terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Caminho Oblíquo

"Rafael (Hitiodeu) entremeava a sua narrativa com as reflexões mais profundas. Examinando cada forma de governo, analisava, com uma sagacidade maravilhosa, o que há de bom e verdadeiro numa, de mau e de falso noutra. Ao ouvi-lo discorrer tão sabiamente sobre as instituições e os costumes dos diferentes povos, era de pensar-se que vivera toda a vida nos lugares por onde apenas passara. Pedro não pode conter a sua admiração.
Na verdade, disse, meu caro Rafael, espanto-me que não vos tivésseis posto a serviço de algum rei. Certamente não haveria um só que não encontrasse em vós utilidade e satisfação. Encheríeis de encanto os seus lazeres com o vosso conhecimento universal das coisas e dos homens, e os incontáveis exemplos, que poderíeis citar, proporcionar-lhe-iam um sólido ensinamento e conselhos preciosos. Faríeis, ao mesmo tempo, uma brilhante fortuna para vós e os vossos.
- Eu pouco me inquieto com a sorte dos meus, retomou Hitiodeu. Creio ter cumprido sofrivelmente os meus deveres para com eles. Os outros homens só abrem mão de seus bens já velhos e na agonia, e é ainda chorando, que renunciam ao que suas mãos desfalecentes não mais podem reter. Eu, cheio de saúde e juventude, tudo dei aos meus parentes e amigos. - Eles não se queixarão, espero, do meu egoísmo; não exigirão que, para cumulá-los de ouro, eu me faça escravo de um rei.
- Entendamo-nos, disse Pedro, a minha intenção não foi a de que servísseis um príncipe como lacaio e sim como ministro.
- Os príncipes, meu amigo, põem nisto pouca diferença; e, entre estas duas palavras latinas servire e inservire, vêm apenas uma sílaba a mais, ou a menos.
- Chamai a coisa como quiserdes, respondeu Pedro; é o melhor meio de ser útil ao público, aos indivíduos, e de tornar mais feliz a própria situação.
- Mais feliz, dizeis! Mas, como aquilo que repugna ao meu sentimento, ao meu caráter, poderia fazer minha felicidade? Presentemente sou livre, vivo como quero, e duvido que muitos dos que vestem a púrpura possam dizer o mesmo. Muita gente ambiciona os favores do trono; os reis não sentirão falta, se eu e dois ou três da minha têmpera não nos encontrarmos entre os cortesãos.
Então falei assim:
É evidente, Rafael, que não procurais riquezas nem poder, e não tenho menos admiração e estima por um homem como vós, do que por aquele que está à frente de um império. Parece-me, entretanto, que seria digno de um espírito tão generoso, tão filósofo, como o vosso, aplicar todos os seus talentos na direção dos negócios públicos, embora houvesse que comprometer o seu bem estar pessoal; ora, a maneira de o fazer com mais proveito, é ainda a de entrar para o conselho de algum grande príncipe; estou certo de que a vossa boca não se abrirá jamais, senão para a virtude e para a verdade. Vós o sabeis, o príncipe é a fonte de onde o bem e o mal jorram, como uma torrente, sobre o povo; e possuís tanta ciência e tantos talentos que, embora não tivésseis o hábito dos negócios, daríeis, mesmo assim, um excelente ministro para o rei mais ignorante.
- Incidis num duplo erro, caro Morus, replicou Rafael; e não só quanto ao fato em si como quanto à pessoa; estou longe de ter a capacidade que me atribuis; e mesmo que a tivesse cem vezes maior, o sacrifício de meu sossego seria inútil à causa pública.
Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam as artes benfazejas da paz. Trate-se de conquistar novos reinados, e todos os meios lhes parecem bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados submetidos à sua dominação.
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição:

[...]

Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a inveja, a vaidade e o interesse?

[...]

Julgai ainda que as pessoas da corte levariam em grande consideração minha pessoa e meus conselhos?
Respondi a Rafael: [...] Persisto na mesma opinião a vosso respeito, estando persuadido de que vossos conselhos seriam de uma alta utilidade pública, se quisésseis vencer o horror que vos inspiram os reis e as cortes. E não é um dever para vós, como para todo bom cidadão, sacrificar ao interesse geral as suas ojerizas particulares? Platão disse: A humanidade será feliz um dia, quando os filósofos forem reis, ou quando os reis forem filósofos. Ai! Como está longe de nós esta felicidade quando os filósofos nem ao menos se dignam assistir os reis com seus conselhos!
Caluniais os sábios, replicou-me Rafael; eles não são bastante egoístas para esconder a verdade; muitos a têm revelado em seus escritos; e se os senhores do mundo estivessem preparados para receber a luz, poderiam ver e compreender. Infelizmente cega-os uma venda fatal, a venda dos preconceitos e dos falsos princípios, em que se formaram e dos quais foram inficionados já na infância. Platão não ignorava isso; sabia, como nós, que os reis nunca seguiam os conselhos dos filósofos, se eles próprios já não o eram também. Platão teve disso a triste experiência na corte de Diniz, o Tirano.
Suponhamos, pois, que eu seja ministro de um rei. Proponho-lhe os decretos mais salutares; esforço-me por arrancar de seu coração e de seu império todos os germes do mal. Acreditais que não me expulsará da corte ou que não me exporá ao riso dos cortesãos?

