sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Vocação por Saint-Exupéry
(...)Mas, que é vocação?
Antes de mais nada, toda vocação é sempre espiritual. Ela é a descoberta de nossa verdadeira essência, que está intimamente unida ao ato pelo qual ela se torna efetiva. Cada ser chega, assim, a uma grandeza que lhe é própria. A vocação é uma resposta a um chamado ítimo e secreto, independente da vontade própria e das solicitações exteriores. Ela é, inicialmente, um poder que nos é oferecido. O caráter original de nossa vida espiritual é o nosso consentimento em fazê-la nossa. A vocação se torna, então, nossa essência verdadeira. Para satisfazê-la é preciso sacrificar-lhe os objetos habituais do interesse ou do desejo. Invisível, ela transfigura as mais humildes tarefas da vida cotidiana. A vocação é o sentimento de um acordo entre o que temos a fazer e os dons que recebemos. Ela é uma luz e uma força. É por ela que nascemos para a vida espiritual e temos o sentimento de não mais vivermos isolados e inúteis. A vocação nos faz responsáveis, sem jamais esperar por nossas possíveis hesitações. Sabemos, porém, que o homem tem medo de comprometer-se depressa demais. E os mais prudentes, assim como os mais ambiciosos, ficam em reserva e esperam... e deixam passar o momento, o chamado ou a vocação, porque eles desejam um destino mais brilhante, ou estão fechados dentro do estreito círculo das solicitações de tudo o que ambicionam abarcar. Os que têm a coragem de comprometer-se, longe de sentirem-se limitados, sentem-se fortes dentro de sua própria escolha.
A vocação só se manifesta na ação. Toda posse ideal, que se recusa a realizar, sob pretexto de dá-la pura, é pura ilusão. O homem é posto continuamente em face da opção e ele deve apostar e correr o risco dessa proposta. E a fidelidade a si mesmo, à sua vocação que é única no mundo, mesmo que seja no meio das maiores dificuldades, é a verdadeira coragem.
Exupéry podia escrever a 8 de dezembro de 1942:
"Julgo de pouca importância a coragem física, e a vida ensinou-me qual é a coragem verdadeira: é aquela que nos faz resistir à condenação do ambiente em que se vive. Eu sei, e disto tenho certeza, que fui muito mais corajoso em não me desviar do caminho traçado por minha consciência, apesar de dois anos de injúrias e difamações, do que se tivesse ido fotografar Mogúncia ou Essen."
E podia legar-nos este testamento pouco antes de morrer:
"Fui sempre coerente com meus princípios, assim como esses princípios eram coerentes com os interesses gerais que eles pretendem servir.
Minha posição é coerente com meus atos, é coerente com meus desejos.
Não há uma única linha escrita por mim, durante toda a minha existência, que eu precise justificar, riscar ou desmentir."
Sua vida prova que ele não teve medo de engajar-se cedo demais. A cada apelo, a cada vocação, ele sentia obrigado a escolher, a aperfeiçoar-se, a "renascer". Em Citadelle, Exupéry chama a vocação de "a voz de Deus que é necessidade, busca e sede inexprimíveis", e nós sabemos que ele lhe respondia sempre com um esforço de fidelidade cada vez maior.
"Sem esta vocação, que necessidade havia de levantar-te então à procura de teu cântico e a uma ascensão mais árdua a fim de colocar sob teus pés a paisagem montanhosa que se tornou desordem, ou para salvar em ti o sol, que não se ganha uma vez para sempre, mas que se ganha na busca de cada dia?"
(...)
Trecho de "Saint-Exupéry e o Pequeno Príncipe" de Rosa Maria.
sábado, 16 de julho de 2011
Confissões de Antônio Carlos
Este blog realmente é importante. Não pelas pessoas que acidentalmente por aqui passam, mas por constituir um registro vivo deste percurso.
Olhando-o rapidamente deparo-me com Pedrão no texto abaixo, novamente nos brindando com sua tradicional eloquencia e com a fineza e percuciência no trato com as palavras. E Miguelito, do mesmo modo, figura onipresente em cada página deste blog, compartilha conosco, a cada momento suas angústias e pensamentos sobre as agruras da vida. Por fim, não é possível ainda olvidar João Augusto, o barba de fogo, que mantém nos textos que escreve a mesma característica dos diálogos frente a frente. Comentários argutos, que denotam quão afiada é sua inteligência.
Quisera eu poder me expressar como os demais colegas, aos quais, de peito aberto, nesta oportunidade peço desculpas pelo longo e forçado período de silêncio.
