segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Sem Testemunhas (Olavo de Carvalho)

O Globo, 22 de julho de 2000
 
"Temos de nos desmascarar para alcançarmos aquela autenticidade interior de uma cultura em que poderemos, um dia, nos reconhecer e nos sentir realizados."
J. O. de Meira Penna, "Em berço esplêndido"

Albert Schweitzer, em "Minha infância e mocidade", lembra o instante em que pela primeira vez sentiu vergonha de si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim. Veio uma abelha e picou-lhe o dedo. Aos prantos, o menino foi socorrido pelos pais e por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert percebeu que a dor já havia passado fazia vários minutos e que ele continuava a chorar só para obter a atenção da platéia. Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida realizada, uma grande vida de artista, de médico, de filósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira trapaça. Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória, dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de auto-engano.
Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube da sua vergonha, só ele teve de prestar contas de seu ato ante sua consciência e seu Deus. Estou persuadido de que as vivências desse tipo - os atos sem testemunha, como costumo chamá-los - são a única base possível sobre a qual um homem pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autônoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo - e contra si mesmo - é capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais.
A razão disso é auto-evidente: um homem tem de estar livre de toda fiscalização externa para ter a certeza de que olha para si mesmo e não para um papel social - e só então ele pode fazer um julgamento totalmente sincero. Somente aquele que é senhor de si é livre - e ninguém é senhor de si se não agüenta nem olhar, sozinho, para dentro de seu próprio coração.
Mesmo a conversa mais franca, a confissão mais espontânea não substituem esse exame interior, porque aliás só valem quando são expressões dele, não efusões passageiras, induzidas por uma atmosfera casualmente estimulante ou por um sincerismo vaidoso.
Mais ainda, não é apenas a dimensão moral da consciência que se desenvolve nesse confronto: é a consciência inteira - cognitiva, estética, prática. Pois ele é ao mesmo tempo aproximação e distanciamento: é o julgamento solitário que cria a verdadeira intimidade do homem consigo mesmo e é também ele que cria a distância, o espaço interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos são assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem esse "mundo" pessoal conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações entram e saem - como os alimentos - transformadas em detritos.
Ora, nem todos os seres humanos foram brindados pela Providência com a percepção espontânea e o julgamento certeiro de seus pecados. Sem esses dons, o anseio de justiça se perverte em inculpação projetiva dos outros e em "racionalização" (no sentido psicanalítico do termo). Quem não os recebeu de nascença tem de adquiri-los pela educação. A educação moral, pois, consiste menos em dar a decorar listas do certo e do errado do que em criar um ambiente moral propício ao auto-exame, à seriedade interior, à responsabilidade de cada um saber o que fez quando não havia ninguém olhando.
Durante dois milênios, um ambiente assim foi criado e sustentado pela prática cristã do "exame de consciência". Há equivalentes dela em outras tradições religiosas e místicas, mas nenhum na cultura laica contemporânea. Há as psicanálises, as psicoterapias, mas só funcionam nesse sentido quando conservam a referência religiosa à culpa pessoal e ao seu resgate pela confissão diante de Deus. E, à medida que a sociedade se descristianiza (ou, mutatis mutandis, se desislamiza, se desjudaíza etc.), essa referência se dissolve e as técnicas clínicas tendem justamente a produzir o efeito oposto: a abolir o sentimento de culpa, trocando-o ora por um endurecimento egoísta confundido com "maturidade", ora por uma adaptatividade autocomplacente, desfibrada e cafajeste, confundida com "sanidade".
A diferença entre a técnica religiosa e seus sucedâneos modernos é que ela sintetizava numa mesma vivência dramática a dor da culpa e a alegria da completa libertação - e isto as "éticas leigas" não podem fazer, justamente porque falta nelas a dimensão do Juízo Final, da confrontação com um destino eterno que, dando a essa experiência uma significação metafísica, elevava o anseio de responsabilidade pessoal às alturas de uma nobreza de alma com o qual as exterioridades da "ética cidadã" não podem nem mesmo sonhar.
Há dois séculos a cultura moderna vem fazendo o que pode para debilitar, sufocar e extinguir na alma de cada homem a capacidade para essa experiência suprema na qual a consciência de si é exigida ao máximo e na qual - somente na qual - alguém pode adquirir a autêntica medida das possibilidades e deveres da condição humana. A "ética laica", a "educação para a cidadania" é o que sobra no exterior quando a consciência interior se cala e quando as ações do homem já nada significam além de infrações ou obediências a um código de convencionalismos e de interesses casuais.
"Ética", aí, é pura adaptação ao exterior, sem outra ressonância íntima senão aquela que se possa obter pela internalização forçada de slogans, frases feitas e palavras de ordem. "Ética", aí, é o sacrifício da consciência no altar da mentira oficial do dia.

