sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A verdadeira causa da renúncia do Papa


Leia abaixo o emocionante artigo de um jovem de 23 anos sobre esse evento histórico para fé católica:


A verdadeira causa da renúncia do Papa.
Tenho 23 anos e ainda não entendo muitas coisas. E há muitas coisas que não se podem entender às 8 da manhã quando te dirigem a palavra para dizer com a maior simplicidade: "Daniel, o papa se demitiu". E eu de supetão respondi: "Demitiu?" A resposta era mais do que óbvia, "Quer dizer que renunciou, Daniel, o Papa renunciou!"
O Papa renunciou. Assim irão acordar inúmeros jornais da manhã, assim começará o dia para a maioria. Assim, de um instante para o outro, uns quantos perderão a fé e outros muitos fortalecerão a sua. Mas este negócio de o Papa renunciar é uma dessas coisas que não se intendem.
Eu sou católico. Um entre tantos. Destes católicos que durante sua infância foi levado à Missa, depois cresceu e foi tomado pelo tédio. Foi então que, a uma certa altura, joguei fora todas as minhas crenças e levei a Igreja junto. Porém a Igreja não é para ser levada nem por mim, nem por ninguém (nem pelo Papa). Depois a uma certa altura de minha vida, voltei a ter gosto por meu lado espiritual (sabe como é, do mesmo jeito como se fica amarrado na menina que vai à Missa, e nos guias fantásticos que chamamos de padres), e, assim, de forma quase banal e simples, continuei por um caminho pelo qual hoje eu digo: sou católico. Um entre muitos, sim, porém, mesmo assim, católico. Porém, quer você seja um doutor em teologia ou um analfabeto em escrituras (destes como existem milhões por aí), o que todo mundo sabe é que o Papa é o Papa. Odiado, amado, objeto de zombaria e de orações, o Papa é o Papa, e o Papa morre como Papa.
Por isto, quando acordei com a notícia, como outros milhões de seres humanos, nos perguntamos: por que? Por que renuncias, senhor Ratzinger? Ficou com medo? Foi consumido pela idade? Perdeu a fé? Ganhou a fé? E hoje, depois de 12 horas, acho que encontrei a resposta: o Senhor Ratzinger renunciou, porque é o que ele fez a sua vida inteira.
É simples assim.
O Papa renunciou a uma vida normal. Renunciou a ter uma esposa. Renunciou a ter filhos. Renunciou a ganhar um salário. Renunciou à mediocridade. Renunciou às horas de sono, em troca de horas de estudo. Renunciou a ser um padre a mais, porém também renunciou a ser um padre especial. Renunciou a encher sua cabeça de Mozart, para enchê-la de teologia. Renunciou a chorar nos braços de seus pais. Renunciou a estar aposentado aos 85 anos, desfrutando de seus netos na comodidade de sua casa e no calor de uma lareira. Renunciou a desfrutar de seu país. Renunciou à comodidade de dias livres. Renunciou à vaidade. Renunciou a se defender contra os que o atacavam. Pois bem, para mim a coisa é óbvia: o Papa é um sujeito apegado à renúncia.
E hoje ele volta a demonstrá-lo. Um Papa que renuncia a seu pontificado, quando sabe que a Igreja não está em suas mãos, mas na de algo ou alguém maior, parece-me um Papa sábio. Ninguém é maior que a Igreja. Nem o Papa, nem os seus sacerdotes, nem seus leigos, nem os casos de pederastia, nem os casos de misericórdia. Ninguém é maior do que ela. Porém, ser Papa a esta altura da história, é um ato de heroísmo (destes que se realizam diariamente em meu país e ninguém os nota). Eu me lembro sem dúvida da história do primeiro Papa. Um tal... Pedro. Como foi que morreu? Sim, numa cruz, crucificado como o seu mestre, só que de cabeça para baixo.
Nos dias de hoje, Ratzinger se despede da mesma maneira. Crucificado pelos meios de comunicação, crucificado pela opinião pública e crucificado por seus próprios irmãos católicos. Crucificado à sombra de alguém mais carismático. Crucificado na humildade, essa que custa tanto entender. É um mártir contemporâneo, destes a respeito dos quais inventam histórias, destes que são caluniados, destes que são acusados, e não respondem. E quando responde, a única coisa que fazem é pedir perdão. "Peço perdão por minhas faltas". Nem mais, nem menos. Que coragem, que ser humano especial. Mesmo que eu fosse um mórmon, ateu, homossexual ou abortista, o fato de eu ver um sujeito de quem se diz tanta coisa, de quem tanta gente faz chacota e, mesmo assim, responde desta forma... este tipo de pessoas já não existe em nosso mundo.
Vivo em um mundo onde é divertido zombar do Papa, porém é pecado mortal fazer piada de um homossexual (para depois certamente ser tachado de bruto, intolerante, fascista, direitista e nazista). Vivo num mundo onde a hipocrisia alimenta as almas de todos nós. Onde podemos julgar um sujeito que, com 85 anos, quer o melhor para a Instituição que representa. Nós, porém, vamos com tudo contra ele porque, "com que direito ele renuncia?" Claro, porque no mundo NINGUÉM renuncia a nada. Como se ninguém tivesse preguiça de ir à escola. Como se ninguém tivesse preguiça de trabalhar. Como se vivesse num mundo em que todos os senhores de 85 anos estivessem ativos e trabalhando (e ainda por cima sem ganhar dinheiro) e ajudando a multidões. Pois é.
Pois agora eu sei, senhor Ratzinger, que vivo em um mundo que irá achá-lo muito estranho. Num mundo que não leu seus livros, nem suas encíclicas, porém que daqui a 50 anos ainda irá recordar como, com um gesto simples de humildade, um homem foi Papa e, quando viu que havia algo melhor no horizonte, decidiu afastar-se por amor à Igreja. Morra então tranquilo, senhor Ratzinger. Sem homenagens pomposas, sem corpo exibido em São Pedro, sem milhares chorando e esperando que a luz de seu quarto seja apagada. Morra então como viveu, embora fosse Papa: humilde.
Bento XVI, obrigado por suas renúncias.
Quero somente pedir minhas mais humildes desculpas se alguém se sentiu ofendido ou insultado com meu artigo. Considero a cada uma (mórmons, homossexuais, ateus e abortistas) como um irmão meu, nem mais nem menos. Sorriam, que vale a pena ser feliz.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"Eu sabia da renúncia desde Setembro de 2011"


