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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quando o orgulho vier bater à minha porta, travestido de um grande amigo ou na forma de um reles pensamento, levantarei contra ele a minha Fé, meu bastião poderoso, e o expulsarei do templo da minha vida, como um maldito vendilhão. Soará, eu sei, em meus ouvidos, a sua doce canção, pondo-me medo e desconfiança, atiçando em mim o desejo de fugir e me esconder. Mas nesta hora exporei o meu peito nu e levantarei a minha voz firme. Desprender-se-á a minha língua e ninguém me deterá, nem o veneno do pior desânimo. A Esperança se materializará em meus braços e pernas e estarei completamente entregue à graça. A inveja e a vaidade se quebrarão como galhos secos, e a Verdade se imporá soberana. Então se ouvirá, na forma de um sino, o grande anúncio que calará definitivamente o inimigo. O orgulho, humilhado, me verá nos braços do meu Pai. E o Seu Amor por mim o aniquilará.        

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Vocação por Saint-Exupéry

"Dificilmente podemos descrever o que é pilotar um avião... a não ser que você se entregue ao voo, como no amor."

(...)Mas, que é vocação?
Antes de mais nada, toda vocação é sempre espiritual. Ela é a descoberta de nossa verdadeira essência, que está intimamente unida ao ato pelo qual ela se torna efetiva. Cada ser chega, assim, a uma grandeza que lhe é própria. A vocação é uma resposta a um chamado ítimo e secreto, independente da vontade própria e das solicitações exteriores. Ela é, inicialmente, um poder que nos é oferecido. O caráter original de nossa vida espiritual é o nosso consentimento em fazê-la nossa. A vocação se torna, então, nossa essência verdadeira. Para satisfazê-la é preciso sacrificar-lhe os objetos habituais do interesse ou do desejo. Invisível, ela transfigura as mais humildes tarefas da vida cotidiana. A vocação é o sentimento de um acordo entre o que temos a fazer e os dons que recebemos. Ela é uma luz e uma força. É por ela que nascemos para a vida espiritual e temos o sentimento de não mais vivermos isolados e inúteis. A vocação nos faz responsáveis, sem jamais esperar por nossas possíveis hesitações. Sabemos, porém, que o homem tem medo de comprometer-se depressa demais. E os mais prudentes, assim como os mais ambiciosos, ficam em reserva e esperam... e deixam passar o momento, o chamado ou a vocação, porque eles desejam um destino mais brilhante, ou estão fechados dentro do estreito círculo das solicitações de tudo o que ambicionam abarcar. Os que têm a coragem de comprometer-se, longe de sentirem-se limitados, sentem-se fortes dentro de sua própria escolha.
A vocação só se manifesta na ação. Toda posse ideal, que se recusa a realizar, sob pretexto de dá-la pura, é pura ilusão. O homem é posto continuamente em face da opção e ele deve apostar e correr o risco dessa proposta. E a fidelidade a si mesmo, à sua vocação que é única no mundo, mesmo que seja no meio das maiores dificuldades, é a verdadeira coragem.
Exupéry podia escrever a 8 de dezembro de 1942:
"Julgo de pouca importância a coragem física, e a vida ensinou-me qual é a coragem verdadeira: é aquela que nos faz resistir à condenação do ambiente em que se vive. Eu sei, e disto tenho certeza, que fui muito mais corajoso em não me desviar do caminho traçado por minha consciência, apesar de dois anos de injúrias e difamações, do que se tivesse ido fotografar Mogúncia ou Essen."
E podia legar-nos este testamento pouco antes de morrer:
"Fui sempre coerente com meus princípios, assim como esses princípios eram coerentes com os interesses gerais que eles pretendem servir.
Minha posição é coerente com meus atos, é coerente com meus desejos.
Não há uma única linha escrita por mim, durante toda a minha existência, que eu precise justificar, riscar ou desmentir."
Sua vida prova que ele não teve medo de engajar-se cedo demais. A cada apelo, a cada vocação, ele sentia obrigado a escolher, a aperfeiçoar-se, a "renascer". Em Citadelle, Exupéry chama a vocação de "a voz de Deus que é necessidade, busca e sede inexprimíveis", e nós sabemos que ele lhe respondia sempre com um esforço de fidelidade cada vez maior.
"Sem esta vocação, que necessidade havia de levantar-te então à procura de teu cântico e a uma ascensão mais árdua a fim de colocar sob teus pés a paisagem montanhosa que se tornou desordem, ou para salvar em ti o sol, que não se ganha uma vez para sempre, mas que se ganha na busca de cada dia?"
(...)

Trecho de "Saint-Exupéry e o Pequeno Príncipe" de Rosa Maria.

sábado, 16 de julho de 2011

Confissões de Antônio Carlos

Este blog realmente é importante. Não pelas pessoas que acidentalmente por aqui passam, mas por constituir um registro vivo deste percurso.