[...]

Volto à minha hipótese. Se fosse mais longe ainda; se, dirigindo-me ao próprio monarca, o fizesse ver que essa paixão de guerrear, que transtorna as nações, depois de ter esgotado as finanças e arruinado o povo, poderia ocasionar as conseqüências mais fatais; se lhe dissesse:
Senhor, aproveitai a paz que um feliz acaso vos concede, cultivai o reino de vossos pais, fazei nele florescer a felicidade, a riqueza e a força; amai vossos súditos, e que o amor deles faça a vossa alegria; vivei como pai no meio deles e não comandai nunca como déspota; deixai em paz os outros reinos; aquele que vos coube por herança é suficientemente grande para vós.
Dizei-me, caro Morus, com que espécie de bom ou mau humor seria acolhida semelhante arenga?
- Com péssimo mau humor, respondi.

[...]

Se outra vez me erguesse, e falasse assim a esses poderosos senhores:
Vossos conselhos são infames, vergonhosos para o rei, funestos para o povo. A honra de vosso senhor e a sua felicidade consistem na riqueza de seus súditos mais ainda do que na sua própria. Os homens fizeram os reis para os homens e não para os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
Sustentar que a miséria pública é a melhor salvaguarda da monarquia é sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se vêm mais querelas e rixas do que entre os mendigos?
Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja existência atual é miserável?
Qual o homem que revelará maior audácia em subverter o Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a perder?
Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e cujo governo não pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo confisco e pela miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder supremo. Empregando estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas de rei não teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes.
Fabricius, esta grande alma, estava todo penetrado desse sublime sentimento quando respondeu: Prefiro governar ricos do que eu mesmo ser rico. E, de fato, nadar em delícias, saciar-se de voluptuosidades em meio às dores e gemidos de um povo, não é manter um reino e sim uma cadeia.
O médico que só sabe curar as moléstias de seus clientes dando-lhes moléstias mais graves, passa por ignaro e imbecil; confessai, pois, - ó vós que não sabeis governar senão arrebatando aos cidadãos a subsistência e as comodidades da vida! - confessai que sois indignos e incapazes de dirigir homens livres! Ou então corrigi vossa ignorância, vosso orgulho e vossa preguiça: é isso o que excita o ódio e o desprezo pelo soberano. Vivei de vosso patrimônio, segundo a justiça; medi vossas despesas na proporção de vossas rendas; detei as torrentes do vício; criai instituições de benemerência, que previnam o mal e o estiolem no germe, ao em vez de inventar suplícios contra os infelizes que uma legislação absurda e bárbara impele ao crime e à morte.

[...]