Culpo-me, na verdade, por colocar preocupações menores com o excesso de trabalho e com o estudo para concursos acima das coisas que verdadeiramente me animam o espírito e me alimentam a alma.
Somente a convivência com os senhores, insisto em destacar, me impele novamente a transcender os maus menores do dia-a-dia, que tantas vezes nos sufocam e nos desviam do verdadeiro caminho.
Percebo que mesmo à distância, este convívio virtual, temperado por agora escassos encontros presenciais, é imprescindível em minha vida. Por vezes, é necessário um puxão de orelhas para que ocorra o despertar mas o sono em si nunca foi efetivamente profundo.
Saibam, de todo modo, que os acompanho, por vezes calado, mas me mantenho presente nesta longínqua e interminável caminhança de nossas vidas.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Curativo
terça-feira, 19 de abril de 2011
Cupim, térmite, térmita, salalé, muchém.

"(...)
Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em sua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas. Não queres te inquietar com os grandes problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem.(...)" Saint-Exupéry, Terra dos Homens.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
The Big Pussy
É o fim da picada! (Desconfio que esteja sob o efeito da leitura do “Imbecil Coletivo”: tolerância zero). Ah, tenha dó! O cara me expõe uma “big pussy” na Bienal e tem a coragem de chamar essa merda de arte. Não tem paciência que dê conta de interpretar a tal da instalação! O pior é que tem gente que tem coragem de levar os filhos para apreciar: que beleza! A família inteira, juntinha, penetrando o vaginão! Depois o professor de constitucional, pós-moderníssimo, vem contar que na Holanda foi fundada a Igreja do Culto ao Cigarro e aos deuses da fumaça (alguma coisa assim), para fugir da lei anti-fumo, afinal de contas está garantida a liberdade de culto e religião. Pode acreditar? Acho ótimo, inteligentíssimo por parte dos holandeses... Afinal, o que fizeram foi bastante lógico, segundo a lógica ilógica do oba-oba relativista. Ora, se toda opinião, qualquer que seja, tem o mesmo valor, porque não? Aliás, de fato não existe diferença nenhuma entre a Unip e a Universidade de Oxford, entre o Pão de Açucar e o mercadinho aqui perto de casa, entre o papel do homem e da mulher... É tudo a mesma coisa... E ai de quem disser que não! E tem mais... Hoje em dia tornou-se preciso fazer uma advertência aos pais. Srs. Pais: comunicamos que nem todos os filhos nasceram para serem líderes. Não se desesperem se o seu filho for imperfeito: isso é normal! Eu fico aqui quieto, pensando que se todo mundo for líder, não vai mais haver líder nenhum. Sim, porque hoje em dia está todo mundo querendo ser líder e sonhando com a gerência. Além de ser rico, bonito, bem sucedido e absolutamente feliz. Estamos fabricando uma horda de frustrados... Converse com um jovem. A chance dele reclamar da própria vida é de 9 em 10. Por quê? Simplesmente porque o mundo em que ele vive é como político populista: promessas irreais e, obviamente, não cumpridas, com uma boa dose de subterfúgios carismáticos e esmolinhas ao gosto popular. O sujeito abraça a causa, sem nem desconfiar que é justamente daí que brotam todos os seus males: luta, luta, sonha, perde a vida a procura de algo que simplesmente não existe! Sobra a desilusão... e o ressentimento invejoso (porque, querendo ou não, existem sim pessoas muito bonitas, existem líderes verdadeiros e também os que conseguiram enriquecer... e daí?). É vergonhoso, irritante, triste pra valer. E tem paciência que dê conta? Não tem. Já tentou conversar com louco de hospício? No fim da conversa ele continua louquinho como sempre, nem se abala, e você sai se perguntando se o louco não é você... E se não tomar cuidado acaba se convencendo que “aquele” mundo existe de verdade. Então meus caros, na base do diálogo não funciona, não. Com louco só tem um jeito de lidar. Você pode até respeitá-lo, com uma boa dose de piedade, inclusive. Mas deve deixá-lo quietinho no canto dele, falando sozinho (ele não vai nem perceber), enquanto você cuida de tocar a vida para frente. Sim, minha gente, tocar a vida pra frente! E com os pesinhos no chão! Está na hora de acertar o prumo, de pôr o navio na direção correta! Sim, existe sim uma direção correta e outra incorreta, como existem o bem e o mal e a gente pode sim errar... E errar feio... E se dar muito mal por isso! Santa paciência! Santa paciência!