Olhando-o rapidamente deparo-me com Pedrão no texto abaixo, novamente nos brindando com sua tradicional eloquencia e com a fineza e percuciência no trato com as palavras. E Miguelito, do mesmo modo, figura onipresente em cada página deste blog, compartilha conosco, a cada momento suas angústias e pensamentos sobre as agruras da vida. Por fim, não é possível ainda olvidar João Augusto, o barba de fogo, que mantém nos textos que escreve a mesma característica dos diálogos frente a frente. Comentários argutos, que denotam quão afiada é sua inteligência.

Quisera eu poder me expressar como os demais colegas, aos quais, de peito aberto, nesta oportunidade peço desculpas pelo longo e forçado período de silêncio.

Culpo-me, na verdade, por colocar preocupações menores com o excesso de trabalho e com o estudo para concursos acima das coisas que verdadeiramente me animam o espírito e me alimentam a alma.

Somente a convivência com os senhores, insisto em destacar, me impele novamente a transcender os maus menores do dia-a-dia, que tantas vezes nos sufocam e nos desviam do verdadeiro caminho.

Percebo que mesmo à distância, este convívio virtual, temperado por agora escassos encontros presenciais, é imprescindível em minha vida. Por vezes, é necessário um puxão de orelhas para que ocorra o despertar mas o sono em si nunca foi efetivamente profundo.

Saibam, de todo modo, que os acompanho, por vezes calado, mas me mantenho presente nesta longínqua e interminável caminhança de nossas vidas.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Curativo

Precisamos, sobretudo, sobreviver ao mundo e a nós mesmos. Avisem aos concurseiros: buscar esta felicidade é encontrar a morte. E aos recém divorciados, aos adúlteros, aos embriagados. Avisem urgentemente a todos os jovens frustrados. Aos empresários desenfreados. Ao ladrão. Anunciem esta verdade. Precisamos ter os pés no chão. Não há outro remédio. Aos ministros do Supremo, ao Presidente, avisem! É preciso abraçar a cruz. Sem medo cantar a ladainha dos vivos: esta vida é cascalho, como diria o poeta. Abandonemos as nuvens de poeira, as falsas falas, o canto incansável da sereia (aquele pântano...). Porque o mundo não é uma idéia. É dura a realidade e suas leis contundentes. Coragem! Precisamos ter os olhos no céu: nossa bússola e mapa. É de cima a luz que ilumina. Aquela sim, a felicidade que calará fundo nossa orfandade essencial, o vazio que nos impele à eterna busca. Abandonemos de vez as batalhas mentirosas, os desafios de fracos, os sonhos-ilusão. Abracemos esta vida com amor, sem rebeldia. A cruz é a verdade. Somos apenas peregrinos, na nossa bonita missão. A luta por si só é bela e teremos sim, já nesta vida, recompensas. Mas não nos enganemos. Com esperança, de joelhos, entoemos juntos este hino de sanidade e alegria.       

terça-feira, 19 de abril de 2011

Cupim, térmite, térmita, salalé, muchém.


"(...)
Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em sua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas. Não queres te inquietar com os grandes problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem.(...)" Saint-Exupéry, Terra dos Homens.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

The Big Pussy

É o fim da picada! (Desconfio que esteja sob o efeito da leitura do “Imbecil Coletivo”: tolerância zero). Ah, tenha dó! O cara me expõe uma “big pussy” na Bienal e tem a coragem de chamar essa merda de arte. Não tem paciência que dê conta de interpretar a tal da instalação! O pior é que tem gente que tem coragem de levar os filhos para apreciar: que beleza! A família inteira, juntinha, penetrando o vaginão! Depois o professor de constitucional, pós-moderníssimo, vem contar que na Holanda foi fundada a Igreja do Culto ao Cigarro e aos deuses da fumaça (alguma coisa assim), para fugir da lei anti-fumo, afinal de contas está garantida a liberdade de culto e religião. Pode acreditar? Acho ótimo, inteligentíssimo por parte dos holandeses... Afinal, o que fizeram foi bastante lógico, segundo a lógica ilógica do oba-oba relativista. Ora, se toda opinião, qualquer que seja, tem o mesmo valor, porque não? Aliás, de fato não existe diferença nenhuma entre a Unip e a Universidade de Oxford, entre o Pão de Açucar e o mercadinho aqui perto de casa, entre o papel do homem e da mulher... É tudo a mesma coisa... E ai de quem disser que não! E tem mais... Hoje em dia tornou-se preciso fazer uma advertência aos pais. Srs. Pais: comunicamos que nem todos os filhos nasceram para serem líderes. Não se desesperem se o seu filho for imperfeito: isso é normal! Eu fico aqui quieto, pensando que se todo mundo for líder, não vai mais haver líder nenhum. Sim, porque hoje em dia está todo mundo querendo ser líder e sonhando com a gerência. Além de ser rico, bonito, bem sucedido e absolutamente feliz. Estamos fabricando uma horda de frustrados... Converse com um jovem. A chance dele reclamar da própria vida é de 9 em 10. Por quê? Simplesmente porque o mundo em que ele vive é como político populista: promessas irreais e, obviamente, não cumpridas, com uma boa dose de subterfúgios carismáticos e esmolinhas ao gosto popular. O sujeito abraça a causa, sem nem desconfiar que é justamente daí que brotam todos os seus males: luta, luta, sonha, perde a vida a procura de algo que simplesmente não existe! Sobra a desilusão... e o ressentimento invejoso (porque, querendo ou não, existem sim pessoas muito bonitas, existem líderes verdadeiros e também os que conseguiram enriquecer... e daí?). É vergonhoso, irritante, triste pra valer. E tem paciência que dê conta? Não tem. Já tentou conversar com louco de hospício? No fim da conversa ele continua louquinho como sempre, nem se abala, e você sai se perguntando se o louco não é você... E se não tomar cuidado acaba se convencendo que “aquele” mundo existe de verdade. Então meus caros, na base do diálogo não funciona, não. Com louco só tem um jeito de lidar. Você pode até respeitá-lo, com uma boa dose de piedade, inclusive. Mas deve deixá-lo quietinho no canto dele, falando sozinho (ele não vai nem perceber), enquanto você cuida de tocar a vida para frente. Sim, minha gente, tocar a vida pra frente! E com os pesinhos no chão! Está na hora de acertar o prumo, de pôr o navio na direção correta! Sim, existe sim uma direção correta e outra incorreta, como existem o bem e o mal e a gente pode sim errar... E errar feio... E se dar muito mal por isso! Santa paciência! Santa paciência!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Aposentadoria - Capítulo Sétimo