Mas, dizei-me, caro Morus, pregar uma tal moral a homens que por interesse e por sistema se orientam por princípios diametralmente opostos, não é contar histórias a surdos?
- E a surdos como portas, respondi. Mas isto não me espanta, e, para vos revelar o meu modo de pensar, é perfeitamente inútil dar conselhos quando se tem a certeza de que serão repelidos, quer na forma, quer no fundo. Ora, os ministros e os políticos de hoje, estão impregnados de erros e preconceitos; como quereis bruscamente modificar suas crenças e fazer penetrar, de chofre, em suas cabeças e em seu coração, a verdade e a justiça? Esta filosofia escolástica está no seu lugar em uma conversação familiar, entre amigos; está fora de propósito nos conselhos dos reis, onde grandes coisas são tratadas com grande autoridade e em face do poder supremo.
- Era isto o que vos dizia ainda agora, retrucou Rafael, a filosofia não tem acesso na corte dos príncipes.
- Dizeis a verdade se vos referis a esta filosofia de escola, que ataca de frente, e cegamente, os tempos, os lugares, e as pessoas. Mas, existe uma filosofia menos selvagem; esta conhece o teatro em que atua, e, na peça que deve representar, desempenha seu papel com decência e harmonia. É esta a que deveis empregar.
Suponhamos que, durante a representação de uma comédia de Plauto, no momento em que os escravos estão de bom humor, irrompeis em cena, em trajes de filósofo, declamando a passagem de Otávio, em que Sêneca repreende e prega moral a Nero; duvido muito que fôsseis aplaudido. Certamente, teríeis agido com mais acerto se vos tivésseis limitado ao papel de um personagem mudo do que oferecer ao público este drama tragicômico. Um monstruoso amálgama destes estragaria todo o espetáculo, mesmo que a vossa citação valesse cem vezes mais do que a peça. Um bom ator pôe todo seu talento no papel que vai representar, qualquer que ele seja; e não perturba o conjunto, porque lhe ocorre à fantasia declamar uma tirada magnífica e pomposa.
Da mesma maneira convém agir quando se delibera acerca dos negócios do Estado, no seio do conselho real; Se não se pode desarraigar de uma só vez as máximas perversas, nem abolir os costumes imorais, não é isto razão para se abandonar a causa pública. O piloto não abandona o navio diante da tempestade porque não pode domar o vento.
Falais a homens imbuídos de princípios contrários aos vossos; que caso poderão fazer de vossas palavras, se lhes atirais à face a contradita e o desmentido? Segui o caminho oblíquo - ele vos conduzirá mais seguramente à meta. Aprendei a dizer a verdade com propriedade e a propósito; e, se vossos esforços não puderem servir para efetuar o bem, que sirvam ao menos para diminuir a intensidade do mal; porque tudo só será bom e perfeito, quando os próprios homens forem bons e perfeitos; e até lá, os séculos passarão.
Rafael respondeu:
Quereis saber o que me sucederia se assim procedesse? Ao querer curar a loucura dos outros, acabaria demente também. Mentiria, se falasse doutra maneira da que vos falei. A mentira é talvez permitida a certos filósofos, mas não está em minha natureza. Sei que minha linguagem parecerá dura e severa aos conselheiros do rei; apesar disso, não vejo por que sua novidade seja de tal modo estranha que toque ao absurdo. Se me referisse às teorias da república de Platão, ou aos usos atualmente em vigor entre os utopianos, coisas melhores e infinitamente superiores às nossas idéias e costumes, então, poder-se-ia crer que eu vinha de outro mundo, porque aqui o direito de possuir de seu pertence a cada um, enquanto que lá todos os bens são comuns. Mas, o que disse eu que não fosse conveniente e mesmo necessário de se divulgar. Minha moral mostra o perigo e dele salva o homem. ponderado; não fere senão o insensato que se atira de olhos fechados ao abismo.
Há covardia ou má fé em calar as verdades que condenam a perversidade humana, sob o pretexto de que serão escarnecidas como novidades absurdas ou quimeras impraticáveis. De outra forma, seria necessário deitar um véu sobre o Evangelho e dissimular aos cristãos a doutrina de Jesus. Mas Jesus proibia a seus apóstolos o silêncio e o mistério; repetia-lhes sempre: O que vos digo em voz baixa e ao ouvido, pregai pôr toda parte, em voz alta e às claras. Ora, a moral de Cristo está muito mais em contradição aos costumes deste mundo, do que os nossos discursos.
Os Pregadores, homens sagazes, seguiram o caminho oblíquo de que me falastes há pouco; vendo que repugnava aos homens acomodar seus maus costumes à doutrina cristã, torceram o Evangelho, como se fosse uma lei de chumbo, para modelá-lo segundo os maus costumes dos homens. Onde os conduziu esta hábil manobra? A dar ao vício a calma e a segurança da virtude.
Quanto a mim, não obteria melhor resultado nos conselhos dos príncipes, porque, ou minha opinião é contrária à opinião geral, e, nesse caso, não seria tomada em consideração, ou coincide com a opinião geral, e então, deliro também com os loucos, segundo a expressão de Micion, a personagem de Terêncio.
Assim, não vejo aonde pode levar o vosso caminho retorcido. Dizeis: Quando não se pode atingir a perfeição, deve-se, ao menos, atenuar o mal. Mas aqui, a dissimulação é impossível e a conivência um crime, pois se trata de aprovar as propostas mais execráveis, de votar decretos mais perigosos que a peste, e, neste caso, aprovar perfidamente deliberações infames como essas, seria comportar-se tal qual um espião e um traidor.
Não há, pois, nenhuma maneira de ser útil ao Estado nessas altas regiões. O ar que aí se respira corrompe a própria virtude. Os homens que vos cercam, longe de corrigir-se com os vossos ensinamentos, vos depravam com seu contato e pela inf1uência de sua perversão; e se conservais vossa alma pura e incorruptível, servireis de manto às suas imoralidades e loucuras. Não há, pois, esperança de transformar o mal em bem, trilhando o vosso caminho oblíquo, aplicando os vossos meios indiretos".