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Aposentadoria - Capítulo Sétimo
Aposentadoria - Capítulo Sexto
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Aposentadoria - Capítulo Quinto
_Eu estou tranqüilo, meu pai começou a pagar a previdência quando eu tinha cinco anos, assim posso parar de trabalhar logo, logo.
_Mas depois de parar de trabalhar, o que você vai fazer da vida?
_Sei lá, viajar, conhecer o mundo, curtir por ai...
_Hum... Mas é melhor não contar com o governo... Você já viu as previsões dos especialistas? A previdência está quebrada... Você vai passar a vida inteira contribuindo e no final não vai conseguir receber nada... Pelo menos é o que dizem... Há um risco muito grande...
_E você vai acreditar nisso? Pode até estar quebrada, mas sempre vão pagar... O que você sugere? Arriscar é deixar isso para muito tarde... Muito perigoso... Tem que se garantir, tem que se garantir...
_Ora, hoje em dia tem a aposentadoria privada, escolha um banco... Ou invista em imóveis...
_E banco é mais confiável que o governo? Toda hora algum banco quebra e todo mundo se dá mal...
_Sei lá... O que eu quero mesmo é prestar concurso público... Pelo menos a aposentadoria é integral...
_Está maluco? Isso já acabou... E tende a piorar... Vai ficar igual a todo mundo...
_Por isso preciso entrar logo e garantir o meu...
_Mas eu pensei que você quisesse exercer a engenharia... Quando você prestou vestibular você sonhava em construir pontes, viadutos...
_Os tempos são outros... A gente amadurece... Eu preciso pensar no meu futuro... O mercado é muito violento, a concorrência é grande, preciso de algo mais garantido.
_Mas na engenharia não é possível?
_O que eu quero é emprego estável, trabalhar pouco, não ter chefe... Pelo menos não um que possa me mandar embora... E de brinde ainda levo uma gorda aposentadoria... Tem coisa melhor? Por que é que vou enfrentar entrevista, dinâmica em grupo, carreira em empresa?
_Mas e se você não gostar do que fizer? E se a aposentadoria demorar demais para vir?
_Ora, quem está falando... Isso a gente dá um jeito depois... Você mesmo... Se gostasse tanto do que faz não ia querer se aposentar tão cedo...
_Não, não é isso... É que trabalhar cansa... Todo dia a mesma coisa, acordar cedo, resolver problema... Passear é melhor, não? Por isso prefiro fazer tudo para esse dia chegar mais rápido...
_E se você morrer antes disso? Digo, morrer antes da aposentadoria?
_Morrer? Está maluco? Que pessimismo é esse? Só você, mesmo... Morrer...
_Ué, todo mundo morre um dia... E a gente nunca sabe a hora...
_Sai pra lá! Isso dá azar! Mas sabe que, mesmo pensando assim, você só reforça a minha teoria... É mais uma razão para eu me aposentar logo... Não quero estar velho e indisposto, muito menos morrer antes de curtir a tão sonhada aposentadoria.
_Bem, eu já penso diferente. Com meu cargo público pretendo não ter que esperar a aposentadoria para curtir a vida... Sim, porque com hora para entrar e para sair, salário fixo, estabilidade, trinta dias de férias, vou ter mais tempo livre, vou poder aproveitar muito mais. Nada de horas extras... Nada de ter medo de perder o emprego... Nada de ficar implorando aumento...
_Mesmo assim você terá que passar no mínimo oito horas trabalhando... Vai sobrar pouquíssimo tempo... Não é melhor se aposentar mais depressa?
_Isso não existe... Aposentaria é só depois de 35 anos de serviço...
_E se você morrer antes disso?
_Agora vem você falar em morrer... Nem sei por que disse isso... É claro que isso não vai acontecer tão cedo... Agora não é hora de pensar nisso... Antes de bater as botas eu quero curtir bastante a minha aposentadoria integral, nem que eu esteja velhinho...
_Sei lá, às vezes eu acho que você devia esquecer esse negócio de concurso, esta esperança de aposentadoria integral e ir atrás das suas pontes, dos seus prédios... Já pensou? Você pode ser um Niemayer! Ah! Se eu tivesse alguma coisa que eu gostasse pra valer de fazer, se tivesse um sonho assim... Talvez o trabalho não fosse tão ruim...
_É gostoso dar opinião na vida dos outros, não? Deixa que do meu sonho cuido eu... Niemayer, Niemayer... Os tempos são outros... Jamais conseguiria uma coisa dessas no mundo de hoje... Prefiro não trocar o certo pelo duvidoso... Vou é garantir o meu concurso, meu carguinho de hoje e a minha aposentadoria gorducha de amanhã!