Eu me aposentei muito cedo. Fui pára-quedista do exército, por isso pude me aposentar aos quarenta anos. O que tenho feito desde então? Bem, tenho vivido ao meu modo. Procuro ter uma rotina, ajudar nas tarefas de casa, fazer alguma atividade física. Há alguns anos comprei uma sonhada casa na praia e descemos para o litoral quase todo fim de semana. Às vezes estendo um pouco mais os dias, invado a semana, mas é raro, porque minha mulher trabalha e sozinho não tem muita graça. Aliás, talvez este seja um dos meus grandes problemas. Aposentar-se cedo é um pouco solitário: de repente você deixa de ser um cidadão comum, os amigos acham estranho, sua mulher começa a não gostar de te ver em casa todo dia, ninguém pode te acompanhar em atividades fora de hora, enfim. Mas, em compensação, eu tenho bastante tempo livre e dinheiro suficiente para viver bem sem ter que derramar uma gota de suor. Isso é o paraíso, é o sonho de qualquer um, não é? Assim eu oriento meus filhos: todos para o serviço público, senão vão acabar como a sua mãe! Rárárá... Um deles consegui convencer a seguir a carreira militar, mas o outro também se prepara para prestar algum concurso público. Eu digo para eles: tem que se encostar ao Estado, tem que encostar... Tem espaço para todo mundo conseguir o seu pedacinho de mordomia... Ora, ora... A vida não pode ser só trabalhar, tem que aprender a aproveitar o que ela nos dá de bom! Outro dia me perguntaram se eu era feliz. É claro que eu sou! Não gosto dessa gente que fica reclamando da vida... Eu lá posso reclamar da minha? Não reclamo, não. Também... Vou reclamar do que? Rárárá... Tem vezes que até sinto falta de um probleminha para resolver... Minha mulher fica doida comigo... Mas no fundo, no fundo me inveja, eu sei. É que a gente acaba se sentindo um pouco inútil, sabe? Mas logo passa... Eu arranjo algum serviço em casa, saio beber alguma coisa na rua, logo passa. É verdade que andei um tempo não muito bem... Comecei a perder a vontade de fazer as coisas... Qualquer coisa, desde tomar banho, até ter de levar meu filho ao curso ou mesmo comer. Sei lá o que foi que me deu, perdi a vontade de viver... Justamente eu, que sempre fui tão alegre, sempre aproveitei tanto meu ócio e fui presenteado pela vida com uma aposentadoria tão prematura! Acabei entrando na moda, certo? Não dizem que a depressão é doença da moda? Pois bem, acabei caindo no consultório de um psiquiatra... Foi a minha salvação! Ah! A piedosa medicina... Afinal de contas, a vida tem os seus percalços... Mesmo para quem não trabalha, acreditem... Rárárá... Depois deste terrível incidente, consegui virar a página e voltar à antiga forma: hoje vivo de gozar minha querida aposentadoria, presente que a vida me deu... E que os santos comprimidos médicos me garantem!