(São Thomas Morus, “Utopia”, Livro Primeiro)

Um mundo insaciavelmente maluco

"É como se dissesse assim: você tem um doente na sua casa. Este doente está infectado por uma doença contagiosa. Existem três atitudes: você pode enxotar este doente da sua casa e você vai dizer: Oh! Cai fora daqui, que você vai contaminar todo mundo, suma daqui! Bom, você não amou esta pessoa. Você pode tomar outra atitude extrema, que é ficar abraçando e beijando este doente o tempo inteiro e você termina contaminado. Mas existe a atitude prudente e sensata que é você colocar uma máscara, não tomar água nos mesmos copos e nem usar os mesmos talheres daquela pessoa, e ao mesmo tempo servi-lo, cuidar dele na cama, dar remédio, levar ao médico, com todo cuidado do mundo para não se contaminar. É este tipo de coisa que nós temos que escolher diante do mundo moderno. Se você ficar abraçando e beijando o mundo moderno demais, meu irmãozinho, numa atitude de bom-mocismo, o que vai acontecer com você é que você vai perder a fé, porque este mundo é louco. [...] Hoje, nós somos capazes de enxergar perfeitamente que este mundo é louco. Nós estamos num mundo maluco, num mundo insaciavelmente maluco, insano, que está numa cultura de morte e destruição. É um mundo que vive na automutilação contínua, dos seus próprios pecados e desobediência a Deus, porque o salário do pecado é a morte".

(Padre Paulo Ricardo de Azevedo, "A Igreja e o Mundo Moderno" - parte 01, palestra publicada no site www. padrepauloricardo.org)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Casal de Compadres



(Almeida Jr., Violeiro, 1899)

Clareira
(Adélia Prado)

Seria tão bom, como já foi,
as comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
pitando e rapando a goela. Os meninos,
farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida ou inventei?
Eu gosto de metafísica, só pra depois
pegar meu bastidor e bordar ponto cruz,
falar as falas certas: a de Lurdes casou,
a das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
as santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
pra eu sobreviver.

sábado, 12 de dezembro de 2009

“...essa velhinha, essa velhota chata que vem e bate à nossa porta...”

Semelhante ao que dorme num sonho, sentia-me docemente oprimido pelo peso do século. Os pensamentos com que em Vós meditava pareciam-me com os esforços daqueles que desejavam despertar, mas que, vencidos pela profundeza da sonolência, de novo mergulhavam no sono. Não há ninguém que queira dormir sempre. A sã razão de todos concorda que é preferível estar acordado. E contudo, quando o torpor torna os membros pesados, retarda-se, as mais das vezes, a hora de sacudir o sono, e vai-se continuando, de boa vontade, a prolonga-lo até ao aborrecimento, mesmo depois de haver chegado o tempo de levantar.
Também eu estava certo de que o entregar-se ao vosso amo era melhor que ceder ao meu apetite. Mas o primeiro agradava-me e vencia-me; o segundo aprazia-me e encadeava-me. Não tinha, por isso, nada que Vos responder, quando me dizíeis: “Desperta, ó tu que dormes; levanta-te de entre os mortos e Cristo te iluminará” (Ef 5,14). Mostrando-me Vós, por toda parte, que faláveis verdade, eu, que já estava convencido, não tinha absolutamente nada que Vos responder senão palavras preguiçosas e sonolentas: “Um instante, um instantinho, esperai um momento”. Mas este “instante” não tinha fim, e este “esperai um momento” ia-se prolongando.
“Deleitava-me com a vossa Lei segundo o homem interior, mas em vão, porque em meus membros outra lei repugnava à lei do meu espírito, e me mantinha cativo na lei do pecado que está em meus membros” (Rom, 7,2). Com efeito, a lei do pecado é a violência do hábito, pela qual a alma, mesmo contrafeita, é arrastada e presa, mas merecidamente, porque, querendo, se deixa escorregar. Ah! Miserável de mim! “Quem me livrará deste corpo mortal, senão a vossa graça, por Jesus Cristo Nosso Senhor?” (Rom 7, 22-25).