sábado, 25 de janeiro de 2014

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

12 homens e uma sentença

Eu gosto de assistir a filmes antigos. Não porque sejam antigos, mas porque geralmente os filmes antigos que chegam ao nosso conhecimento são os bons filmes antigos. Então, na verdade, corrigindo a frase inicial, eu gosto de filmes bons, sejam eles antigos ou não. E como os filmes antigos que conheço são bons: eu gosto de assistir a filmes antigos.
12 homens e uma sentença ou, no original, 12 angry men, é um desses filmes antigos, um bom filme antigo. O filme tem algumas peculiaridades. A primeira: o nome do filme traduzido é bem melhor do que o original. Está certo, esta não é uma nota sobre o filme, e sim sobre seu nome. Mas o leitor há de convir que uma coisa rara é a tradução brasileira ser melhor do que o nome dado ao filme pelo autor. Muitas vezes a tradução tupiniquim confunde totalmente o tema do filme, em outras, antecipa o desfecho do suspense e, em outras ainda, demonstra total incompreensão da película. Vale a pena realçar, portanto, esta qualidade do filme ou, mais propriamente, do tradutor do título.
Voltando, então, ao filme mesmo, uma de suas peculiaridades, e que dá tom e ritmo às filmagens, é que ele praticamente se passa em um único cenário. O filme trata do julgamento de um jovem acusado de homicídio. Basicamente todo o enredo se passa na sala dos jurados, onde estes discutem o caso.
A cena inicial começa dando uma ideia de rotina forense, apenas mais um dia no tribunal. A câmera adentra na sala de julgamento, onde o juiz, com semblante e voz que atestam o tédio de mais um dentre inúmeros casos, profere a recomendação solene e supostamente tantas vezes já pronunciada antes, embora não menos bela e verdadeira: a vida de um homem foi tirada, a vida de outro está em jogo.
Achei interessante esta frase, a um só tempo sintética e profunda, ser falada por um juiz que mal consegue balbuciá-la, desgastado pelo calor e pela repetição de seu mister. Há algo de misterioso na desarmonia entre a forma e o conteúdo, que já prenuncia a dialética dos debates que ocorrerão, a batalha entre a vontade de carimbar a fórmula jurídica para encerrar mais um compromisso e o desejo de buscar a justiça com detidão e prudência.
O réu acusado de homicídio é um jovem, aparentemente pobre e de origem estrangeira do terceiro mundo. A vítima, seu pai.
O magistrado deixa claro aos jurados que, devido à gravidade do crime, se o júri concluir pela condenação, a única pena possível seria a de morte.
Os jurados se retiram para a sala que lhes servirá ao exame do caso. Muito calor naquele dia, e as janelas fechadas e difíceis de abrir. Um deles foi incumbido de organizar a discussão e a votação e pede aos demais, já ansiosos, que aguardem outro jurado, um senhor de idade avançada que foi ao banheiro, apertado que estava.
A composição do júri é variada. Mais jovens e mais velhos, mais humildes e mais abastados, de pouco ou muito estudo, temperamento tranquilo ou de nervos à flor da pele.
O organizador toma a frente e, após chegaram a um rápido consenso sobre a forma de votação, e considerando que o caso apresentava provas veementes e indubitáveis, cada qual profere seu veredicto individual: culpado ou inocente.
Não sei se o sistema americano inteiro é assim, mas neste filme os jurados devem chegar a uma sentença unânime. Eles podem discutir o tempo que for preciso, mas não é permitida divergência entre eles. Se não conseguirem convencerem-se a todos, o julgamento é anulado. A declaração de culpa é afastada se houver dúvida razoável, quando então o acusado deve ser inocentado.