Aposentadoria - Capítulo Sexto

Eu considero este negócio de aposentadoria uma bobagem. Já bastam todos os impostos que esses filhos da mãe nos fazem pagar, ainda querem me tirar mais um tanto do meu bolso? Dizem que trabalhamos três meses por ano para o governo, porque vou querer trabalhar mais algum? Em minha opinião esse papo de governo, estado, democracia, é tudo uma enorme bobagem, um lero-lero para enganar trouxa. É só olhar para a história, isso nunca funcionou bem... É teoria e teoria para explicar o inexplicável: tem sempre o que manda e aproveita, e os que obedecem e se estrepam! E tem mais: temos que aceitar que com a humanidade vai ser sempre assim, na sujeira, não tem solução... E tem gente que ainda tem coragem de ser partidário, ter ideologia, ir atrás de voto. Para mim, das duas uma: ou entra para tirar proveito e se dar bem ou cai fora! Como não tenho estômago, nem paciência para política, prefiro ficar de fora. Sou daqueles que ainda precisa de algum sentido nas coisas que faz e, definitivamente, não sou capaz de acreditar em nada que venha da política. Isto tudo eu digo para justificar a razão pelo qual eu simplesmente não penso em aposentadoria, nem quero pensar. Faço minha vida a meu modo e o que desejo é ser cada vez mais livre. Por que é que vou ficar atrelado a mais uma “teta” do governo? Quero fugir a tentação. Comida em casa é meu suor que põe. E quando for velho, não há de faltar um filho que me acolha. Sofrer? Não tenho medo, não. Sofrimento a gente sofre, depois passa. Felicidade na velhice é para os covardes. Eu quero estar vivo, bem vivo, até o dia da minha morte.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Aposentadoria - Capítulo Quinto

_Precisamos pensar já na aposentadoria, isto não pode ser deixado para depois. Quanto antes planejarmos mais nos garantimos...
_Eu estou tranqüilo, meu pai começou a pagar a previdência quando eu tinha cinco anos, assim posso parar de trabalhar logo, logo.
_Mas depois de parar de trabalhar, o que você vai fazer da vida?
_Sei lá, viajar, conhecer o mundo, curtir por ai...
_Hum... Mas é melhor não contar com o governo... Você já viu as previsões dos especialistas? A previdência está quebrada... Você vai passar a vida inteira contribuindo e no final não vai conseguir receber nada... Pelo menos é o que dizem... Há um risco muito grande...
_E você vai acreditar nisso? Pode até estar quebrada, mas sempre vão pagar... O que você sugere? Arriscar é deixar isso para muito tarde... Muito perigoso... Tem que se garantir, tem que se garantir...
_Ora, hoje em dia tem a aposentadoria privada, escolha um banco... Ou invista em imóveis...
_E banco é mais confiável que o governo? Toda hora algum banco quebra e todo mundo se dá mal...
_Sei lá... O que eu quero mesmo é prestar concurso público... Pelo menos a aposentadoria é integral...
_Está maluco? Isso já acabou... E tende a piorar... Vai ficar igual a todo mundo...
_Por isso preciso entrar logo e garantir o meu...
_Mas eu pensei que você quisesse exercer a engenharia... Quando você prestou vestibular você sonhava em construir pontes, viadutos...
_Os tempos são outros... A gente amadurece... Eu preciso pensar no meu futuro... O mercado é muito violento, a concorrência é grande, preciso de algo mais garantido.
_Mas na engenharia não é possível?
_O que eu quero é emprego estável, trabalhar pouco, não ter chefe... Pelo menos não um que possa me mandar embora... E de brinde ainda levo uma gorda aposentadoria... Tem coisa melhor? Por que é que vou enfrentar entrevista, dinâmica em grupo, carreira em empresa?
_Mas e se você não gostar do que fizer? E se a aposentadoria demorar demais para vir?
_Ora, quem está falando... Isso a gente dá um jeito depois... Você mesmo... Se gostasse tanto do que faz não ia querer se aposentar tão cedo...
_Não, não é isso... É que trabalhar cansa... Todo dia a mesma coisa, acordar cedo, resolver problema... Passear é melhor, não? Por isso prefiro fazer tudo para esse dia chegar mais rápido...
_E se você morrer antes disso? Digo, morrer antes da aposentadoria?
_Morrer? Está maluco? Que pessimismo é esse? Só você, mesmo... Morrer...
_Ué, todo mundo morre um dia... E a gente nunca sabe a hora...
_Sai pra lá! Isso dá azar! Mas sabe que, mesmo pensando assim, você só reforça a minha teoria... É mais uma razão para eu me aposentar logo... Não quero estar velho e indisposto, muito menos morrer antes de curtir a tão sonhada aposentadoria.
_Bem, eu já penso diferente. Com meu cargo público pretendo não ter que esperar a aposentadoria para curtir a vida... Sim, porque com hora para entrar e para sair, salário fixo, estabilidade, trinta dias de férias, vou ter mais tempo livre, vou poder aproveitar muito mais. Nada de horas extras... Nada de ter medo de perder o emprego... Nada de ficar implorando aumento...
_Mesmo assim você terá que passar no mínimo oito horas trabalhando... Vai sobrar pouquíssimo tempo... Não é melhor se aposentar mais depressa?
_Isso não existe... Aposentaria é só depois de 35 anos de serviço...
_E se você morrer antes disso?
_Agora vem você falar em morrer... Nem sei por que disse isso... É claro que isso não vai acontecer tão cedo... Agora não é hora de pensar nisso... Antes de bater as botas eu quero curtir bastante a minha aposentadoria integral, nem que eu esteja velhinho...
_Sei lá, às vezes eu acho que você devia esquecer esse negócio de concurso, esta esperança de aposentadoria integral e ir atrás das suas pontes, dos seus prédios... Já pensou? Você pode ser um Niemayer! Ah! Se eu tivesse alguma coisa que eu gostasse pra valer de fazer, se tivesse um sonho assim... Talvez o trabalho não fosse tão ruim...
_É gostoso dar opinião na vida dos outros, não? Deixa que do meu sonho cuido eu... Niemayer, Niemayer... Os tempos são outros... Jamais conseguiria uma coisa dessas no mundo de hoje... Prefiro não trocar o certo pelo duvidoso... Vou é garantir o meu concurso, meu carguinho de hoje e a minha aposentadoria gorducha de amanhã!
_Só espero que você não se arrependa... Assim, quando você já estiver aposentado, sentado na poltrona da sala, fazendo o balanço da sua vida...
_Ora, ora... Eu? E você, sabichão!? Como estará quando estiver nesta mesma poltrona? Eu acho que você devia era parar de ficar obcecado com essa idéia de aposentadoria prematura e se preparar para ter que trabalhar... Afinal de contas, bem ou mal você terá que trabalhar. E não por pouco tempo... Viver a vida depositando tudo no futuro? Isso sim é que é loucura! No seu lugar arrumava um emprego melhor, que te permitisse ir curtindo a vida desde já... Depois que venha a aposentadoria e, daí, você curte mais ainda...
_Isso se eu não morrer antes...
_Morrer? Agora é você que está com essa história... Rárárá... Não é engraçado dois jovens como nós falando da morte? Vamos cuidar é da vida, que ela já nos dá bastante “trabalho”... Ou melhor... Vamos cuidar é de aproveitar a vida e esquecer o trabalho!
_É isso mesmo! Esse papo já estava ficando sério demais...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Aposentadoria - Capítulo Quarto