(do Livro VIII, capítulo 5, das "Confissões" de Santo Agostinho)
(Título: Bruno Tolentino, “Do Enigma ao Mistério”, Dicta&Contradicta, número 01, jun/08)

domingo, 6 de dezembro de 2009

“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – ciente me respondeu

"[...] O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. [...]
[...] Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos – não dói sem precisar ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que invejo é sua instrução do senhor... [...]" (das veredas do Grande Sertão)

domingo, 29 de novembro de 2009

Convite a um dilema

Tudo o que estou fazendo na minha vida foi concebido em vista de responder o seguinte problema: Supondo-se que eu quisesse adquirir um conhecimento da história, da cultura, da filosofia, da religião, que respondesse aquela famosa exigência do Leopold von Ranke, “eu quero conhecer as coisas como efetivamente se passaram”, pouco importando se eu vou poder usar isso numa profissão acadêmica ou, se ao contrário, isso só vai me transformar num sujeito esquisito que ninguém compreende. Se você tem a coragem para isso, você pode chegar ao conhecimento da realidade, ao conhecimento objetivo, porém, note bem, quanto mais coisas você conhece, isso significa que você conhece coisas que os outros não conhecem. Saber mais é saber o que os outros não sabem. Então, quanto mais você sabe, menos você será compreendido por aqueles que não sabem. Se você quer pagar este preço, se você acha que o conhecimento vale isso... Eu acho que vale, dediquei a minha vida a isso e não estou nem um pouco arrependido. Mas eu tive que aprender ao longo do tempo a não esperar ser compreendido pelos ignorantes. Se você quer isto para você ser efetivamente um estudioso sério e não necessariamente para ser tido como tal pelos ignorantes que posam de estudiosos, então você vai ter que seguir uma série de práticas e de protocolos de aprendizagem que te permitirão chegar onde você quer. Foi isso que eu fiz a minha vida inteira e que eu gostaria de ensinar os outros a fazer. Então, quando eu coloco um problema na cabeça eu quero a resposta efetiva, eu acredito que a inteligência humana seja capaz de fazer isso. Porém, as coisas como efetivamente se passaram não são necessariamente as coisas como as pessoas gostam de imaginar como elas se passaram. E quando você descobre coisas do passado, você modifica a visão que você tem dos personagens do presente, você os olha de uma outra perspectiva. Quer dizer, a sua escala de comparação cresce formidavelmente, porque aquilo que para os outros pode ser uma novidade, você já tem elementos de comparação anterior, já não é tão novidade assim. Muitas coisas nas quais a maior parte das pessoas depositam grandes esperanças, você já vai saber de antemão que não vão dar certo, porque você já tem a experiência histórica acumulada. E também pode acontecer, o pior de tudo, que quando você tiver compreendido uma série de processos, tiver adquirido uma cultura filosófica e histórica monumental, as pessoas não queiram saber qual é a sua opinião, elas preferirão se ater aos seus preconceitos, as suas ideiazinhas, isso de fato acontece. Aí você vai ficar numa situação um pouco esquisita. Eu me lembro uma vez eu vi uma senhora caída no chão se debatendo, ela estava tendo uma crise histérica, eu achei que era uma crise epilética e fui lá ajudá-la a se levantar, e ela começou a me esmurrar gritando: “Eu odeio homem! Eu odeio homem”. “Ora, então que é que eu posso fazer minha senhora? Quer saber? A senhora não quer que eu a ajude, eu não ajudo mais”. Muitas vezes, perante, vamos dizer, os políticos, os homens públicos, os formadores de opinião, líderes empresariais, militares, você vai ficar nesta situação: Eu sei a solução para o seu problema, mas se você não quer, o problema é seu, eu só quis ajudar, entendeu? Então, você vai ficar na posição do consultor indesejado. Isto também pode acontecer... Mas ainda assim eu acho que a busca do conhecimento é a melhor finalidade da vida, não tem coisa melhor. É melhor você estar entendendo, porque você não sofrerá como um bichinho, mas sofrerá com a dignidade de um ser humano, sabendo o que está acontecendo”.
(Olavo de Carvalho, transcrição de trechos da "Introdução ao Curso de Filosofia", publicado em www.seminariodefilosofia.org/avisos)

sábado, 28 de novembro de 2009

Napoleão Mendes de Almeida

"Há os que apodam-no de "radical", "reacionário", "de direita" e demais epítetos que fazem pregão da parvoíce de quem fala, mas vejo aí senão bom senso chão, escudado por anos de estudos velhos e observação. Não obstante a famigerada caturrice de Napoleão Mendes de Almeida, suas gramáticas vendem-se em muitos tomos e edições - prova de que a popularidade pode ser antípoda à ignorância". (Luiz de Carvalho).

VEJA - Fala-se hoje um bom português no Brasil?
ALMEIDA - O país fala um português muito ruim. Chegamos a ter vergonha de construções corretas, ter receio de regências, de concordâncias.

