quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Os Abismos da "Fé"

Eu tinha prometido para mim mesmo que desta vez eu veria até onde esses caminhantes preguiçosos teriam coragem de levar o abandono do blog. Mas não aguentei e, novamente, estou aqui. Mesmo sabendo que serei sumariamente ignorado, com a mais terrível indeferença, justamente pelos meus mais sinceros amigos, estou disposto a enfrentar esta dor (vejam que acordei dramático! Que saudades do tempo em que vocês, meus caros, tinham vigor, inquietude, vida nos olhos e estavam dispostos a compartilhar, por amor, por amizade, só por isso). Bem, deixando de lado estas questões não menos importantes, rumemos ao assunto de hoje.
O que queria compartilhar (vejam como sou insistente...) é uma reflexão a partir do texto "Ter certeza de algumas grandes coisas" de Dom Luigi Giussani (disponível na internet no site http://passos.tracce.it/default.asp?id=339&id_n=349&pagina=4).
Vamos direto ao ponto. Corremos dois grandes riscos na vida. De um lado, vivermos uma vida meramente reativa, sem ideais, sem aspirações outras que não sejam as nossas necessidades mais imediatas. Talvez seja esta, de fato, a grande marca da nossa cultura, que diante da perda dos falsos ideais, das experiências desastrosas com ideologias de loucura, experimenta um venenoso descrédito, um terrível ceticismo. É a vida pé no chão, o homem como está e nada mais. São evidentes, não precisamos de muito esforço, as consequências de uma vida assim. Os males do mundo atual são em grande parte fruto desta desordem: melancolia, perda de sentido, desepero, fraqueza de espírito, frouxidão de propósitos, hedonismo, perversão, morte.
Bem, este é um abismo. Mas existe outro que também nos ameaça. É o abismo da fé escura. O homem que crê, que tem fé, quando se vê diante da realidade e percebe a distância que existe entre o seu ideal e o mundo real, entre a verdade e a realidade decaída do homem e do seu próprio ser, acaba por se desesperar e conclui: É impossível viver a fé! E, a partir da fé, despenca no mesmo abismo do cético, com as mesmas consequências já narradas.
No entanto, este é o mesmo abismo e não outro. O outro acontece quando este homem de fé, diante deste mundo hostil, vê-se perdido num problematicismo sem fim, que o leva a recuar, a sentir medo e, diante de tantas dúvidas, a ficar imóvel. Sim, porque é muito mais fácil ao homem olhar os outros pelos olhos da crítica. Então, o homem de fé passa a criticar tudo a sua volta, a encontrar erros, desacertos, a ver problema em tudo, e num esforço descomunal de consciência, tenta encontrar um lugar, uma possibilidade, livre de todos os impecilhos. E o problema é que não encontrará jamais. E, sem perceber, acaba se isolando de tudo, no seio de sua fé, sozinho, medroso e fraco, quando não neurótico.
Ora, e onde está a virtude, como fugirmos desses abismos que estão o tempo todo nos rondando? Em primeiro lugar é preciso realmente notar que a fé nos traz um grande problema. Que de fato o mundo e o homem estão em desacordo. Disso não podemos fugir. Mas o grande erro está na nossa atitude diante deste problema. Porque o mal não é ver o problema, mas cair no problematicismo. E o exemplo que o autor nos dá é o de um bebé. Evidentemente nascer é um grande problema, porque não se sabe o que virá, há uma hostilidade do mundo externo. Mas imaginemos que o bebé, diante deste problema, passasse a refletir consigo mesmo: mas como farei para respirar, mas como me sustentarei lá fora, mas será que sentirei frio, mas como farei para me alimentar etc. Ora, estes pensamentos só o levariam a um lugar: a simplesmente não nascer. Para nascer o bebé não pode estar neste estado de problematicismo tão alucinante, simplesmente porque desta forma não nascerá jamais.
Mas, então, o que fazer? Temos que trocar a crítica, pela criatividade. Ou seja, diante da hostilidade, enfrentarmos as situações com criatividade, ao invés de simplesmente criticá-las. Só desta formas seremos capaz de cultivar uma fé viva, que possa construir espaços, provocar mudanças, crescer e iluminar. Ele nos traça um paralelo interessante com o relacionamento entre dois namorados e a vivência da fé entre eles. A postura crítica é aquela que se preocupa apenas com os limites: até onde podemos ir (e, por fim, segundo ele, acaba não sustentando nem mesmo este propósito...). Já a postura criativa é aquela que provoca verdadeira mudança espiritual no casal, que os faz nascer de modo diferente, que verdadeiramente os ilumina. É a fé viva, criativa, corajosa.
Para concluir, talvez possamos encontrar aqui uma chave para o enigma do caminho oblíquo, que tratamos há alguns posts atrás. De fato, diante de toda a adversidade que observamos, de todo o problema que a fé nos aponta, temos que ter uma postura de enfrentamento, de criatividade, de coragem. Sob pena de ficarmos imóveis, desejosos do paraíso na terra e lamentando a realidade tão cruel que nos cerca. Que virtude há nisto? A razão, o raciocínio podem ser um labirinto terrível, uma fábrica de doidos (lembremos do Chesterton, na sua "Ortodoxia"). A fé luminosa é aquela que nos leva ao mundo, que nos leva ao enfrentamento, que nos dá vida e coragem. Afinal de contas, não estamos nunca sozinhos. Não agimos apenas com nossas forças. Esta é a verdadeira fé que nos salva.

Um comentário:

  1. Boa, Miguel! Obrigado por manter, mais uma vez, a chama da caminhança acesa... Eu tenho sido consumido pelos estudos jurídicos, eles têm tirado meu ânimo para outras coisas, até acho que isso não está muito certo, mas, realmente, não sei como escapar disso, agora lembro do comentário de Antônio sobre o autômato... Conto com a ajuda dos senhores para poder superar mais esta fase difícil em meu(nosso) caminho. A decadência da caminhança é reflexo de minha(nossa) tibieza espiritual. A caminhança não pode morrer. Falo isso por senti-lo em minha própria vida, estou sendo possuído, mesmo contra minha vontade, por um clima avesso à caminhança e às minhas aspirações mais profundas, isso não deve continuar... A caminhança ressurgirá, mas, antes, eu preciso me recuperar... Rezo por todos nós, Deus certamente vê nossos corações e não deixará que eles se confundam. Abraço! João.

    ResponderExcluir