Ah! Aposentadoria... Vou simplesmente vestir o pijama! É pegar meus proventos integrais e não fazer mais nada! Ah! Aposentadoria... A realização da espécie humana em seus instintos mais comezinhos... Posso acordar lá pelas dez ou onze...não precisa ser muito tarde não... Tomo um bom café na padaria, leio meu jornal, vou pagar as contas, vou ao banco... Almoço com calma, tiro minha soneca em seguida (de pijama, é óbvio)... Lá pelas cinco, é só partir para a TV e esperar as horas passarem... Ah! Aposentadoria... Mas ficar tanto em casa deve cansar. Imagine ficar todas essas horas com a patroa buzinando na minha orelha, me mandando fazer as coisas, arrumar isto e aquilo. É preciso diversificar, posso arranjar uns “bicos” pra fazer, um ou outro trabalhinho, nada demais, nada que me desgaste demais, dá até pra ganhar mais uns trocados. Ou, então, um trabalho filantrópico, mas que não me exija demais, não tenho condições... Ou um fixo menos exigente... Bom, mas nada disso tirará o brilho, nem de perto, de poder dizer a todos: “- Eu sou aposentado!” Ah! Aposentadoria...

Aposentadoria - Capítulo Terceiro

Não vou me aposentar, quero morrer trabalhando, consumido pelos meus afazeres diários. Adoro o que faço, além de que não posso mais deixá-lo, dependo de meu trabalho financeira e psiquicamente. Não vou me aposentar. Ainda que ganhe uns trocos do INPS, não posso deixar meu trabalho, quem vai fazê-lo por mim? Claro que sempre tenho meus altos e baixos, mas minha vida só faz sentido se meu trabalho estiver presente. Não vou me aposentar. Os anos trouxeram-me uma experiência que pode ser muito útil em meu trabalho, claro que não tenho mais a mesma agilidade de antes, claro que o vigor físico não é mais o mesmo, que o cansaço é maior, mas a experiência, meu caro, a experiência me permite largar na frente, como no caso da lebre e da tartaruga, se lembra? Queimarei meu resto de lenha e pronto, o trabalho é a finalidade do homem ter sido posto na face da Terra. Não vou me aposentar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Aposentadoria - Capítulo Segundo