VEJA - Onde se ouve ou lê o pior português?
ALMEIDA - A televisão é o maior veículo de erros e enganos de português que existe. Ela tem um efeito nocivo muito grande sobre o português que o povo fala. É mais difícil falar bem do que escrever - nesse caso a pessoa tem mais tempo para pensar. Só as pessoas acostumadas a falar bem deveriam lançar mão desse meio de divulgação tremendo que é a TV.

VEJA - Em que programas de TV estão os erros mais lapidares?
ALMEIDA - Até nos títulos dos programas se cometem invencionices. Há um humorístico chamado Os Trapalhões. Essa palavra não existe em português. O verbo é atrapalhar. Quem atrapalha, portanto, é atrapalhão. Por que tirar o a da palavra? Também se cometem equívocos nos noticiários, principalmente, e nas novelas. Há certos erros que me obrigam a mudar de canal. Repugna-me, por exemplo, ver um locutor de TV dizendo que se bateu um 'récorde', colocando a sílaba tônica no primeiro e. Esse locutor não é amigo do povo. Nunca tivemos essa palavra em português. É uma tontice. O certo é se pronunciar 'recórde'.

VEJA - Em que outros veículos o português é sacrificado?
ALMEIDA - Chegamos a uma situação em que nem os jornalistas sabem conjugar verbos. Tenho no meu arquivo um conjunto de erros graves de português que saíram nos jornais nos últimos tempos. Veja esta manchete do noticiário internacional, publicada em novembro de 1990: "Iraque deixará parentes visitarem reféns". Que português é esse? O certo é "visitar". Para o jornalista que intitulou a notícia, o padre Manuel Bernardes não sabe português porque traduziu o texto latino do Pai-Nosso por "Não nos deixeis cair em tentação", assim como está errada a passagem do Evangelho de São Marcos que diz "Deixai vir a mim os pequeninos".

VEJA - Na literatura brasileira de hoje a situação é melhor?
ALMEIDA - Bem, eu atualmente não sou de muita leitura. Leio revistas inglesas e francesas - sei que nelas vou encontrar os respectivos idiomas escritos de maneira perfeita. É uma prova de civismo estudar a própria língua.

VEJA - Como se reconhece o escritor que trata bem o idioma?
ALMEIDA - Autores como Alexandre Herculano e Eça de Queiroz, além de possuir uma prosa atraente, obrigam o leitor a ir ao dicionário pelo menos duas vezes por página. Isso é um ótimo sinal. No outro extremo está o escritor que se lê por 100 ou 200 páginas sem deparar com uma palavra que não se conheça, e que escreve com períodos de gago, aquele que tem dois pontos finais em cada linha. Períodos curtos não têm graça. Neles não há concatenação, não há subordinação das orações. Escritores desse tipo não conhecem as conjunções ou têm medo de usá-las porque não sabem usar o verbo de acordo com elas.

VEJA - Como falam os políticos brasileiros?
ALMEIDA - Os que falam bem são exceções, e há muito poucas. Dizia-se que Collor falava bem, mas ele escorregava, não sei se nesse meio tempo resolveu estudar gramática. Já o Lula usou uma frase muito interessante quando era candidato à Presidência. Ele dizia "Vote ni mim".

VEJA - Lula deveria estudar gramática?
ALMEIDA - Ele tentou. Lula chegou a se matricular no meu curso, mas não chegou a responder à primeira lição escrita nem pagou a segunda mensalidade. Simplesmente desapareceu. Depois de um certo tempo acabamos rasgando a ficha dele, na limpeza do arquivo. Rasguei com prazer, depois de uma greve dos metalúrgicos que deu o maior prejuízo ao país.

VEJA - O senhor também rejeita o português falado pelos sertanejos, carregado de regionalismos?
ALMEIDA - Eu respeito. Não vou interromper uma conversa para dizer ao interlocutor que o certo é dizer 'nós vamos' e não 'nós vai'. A verdade é que em termos de vocabulário há regionalismos muito interessantes. Um dia eu estava em Belém e pedi uma informação na rua, sobre onde ficava tal escola. O sujeito me disse que era fácil, que era só tomar uma sopa, aquela sopa que estava logo ali junto ao muro. Eu me espantei. Não sabia, mas está lá no dicionário - sopa é a jardineira, o ônibus local.