Sucede que todos os jurados votam, mesmo sem discussão alguma, pela condenação. Exceto um. Um dos jurados vota pela inocência. Muitos ficam bravos, outros espantados e curiosos. Ele não apresenta de forma direta um contra-argumento. Simplesmente, quer conversar um pouco mais antes de condenarem um homem à morte.
O leitor já pode adivinhar o resultado final, mas o que realmente torna este um dos melhores filmes antigos a que já pude assistir é a dinâmica incrível que se cria no decorrer do tempo. A ansiedade de um faz com que irrompa em raiva desmedida, no momento mesmo em que pretendia chamar o desgarrado jurado à razão. O senhor mais velho consente em ouvir mais e acaba sendo discriminado por outros jurados. Alguns não gostam dos preconceitos que desembocam da boca dos demais e mudam de lado. Outro quer sair dali e ir ao jogo para o qual tem os ingressos na mão. Reviravoltas, surpresas, tudo aquilo que faz um bom suspense encontramos neste filme, passado numa pequena sala, onde podemos antecipar o final, mas adoramos degustar o enredo.
Muitos moderninhos chamarão a atenção para teorias sobre criminalização de classes sociais, para preconceitos da sociedade e todo aquele discurso de bom-mocismo vitimista que domina hoje certas esferas. Porém, a beleza deste filme esconde-se na forma com que um homem, inspirado por um amor à justiça ou pelo menos pelo medo da injustiça, comove e, assim, move seus semelhantes.
O tema, na minha leitura, é a velha e sempre atual batalha entre a fraqueza de nossos vícios e a força de nossas virtudes. Quando um de nós é capaz de incorporar em si a força do bom, do belo ou do justo, cedemos a este poder que nos contagia, e nos libertamos da fraqueza que nos contamina. É assim que doze homens são seduzidos a fazerem a coisa certa. Não são apóstolos, mas certamente nos deixam a impressão do bem, e da luta que devemos empreender no tribunal que trazemos conosco todos os dias, e perante o qual nos apresentaremos no final.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Homens despretensiosos, de boa natureza, tornam-se covardes quando não têm religião. São dominados e explorados, não só por fracotes gananciosos, idiotas e meio mortos que fazem qualquer coisa por charutos, champagne, automóveis e os usos mais infantis e egoístas do dinheiro, mas também por gerente capazes e inteligentes, que nada podem fazer com eles a não ser dominá-los e explorá-los. Governo e exploração tornam-se sinônimos sob tais circunstâncias; e o mundo acaba sendo liderado pelos infantilizados, os bandidos e os canalhas. Aqueles que se recusam a lhes dar guarida são perseguidos, e ocasionalmente executados, quando causam problemas aos exploradores. Caem na pobreza, quando não apresentam nenhum talento específico para o lucro. [...] E a maioria, de boa índole, segue observando, num horror indefeso, ou deixando-se persuadir pelos jornais de seus exploradores, que o assalto não é apenas um bom investimento econômico, mas um ato de justiça divina, do qual ela é ardente instrumento."  

(George Bernard Shaw, em "A Volta a Matusalém", de 1922, citado por Russell Kirk em "A arte normativa e os vícios modernos", com a seguinte consideração: "pode-se reconhecer a acuidade deste insight sem subscrever à curiosa religião, ou quase-religião, pregada por Shaw").