Quando eu me aposentar... Nada disso! O importante é o poder do agora! Não quero nada que me traga deveres. É urgente viver o momento, viajar, curtir, cair na noite. Quando eu me aposentar, pode ser tarde demais! Amanhã, pode ser tarde demais! Preciso pensar mais em mim, pensar nos outros também, mas desde que isto me beneficie... Nada como o já démodé custo-benefício! Trabalhar de segunda a sexta só para ser eu-mesmo a partir da sexta à noite! Trabalhar para gastar nas próximas férias em um lugar exótico da moda. Relacionamentos descolados, abertos, pluri, multi, extra, ultra. Quando for casar, que cafona! Vai ser para cada um continuar com sua vida! Filhos...se algum escapar, paciência, mas no máximo dois, para quando já estiver tudo estável, quando já tivermos feito o pé de meia... Quando eu me aposentar, a medicina já terá avançado muito, viverei cem anos! Cem anos muito bem vividos! Quero chegar lá bem conservado, não vou ser como esses velhos rabugentos...eu não! Vou ser um velhinho bem simpático, agradável, higiênico, ninguém pode com esses velhos de hoje... Mente jovem, pra frente, otimismo! Quando eu me aposentar, já terei realizado todos os meus projetos, serei tudo isso que sempre quis... Uma pessoa em sintonia com o mundo, consciente das grandes questões, informada, informatizada...com um curso superior, uma pós (talvez duas...) e um curso de inglês! Consciente da importância da sustentabilidade, da mundialização, do voto consciente. Aí está a razão de tudo o que faço, viver cada segundo sem deixar de ser autêntico, assim, quando eu me aposentar, cada segundo terá tido seu sentido na obra completa de minha vida.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aposentadoria - Capítulo Primeiro

Ah, quando eu me aposentar... Ah aí sim, terei tempo para tudo que sempre sonhei... Farei trabalhos sociais, viajarei o mundo, lerei os livros que sempre desejei. Isso porque o trabalho me deixa enfadonho – canso, reclamo, um dia após o outro é sempre muito enfadonho! Escreverei livros, cuidarei da saúde, conversarei com os outros, praticarei esportes, me divertirei, enfim, serei uma pessoa realizada! Hoje, nada disso é possível, faltam-me tempo, habilidades, ânimo... Mas quando eu me aposentar sim, serei outra pessoa, uma pessoa pronta para a completude, já despida dos despistes da juventude, plenamente convicto de minhas potencialidades. Ah, quando eu me aposentar... Hoje, é preciso ter uma profissão, construir uma casa, ter fontes de renda, educar os filhos, rezar, pagar meus impostos, tirar férias, ir ao shopping, ao supermercado, ao cinema... Mas quando eu me aposentar...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A utopia de um sonâmbulo

Eu tenho um plano. Vou vender tudo que tenho e comprarei um sítio em Minas Gerais. Lá criarei gado, porco, frango, coelhos e cabras. Plantarei uma boa horta e um pomar caprichado. Haverá um bosque e um lago. Ajudarei a construir a escola, o hospital e a igreja. Na vizinhança estarão todos os meus amigos e as pessoas de mau comportamento serão penalizadas até aprenderem. A palavra dada será o maior valor e tudo se resolverá amigavelmente. Haverá um belo teatro e uma biblioteca. No centro do povoado, de tempos em tempos, os mais velhos e os mais espertos se reunirão para decidir o que será necessário mudar. Todos receberão um pagamento conforme seu merecimento, em troca de fazerem o que entendam mais importante ao povoado, dentro de sua capacidade. Não haverá bancos, nem impostos, talvez algumas taxas. O delegado, o padre, o médico e os professores visitarão habitualmente todas as casas..., ora, porque serão amigos das famílias. Todos deverão reservar uma parte de seus ganhos para dar aos pobres e ajudar os amigos em necessidade, quem sabe um dia eu também não precise...Deus queira que não! Todos poderão sonhar em paz e não existirão títulos ou honrarias. A imprensa será livre, em cada mês o mimeógrafo de uma das casas produzirá o jornal, também quero ter o meu! Não haverá exuberantes sonhos de consumo, nem uma insaciável sede de transformar o mundo. As crianças serão alegres e poderão brincar sossegadas. Aqueles que trabalharem na escola, no hospital e na igreja deverão se preocupar realmente com o aprendizado, a saúde e a alma das pessoas. Esse é um sonho que tive, acho que estaria muito mais contente se já vivesse nesse sítio, se alguém souber onde se encontra me diga, pois já comecei a poupar minhas economias.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ernest Henley e nossa caminhança

Se caminhamos no rumo certo ou errado, isto é algo que apenas o tempo nos dirá. O fato é que semelhantes qualificativos acabam por se tornar demasiado abrangentes para abarcar toda a complexidade de nossas realidades. Enquanto jovens, somos puro potencial e a vida, tal como um caminho que se divide em incontáveis ramificações, supreende-nos e nos esmaga com a angústia de decidir que rumo tomar.

Como alívio, temos em mente a convicção de que qualquer caminho tomado poderá ser contornado. E que tal caminhança não fazemos sozinhos, mas na companhia de irmãos que por sofrerem na pele as mesmas dificuldades e circunstâncias, compreendem-nos como ninguém.

Sem apresentar respostas, porque creio que uma resposta, neste momento, não há, trago aos colegas as palavras de um poeta antes conhecido por este que vos fala, e que recentemente foi popularizado pela grande mídia.

Contemporâneo de D. H. Lawrence, muitos de seus poemas, porque considerados inspiradores, serviram de mote em momentos importantes da história. Especialmente Pro Rege Nostro (oh England, my England!), cujos versos eram muito conhecidos durante a primeira guerra mundial, contribuiu para que Henley saísse do esquecimento. Colhido pela tuberculose e pelo drama da amputação de uma perna, devido a uma infecção causada por esta doença, Ernest Henley redigiu o poema Invictus, que em latim reporta-se à idéia daquele que é inconquistável.