VEJA - O que o senhor acha das reformas ortográficas feitas periodicamente no português?
ALMEIDA - Vejo como uma forma de comércio. O interesse das reformas ortográficas é financeiro, não intelectual ou prático. Tem por fim o lucro, seja da Academia Brasileira de Letras, seja de alguma editora, seja de algum rato de ministério, como é o caso atualmente no Planalto. Certa vez o Cláudio de Souza, então presidente da ABL, esteve no meu escritório, antes da reforma de 1943, e me perguntou por que eu era contra a reforma ortográfica. Ele me explicou que a Academia tinha despesas com a impressão do vocabulário. Eu disse: meu caro, não acha que a sua resposta deve ser substituída pela reflexão de que o interesse da reforma ortográfica é de caixa, e não de ensino? O escritor interessado quer modificar a ortografia, mas o livro dele, sua gramática, com a nova ortografia, já está pronto. Em 1949, quando saiu um decretinho no Diário Oficial introduzindo a nomenclatura gramatical brasileira, um dos tratantes da comissão já estava com o livro dele, incluindo as modificações, na terceira edição.

VEJA - O acordo de unificação ortográfica entre o português do Brasil e o de Portugal, negociado atualmente pelo ministro da Cultura, Antônio Houaiss, encaixa-se nesse caso?
ALMEIDA - Faço minhas as palavras do jornalista Paulo Francis, num artigo recente. O bom dessa rusga diplomática que está ocorrendo entre Brasil e Portugal é que ela matou o acordo ortográfico do Antônio Houaiss. O Houaiss não é bobo, já admitiu que o acordo foi arquivado por tempo indeterminado. Isso porque ele é editor, paga imposto de renda pelo que edita. Qual seria o seu interesse na reforma senão ser o primeiro a dizer: "O que foi decretado ontem já está em forma de livro?" Vernáculo não é política para viver de alternativas, para alimentar-se de amizades e confrarias. O vernáculo vive de escritores, e estes não se impõem pela quantidade, senão pela qualidade de obras que expressem o belo sem protuberâncias vocabulares nem manifestação de desnutrição, de doenças gramaticais.

VEJA - A unificação da ortografia usada no Brasil e em Portugal, prevista pela reforma, não seria desejável?
ALMEIDA - Que unificação? Não existem duas línguas, apenas uma.

VEJA - Mas muitas palavras são usadas ou grafadas de forma diferente nos dois países.
ALMEIDA - E no Brasil não acontece o mesmo, de região para região? Não há diferenças prosódicas e de significação? Isso não prejudica o idioma de forma alguma. Tome-se, para efeito de comparação, o dicionário Webster da língua inglesa. Para certas palavras ele dá quatro pronúncias diferentes. Outras são mostradas com três grafias diversas. Isso é motivo para um espertalhão querer introduzir uma lei que determine uma só forma ortográfica, uma só pronúncia da palavra?

VEJA - O acordo ortográfico prevê a eliminação de vários acentos nas palavras. Isso não tornaria mais fácil a tarefa de quem escreve, lê ou estuda o português?
ALMEIDA - A acentuação no português é um horror. A ortografia de 1943 está errada, mas se forem mexer vai piorar ainda mais.

VEJA - O que há de mais aberrante na acentuação do português?
ALMEIDA - Tome-se, por exemplo, a palavra auxílio. No idioma espanhol existe essa mesma palavra, com o mesmo significado, mas ao contrário do que ocorre no português ela leva acento na forma verbal, auxilío. O motivo é simples: de cada dez vezes que essa palavra aparece corriqueiramente, talvez apenas uma seja na forma de verbo, nas demais ela aparece como substantivo. Então, nada mais lógico que se deixe o acento para diferenciar o verbo. Há mais bom senso na ortografia espanhola nesse aspecto.

VEJA - O acordo prevê também a volta das letras k, w e y ao alfabeto, assim como a eliminação do trema no u. O que acha dessas propostas?
ALMEIDA - As três letras em questão nunca deveriam ter saído do alfabeto. Precisamos delas no dia-a-dia, na matemática, por exemplo, e também na escrita comum. Quanto ao trema, é inútil, ninguém precisa dele. Na verdade, quem deve ensinar a pronúncia certa é a escola. Eu mesmo não uso acentos quando escrevo meus rascunhos. Para quê? Eu sei ler. Mas para acrescentar o k, o w e o y ao alfabeto, assim como para eliminar o trema, não é preciso fazer uma grande reforma ortográfica. Basta um decretozinho, uma lei que regule o assunto.

VEJA - As gírias atentam contra o bom português?
ALMEIDA - Não sou contra as gírias. Elas são um fenômeno normal, que revela a saúde do idioma. Elas em geral duram seis meses ou um ano. Conforme sua natureza, a gíria entra para o dicionário ou para a gramática. Por que eu investiria contra a expressão 'é sopa' quando ela surgiu? Há quanto tempo não se ouve essa expressão?