_Só espero que você não se arrependa... Assim, quando você já estiver aposentado, sentado na poltrona da sala, fazendo o balanço da sua vida...
_Ora, ora... Eu? E você, sabichão!? Como estará quando estiver nesta mesma poltrona? Eu acho que você devia era parar de ficar obcecado com essa idéia de aposentadoria prematura e se preparar para ter que trabalhar... Afinal de contas, bem ou mal você terá que trabalhar. E não por pouco tempo... Viver a vida depositando tudo no futuro? Isso sim é que é loucura! No seu lugar arrumava um emprego melhor, que te permitisse ir curtindo a vida desde já... Depois que venha a aposentadoria e, daí, você curte mais ainda...
_Isso se eu não morrer antes...
_Morrer? Agora é você que está com essa história... Rárárá... Não é engraçado dois jovens como nós falando da morte? Vamos cuidar é da vida, que ela já nos dá bastante “trabalho”... Ou melhor... Vamos cuidar é de aproveitar a vida e esquecer o trabalho!
_É isso mesmo! Esse papo já estava ficando sério demais...
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Aposentadoria - Capítulo Quarto
Aposentadoria - Capítulo Terceiro
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Aposentadoria - Capítulo Segundo
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Aposentadoria - Capítulo Primeiro
quarta-feira, 30 de junho de 2010
A utopia de um sonâmbulo
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Ernest Henley e nossa caminhança
Como alívio, temos em mente a convicção de que qualquer caminho tomado poderá ser contornado. E que tal caminhança não fazemos sozinhos, mas na companhia de irmãos que por sofrerem na pele as mesmas dificuldades e circunstâncias, compreendem-nos como ninguém.
Sem apresentar respostas, porque creio que uma resposta, neste momento, não há, trago aos colegas as palavras de um poeta antes conhecido por este que vos fala, e que recentemente foi popularizado pela grande mídia.
Contemporâneo de D. H. Lawrence, muitos de seus poemas, porque considerados inspiradores, serviram de mote em momentos importantes da história. Especialmente Pro Rege Nostro (oh England, my England!), cujos versos eram muito conhecidos durante a primeira guerra mundial, contribuiu para que Henley saísse do esquecimento. Colhido pela tuberculose e pelo drama da amputação de uma perna, devido a uma infecção causada por esta doença, Ernest Henley redigiu o poema Invictus, que em latim reporta-se à idéia daquele que é inconquistável.
Os dois últimos versos dedico ao colega João Augusto, que jamais permitiu que vivêssemos inconscientemente, automaticamente, sem nos questionar.
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Água para João Augusto
Infelizmente não tenho as respostas que procura, nem tenho a força para apaziguar o seu tormento, para dar-lhe o grito que tanto clama... Ofereço-lhe, no entanto, um pouco de água, nesta parada que fez em sua caminhança, esgotado e sem fôlego (porque paradas assim são essenciais para manter saudáveis os motores). Sem deixar de lembrar, como Santa Teresinha do Menino Jesus à uma irmã que admirava-se de suas poesias e de sua tamanha devoção: “Não se engane. Eu não canto a fé que possuo, mas a fé que desejo”. Assim é a água que compartilho, a mesmíssima água que também preciso e desejo (onde a encontro em abundância?)
Ora, meu caro, suas perguntas são simplesmente toda a pergunta. Este é o enigma da vida, cuja solução aponta para um mistério... A perfeição da vida não está em encontrar a decifração definitiva deste enigma, mas perseverar na batalha. Não desistir, seguir em frente! Todas as vezes que cedemos à tentação de achar respostas nos afastamos da vida (e morremos, pouco a pouco... no comodismo, no conforto sem esperança, na preguiça prazenteira, no desânimo...). Portanto, se se angustia na dúvida, quanto melhor! Está saudável! Sofre! Corre sangue em suas veias, ainda é um homem...