Os dois últimos versos dedico ao colega João Augusto, que jamais permitiu que vivêssemos inconscientemente, automaticamente, sem nos questionar.

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Água para João Augusto

Querido Amigo,

Infelizmente não tenho as respostas que procura, nem tenho a força para apaziguar o seu tormento, para dar-lhe o grito que tanto clama... Ofereço-lhe, no entanto, um pouco de água, nesta parada que fez em sua caminhança, esgotado e sem fôlego (porque paradas assim são essenciais para manter saudáveis os motores). Sem deixar de lembrar, como Santa Teresinha do Menino Jesus à uma irmã que admirava-se de suas poesias e de sua tamanha devoção: “Não se engane. Eu não canto a fé que possuo, mas a fé que desejo”. Assim é a água que compartilho, a mesmíssima água que também preciso e desejo (onde a encontro em abundância?)
Ora, meu caro, suas perguntas são simplesmente toda a pergunta. Este é o enigma da vida, cuja solução aponta para um mistério... A perfeição da vida não está em encontrar a decifração definitiva deste enigma, mas perseverar na batalha. Não desistir, seguir em frente! Todas as vezes que cedemos à tentação de achar respostas nos afastamos da vida (e morremos, pouco a pouco... no comodismo, no conforto sem esperança, na preguiça prazenteira, no desânimo...). Portanto, se se angustia na dúvida, quanto melhor! Está saudável! Sofre! Corre sangue em suas veias, ainda é um homem...
Quem está vivo neste mundo carrega a sua cruz e quem a aceita abraça a própria vida. A caminhança já está nos seus pés... A poesia já aconteceu na sua história... O sublime se revela aí mesmo onde você existe... Quem saberá a razão pela qual João Augusto existe? Por que cresceu nesta família, por que nesta cidade, neste país, com estes amigos, nesta profissão? Tudo assim, desde que nascemos, por quê? Não sei. Sei que é esta e não outra. E é só esta, especialmente feita para cada um de nós. Único lugar no mundo em que não somos inquilinos de nada e de ninguém (quem é que quer viver de aluguel?). Temos é que ter a coragem de abraçá-la, assim como ela é, imperfeita (e como é difícil! Tantas vezes desejamos qualquer outra vida, menos esta... Ter nascido na Itália, ser filho de um sultão, jogar bola como Ronaldinho, ser virtuose no piano, não ter medo, ter mais calma, uma namorada mais bonita, ser mais inteligente, tantas coisas, menos isto que eu sou, socorro!). Coragem de aceitar este presente que é estar vivo e lutar, porque nada pende inútil neste mundo... (que me perdoem os existencialistas, os pessimistas, os niilistas, os suicidas, os ateus e todos os malucos do gênero... Inclusive todos os que existem dentro de mim...).
Por fim, deixo ainda um último conforto, antes que você parta novamente para a sua sina. São palavras de outra santa, Teresa de Ávila, colhidas, certamente, neste mistério onde brotam as verdadeiras poesias:

Eficacia de La Paciencia

Nada te turbe,
Nada te espante,
Todo se pasa,
Dios no se muda,
La paciencia
Todo lo alcanza;
Quien a Dios tiene
Nada Le falta:
Solo Dios basta.


Coragem, amigo! Vamos juntos!

Grande Abraço,

Miguel.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Haroldo passa a fazer parte do blog

Vocês já chegaram a ter a desconfiança de que estão no rumo errado, mas que não podem retroceder ou não chegarão até o fim/fundo para desvendar se era verdade mesmo que deveriam voltar? Ser ou não ser o Calvin das tirinhas pra trás? Vocês já sentiram que não questionam para não ter de descobrir o erro? Quem terá a ousadia de nos jogar isso na cara?!! Por favor, jogue logo! Será que a vida se encarregará de fazê-lo? Será tarde...ou cedo demais? Quando? Onde? O quê? Por quê?!?!?!?!?!?! Já se faz presente na caminhança ou virá ao longo dela? Distanciamo-nos ou aproximamo-nos da coisa? Enfim...?!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Para dormir bem

Disse-me um professor: "Diz Sartre que a vida não tem sentido, cabendo-nos, simplesmente, dar-lhe sentido..." Isso, de certa forma me perturbou e, de tempos em tempos, volta a incomodar os meus miolos. Senti, há poucos dias, um tremendo desânimo, não conseguia mais ler uma página seja lá do que fosse. Tenho certeza que o maldito professor tem culpa. Agora, recuperado, lia um livro de autor moderníssimo, politicamente corretíssimo, engajadíssimo e sentia vontade de rir. Como alguém podia acreditar naquele monte de lorotas? E não é que é livro elogiado por doutíssimos e eminentíssimo... Sorte que me levou aos risos, fez bem para meu humor, para minha visão crítica... Ontem, assisti a alguns votos do STF, que tédio, quanta bizarrice, que ridículo! E temos que ficar por dentro das quentíssimas dessa côrte, tê-los por arautos da sabedoria, dominar seu palavreado assustador... Fiz, antes de ontem, uma audiência de instrução e o juiz foi simpático. Conversei com um amigo que está muito animado com os estudos jurídicos, comprando livros e mais livros. Eis as razões de minha insônia desta semana! Querem um conselho: mandem todos eles(especialmente o Sartre) tomar no cu e durmam em paz. Fim.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pequeno Desabafo

