamos qualquer outra vida, menos esta... Ter nascido na Itália, ser filho de um sultão, jogar bola como Ronaldinho, ser virtuose no piano, não ter medo, ter mais calma, uma namorada mais bonita, ser mais inteligente, tantas coisas, menos isto que eu sou, socorro!). Coragem de aceitar este presente que é estar vivo e lutar, porque nada pende inútil neste mundo... (que me perdoem os existencialistas, os pessimistas, os niilistas, os suicidas, os ateus e todos os malucos do gênero... Inclusive todos os que existem dentro de mim...).
Por fim, deixo ainda um último conforto, antes que você parta novamente para a sua sina. São palavras de outra santa, Teresa de Ávila, colhidas, certamente, neste mistério onde brotam as verdadeiras poesias:

Eficacia de La Paciencia

Nada te turbe,
Nada te espante,
Todo se pasa,
Dios no se muda,
La paciencia
Todo lo alcanza;
Quien a Dios tiene
Nada Le falta:
Solo Dios basta.


Coragem, amigo! Vamos juntos!

Grande Abraço,

Miguel.

2 comentários:

  1. Brilhantes palavras, caro amigo Miguelito. Ainda, seria o caso de orarmos tal como os sábios, pedindo a Deus que nos ilumine, e pedindo "Senhor, permita-me chegar a lugares onde jamais chegaria se estivesse sem ti". Forças para ir além de nossas forças, coragem para exceder os limites que, por várias vezes, impomos a nós mesmos. Paciência para perseverar.
    Aguardo o colega semana que vem.
    Abraços
    Antônio Carlos

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  2. Realmente, deliciosa esta água, "dá-nos sempre desta água"... E olha que não foi só uma baldada...

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