Quem está vivo neste mundo carrega a sua cruz e quem a aceita abraça a própria vida. A caminhança já está nos seus pés... A poesia já aconteceu na sua história... O sublime se revela aí mesmo onde você existe... Quem saberá a razão pela qual João Augusto existe? Por que cresceu nesta família, por que nesta cidade, neste país, com estes amigos, nesta profissão? Tudo assim, desde que nascemos, por quê? Não sei. Sei que é esta e não outra. E é só esta, especialmente feita para cada um de nós. Único lugar no mundo em que não somos inquilinos de nada e de ninguém (quem é que quer viver de aluguel?). Temos é que ter a coragem de abraçá-la, assim como ela é, imperfeita (e como é difícil! Tantas vezes desejamos qualquer outra vida, menos esta... Ter nascido na Itália, ser filho de um sultão, jogar bola como Ronaldinho, ser virtuose no piano, não ter medo, ter mais calma, uma namorada mais bonita, ser mais inteligente, tantas coisas, menos isto que eu sou, socorro!). Coragem de aceitar este presente que é estar vivo e lutar, porque nada pende inútil neste mundo... (que me perdoem os existencialistas, os pessimistas, os niilistas, os suicidas, os ateus e todos os malucos do gênero... Inclusive todos os que existem dentro de mim...).
Por fim, deixo ainda um último conforto, antes que você parta novamente para a sua sina. São palavras de outra santa, Teresa de Ávila, colhidas, certamente, neste mistério onde brotam as verdadeiras poesias:
Eficacia de La Paciencia
Nada te turbe,
Nada te espante,
Todo se pasa,
Dios no se muda,
La paciencia
Todo lo alcanza;
Quien a Dios tiene
Nada Le falta:
Solo Dios basta.
Coragem, amigo! Vamos juntos!
Grande Abraço,
Miguel.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Haroldo passa a fazer parte do blog
sexta-feira, 5 de março de 2010
Para dormir bem
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Pequeno Desabafo
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
À procura dos sábios
Ia-se até o oráculo com perguntas, mas não se viam rugas em sua testa, não se via acelerar a respiração, nem roer de unhas ou mexer de pernas. Nada disso. O santo apenas balançava lentamente a cabeça, num gesto de compreensão, matutava um pouco, e, como sem movimentar músculos e quase sem agitar o ar, balbuciava verbos magníficos, palavras caídas do céu, que eriçavam a beleza dos enigmas mundanos até o mais longínquo altiplano, onde nosso sorriso não passa de mais um verso na poesia de uma terra feita de pura verdade.
Ai, mas que sonho bom, que dias tão ensolarados, nem sei mesmo se os sábios existiram, se são mitos, história ou estória, ilusão ou paixão, esperança ou tempo perdido. Sinto falta deles, sem os ter conhecido.
Às vezes fico cansado desta gente verborrágica, que não segura a matraca para disparar disparates. Queria perguntar ao sábio o que fazer diante de tão besta gente, que tudo culpa aos outros, ao capitalismo, às elites, ao neoliberalismo (se alguém souber o que é, por favor, mande um telegrama), à discriminação, ao plano econômico, blá blá blá. Quanta falta de imaginação e de pudor!
Ouvi uma mãe contar a triste história dela e de seu filho, que veio a entrar para as drogas e descambar para o crime e ser aprisionado, em prisões e no desespero. Chorei com ela e com sua sofrida luta. Depois de suas palavras, nada ouvi sobre o descaminhar da juventude, a falta de rigor na educação, sobre os malefícios das drogas, a irresponsabilidade da família e dos amigos, a falta de amor. Nada, absolutamente nada, a não ser que o governo isto, a escola aquilo, a polícia também aquilo outro e a sociedade mais um tanto.
Depois, um juiz de toga antiga contou de sua vida fora dos tribunais. Aprendeu a amar desde cedo e conseguiu ser amigo dos negros, dos pobres e dos doentes, das crianças abandonadas e dos que dormem nas praças. A todo momento, apontava o dedo para o próprio peito e alertava para sua imperfeição, contando como foi desbravar o cipoal de sua alma.
Mas o juiz não estava tranqüilo, não estava em paz. Sim, parecia até ser feliz, mais do que a média, talvez. Só que não era o sábio, não, não se parecia com aquele senhor imperturbável, de serenidade sólida e coração macio. Gostei de conhecer seu exemplo, de compartilhar seus sentimentos. Porém, nada de grande encantamento, de procurar seguir, nenhum ímpeto de discípulo. Aquele sujeito era como eu, quem sabe melhor do que eu, mas não deixava de ser assim miserável, como sou e somos.
Parece que estamos esperando algo acontecer e este algo não aparece. Teima em ficar na espreita, atrapalhando nosso sossego, não vem nem vai, não chega nem sai. Deve ser a pós-modernidade... Piada sem graça. Coisa mais desnecessária inventar palavras para dizer que simplesmente não sabemos o que está havendo. Os sábios fazem muita falta.