VEJA - O senhor é contra os neologismos?
ALMEIDA - O neologismo é uma necessidade. Se há invenções, precisamos dar nomes a elas. Vamos buscar esse nome com radicais e sufixos nossos, ou com radicais gregos, latinos, ou vamos adaptar a forma inglesa, francesa ou alemã à nossa forma. O estudo da etimologia é maravilhoso, embora não tenha utilidade. Mas é curioso. Por exemplo: poucos sabem que a palavra joelho - ou geolho, como se dizia antigamente -, em português, é a mesma palavra knee, em inglês. A origem de ambas é genunculum, em latim. A sílaba inicial ge é gutural forte, corresponde, na pronúncia latina, ao som de k em inglês. O n já está na palavra e a terminação unculum corresponde à nossa terminação lho ou aos dois e do inglês. O estudo do latim é necessário. Foi uma infelicidade jogá-lo fora do currículo escolar no Brasil, mormente para quem vai praticar leis, estudar Direito.

VEJA - A língua portuguesa tem bons dicionários? Quais?
ALMEIDA - Prefiro não propagandear os dicionários que temos. Mas posso elogiar o de Alberto Carlos Silva, um autor de Campinas que morreu mocíssimo.

VEJA - Como o senhor vê as atividades da Academia Brasileira de Letras?
ALMEIDA - Sabe quantas vezes Rui Barbosa esteve na Academia? Uma única. Euclides da Cunha nunca precisou dela. Monteiro Lobato idem. Mas há escritores que são fregueses das academias de letras que se espalham pelo país. A Academia não contribui em nada para a melhora do idioma.

VEJA - Desde quando o brasileiro fala e escreve mal?
ALMEIDA - Pode-se dizer que o início da derrocada da nossa língua data de 1931. Com a Revolução de 30, introduziram-se as férias escolares de julho. Aí ela começou a degringolar. Talvez os próprios pais tenham provocado essa mudança, por querer descansar, mas esse descanso começou a prejudicar o ensino dos filhos.

VEJA - Essa explicação não é demasiado simples?
ALMEIDA - Essa é uma imagem histórica que uso para ilustrar um fenômeno que é bem mais complexo. O erro principal vai mais longe - na pobreza de horas diárias de aula no curso primário, por exemplo. Verifique-se se em algum país dito civilizado existem menos de oito horas de aula por dia no curso primário. Em todo os países o aluno fica na escola oito horas. Mas no Brasil o aluno vai à escola para comer Há também a questão da remuneração dos professores: os que ensinam português não podem ter o mesmo salário dos que ensinam desenho, por exemplo. Que trabalho tem um professor de desenho? Num relance ele dá a nota para o aluno. O professor de português tem que ler palavra por palavra, para ver se o aluno não trocou um c por dois s, um g por j. E ao voltar à sala de aula ele tem que chamar os alunos um por um para explicar os erros. O de Antonio vai servir de esclarecimento para Benedito, todos se aproveitam dos erros de todos, mas esse trabalho tem que ser bem remunerado.

VEJA - Que outras deficiências do ensino fazem com que o brasileiro fale mal seu idioma?
ALMEIDA - Existe hoje uma indústria do livro didático, comandada por indivíduos incapazes de montar ou explorar um colégio, um curso que seja. Esses livros didáticos não têm concorrência, contenham eles as maiores violações gramaticais e asnices ortográficas. O professor chega ao colégio e já encontra nas prateleiras os livros que deve usar. Quer dizer que ele não tem competência para escolher? E quem se julgou competente para escolher? Um interesseiro. O ensino está entregue a um outro tipo de comércio, o das apostilas. Não se dá o texto da matéria, apenas apostilas. E qual é o valor das apostilas no futuro? Nenhum. É progresso encher uma classe de apostilas, de livrinhos e livrecos sem vulto nem tomo, tão inúteis quanto desarrazoados, sem índices nem remissões? O aluno deveria comprar o livro e o professor ter em mãos um texto da matéria que leciona. Até há algum tempo, o professor era obrigado a assinar um diário de aula, relatando que matéria tinha dado naquele dia. Existe isso hoje? Não. Fala-se mau português por causa do sistema escolar.

VEJA - Em que região do Brasil se fala o melhor português?
ALMEIDA - É difícil especificar, mas no Maranhão, certa vez, conheci um professor que, embora muito modesto, divertia-se conversando em latim com a filha. Isso é significativo. Oxalá um dia possamos dizer que o Brasil todo fala uma língua disciplinada, que revele educação, instrução, que revele um país de pessoas formadas para a sociedade.

VEJA - Estamos muito longe disso?
ALMEIDA - A distância é de pelo menos três gerações.