Eu sei que depois de tantos dias de silêncio a nossa caminhança mereceria algo mais caprichado. Mas permitam-me apenas este desabafo, bastante curto, a preguiça me impede de desenvolver melhor a digressão (ou talvez eu tenha sido infectado pelo ambiente que motivou esta minha vinda ao blog). O ambiente: a Casa dos Advogados, no dia de eleição da OAB (somado a alguns acontecimentos locais, que deixo de retratar). Perdoem-me se, por acaso, meu espírito foi invadido por uma excessiva sensibilidade, quase um medo, de ingenuidade pueril. Mas o asco, misturado a tristeza, é inevitável, como também foi inevitável despejá-lo aqui, para que não permaneça dentro de mim pelo resto do dia. Não por acaso a tal visita fez-me lembrar, contra a minha vontade, dos tempos em que eu frequentava a alta advocacia paulistana. Agora a situação é esta: Tenho diante de mim este mal estar indesejável, o presente amargo despejado sem licença no meu quintal, enquanto as víboras se deliciam da carniça. Por qualquer razão, algo sopra em meus ouvidos: "Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos".

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

À procura dos sábios

Para onde foram os sábios, aqueles tranqüilos senhores imunes à perturbação, assentados na paz do saber, no trono de um conhecimento suave e sem tremores? Por que diabos extinguimos tais anciãos, estes seres em quem podíamos confiar, estes homens que nos revelavam um mistério de paz e doçura?
Ia-se até o oráculo com perguntas, mas não se viam rugas em sua testa, não se via acelerar a respiração, nem roer de unhas ou mexer de pernas. Nada disso. O santo apenas balançava lentamente a cabeça, num gesto de compreensão, matutava um pouco, e, como sem movimentar músculos e quase sem agitar o ar, balbuciava verbos magníficos, palavras caídas do céu, que eriçavam a beleza dos enigmas mundanos até o mais longínquo altiplano, onde nosso sorriso não passa de mais um verso na poesia de uma terra feita de pura verdade.
Ai, mas que sonho bom, que dias tão ensolarados, nem sei mesmo se os sábios existiram, se são mitos, história ou estória, ilusão ou paixão, esperança ou tempo perdido. Sinto falta deles, sem os ter conhecido.
Às vezes fico cansado desta gente verborrágica, que não segura a matraca para disparar disparates. Queria perguntar ao sábio o que fazer diante de tão besta gente, que tudo culpa aos outros, ao capitalismo, às elites, ao neoliberalismo (se alguém souber o que é, por favor, mande um telegrama), à discriminação, ao plano econômico, blá blá blá. Quanta falta de imaginação e de pudor!
Ouvi uma mãe contar a triste história dela e de seu filho, que veio a entrar para as drogas e descambar para o crime e ser aprisionado, em prisões e no desespero. Chorei com ela e com sua sofrida luta. Depois de suas palavras, nada ouvi sobre o descaminhar da juventude, a falta de rigor na educação, sobre os malefícios das drogas, a irresponsabilidade da família e dos amigos, a falta de amor. Nada, absolutamente nada, a não ser que o governo isto, a escola aquilo, a polícia também aquilo outro e a sociedade mais um tanto.
Depois, um juiz de toga antiga contou de sua vida fora dos tribunais. Aprendeu a amar desde cedo e conseguiu ser amigo dos negros, dos pobres e dos doentes, das crianças abandonadas e dos que dormem nas praças. A todo momento, apontava o dedo para o próprio peito e alertava para sua imperfeição, contando como foi desbravar o cipoal de sua alma.
Mas o juiz não estava tranqüilo, não estava em paz. Sim, parecia até ser feliz, mais do que a média, talvez. Só que não era o sábio, não, não se parecia com aquele senhor imperturbável, de serenidade sólida e coração macio. Gostei de conhecer seu exemplo, de compartilhar seus sentimentos. Porém, nada de grande encantamento, de procurar seguir, nenhum ímpeto de discípulo. Aquele sujeito era como eu, quem sabe melhor do que eu, mas não deixava de ser assim miserável, como sou e somos.
Parece que estamos esperando algo acontecer e este algo não aparece. Teima em ficar na espreita, atrapalhando nosso sossego, não vem nem vai, não chega nem sai. Deve ser a pós-modernidade... Piada sem graça. Coisa mais desnecessária inventar palavras para dizer que simplesmente não sabemos o que está havendo. Os sábios fazem muita falta.