Autor: Antonio Socci | 12 de fevereiro de 2013.

A renúncia de Bento XVI não é somente uma notícia explosiva, mas um evento epocal, sem precedentes (pode-se citar o caso de Celestino V, há setecentos anos, mas foi um acontecimento muito diferente, num contexto bem diverso). O que está acontecendo diante de nossos olhos é um acontecimento que, pela sua própria natureza planetária e espiritual, faz empalidecer todas as outras notícias de acontecimentos destes dias e certamente não tem relação alguma com elas (a começar com as eleições italianas). Ontem, Ezio Mauro, na reunião de redação de "República" transmitida no site, e que obviamente foi dedicada ao pontífice, revelou que Bento XVI chegou a esta decisão "depois de uma longa reflexão. Hoje pela manhã – acrescentou Mauro – ele nos disse que já tinha tomado a decisão há tempo e que mesmo assim a manteve no segredo".
Na realidade a decisão foi tomada, pelo menos desde o verão de 2011 e não era mais uma notícia secreta desde 25 de setembro de 2011, quando, neste jornal, eu a trouxe à luz, tendo dela sabido de diversas fontes, todas confiáveis e independentes umas das outras. Naquela ocasião, a entrega do cargo fora pensada, por Ratzinger, para o seu aniversário de 85 anos, ou seja, na primavera de 2012. O problema é que, dois meses depois do meu artigo, no outono de 2011, começou a eclodir o caso do vazamento de informações do Vaticano (conhecido como Vatileaks) e imediatamente ficou claro – até que não se concluísse o caso – que o Santo Padre não colocaria em prática sua decisão. De fato, no livro de entrevista publicado há alguns anos, "Luz do mundo", com Peter Seewald, analisando a possibilidade de renúncia de forma teórica, explicara que, quando a Igreja se encontra em meio a uma tempestade, um Papa não pode renunciar. Por isto, no dia 11 de março de 2012, faltando um mês para o aniversário de 85 anos do Pontífice (que é 16 de abril), eu escrevi nesta coluna: "É necessário que se diga que a tempestade que se abateu nestes meses sobre a Cúria vaticana, em particular sobre a Secretaria de Estado, afastou a hipótese da renúncia do Papa, o qual sempre deixou claro que a renúncia deve ser excluída quando a Igreja está em grande dificuldade, pois poderia parecer uma fuga da responsabilidade". A forma como os fatos se desenvolveram posteriormente confirma esta reconstrução. Já que a renúncia do Papa aconteceu, finalmente, passado exatamente um mês da conclusão definitiva do caso Vatileaks, com o perdão concedido ao mordomo Paulo Gabriele. Sinal de que esta renúncia já havia sido efetivamente pensada no verão de 2011. Eis as razões apresentadas ontem pelo Papa: "cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino". Com sua habitual clareza, o Papa disse a simples verdade e fez a escolha que considera a melhor para o bem da Igreja, escolha esta, aliás, de humildade, que é uma característica importante de sua humanidade e de sua fé. Nós, no entanto, podemos e devemos observar que quase todos os papas precedentes envelheceram e permaneceram no cargo, embora com forças reduzidas, governando através de seus colaboradores. Pode-se então levantar a hipótese que Bento XVI não tenha feito esta escolha por julgar não ter colaboradores à altura desta tarefa (com a sua renúncia, decaem os cargos mais importantes da cúria). Pode-se claramente dizer que Bento XVI foi um grande pontífice e que o seu pontificado foi – ao menos em parte – dificultado por uma Cúria que não estava à sua altura, mas também pela escassa sintonia com o Papa por parte do episcopado. Joseph Ratzinger, que confirma ser um papa extraordinário também com esta sua saída de cena, certamente carregou a cruz do ministério petrino sofrendo muito e dando tudo de si mesmo (não lhe faltaram nem incompreensões, nem desprezo). Foi uma pena verificar que o seu esplêndido magistério muitas vezes não foi escutado. Quando publiquei o meu furo jornalístico, escrevi que teria o desejo de ser desmentido pelos fatos e esperava que nós católicos rezássemos para que Deus nos conservasse este grande Papa por mais tempo. Infelizmente, muitos crentes, ao invés de escutar este meu apelo à oração se puseram a me atacar, como se fosse crime de lesa majestade dar a notícia de que o Papa estava considerando a renúncia. Uma reação puritana que demonstra um certo clericalismo bem comum. Bento XVI – com a sua constante apologia da consciência e da razão – está entre os poucos que não possuem uma mentalidade clericalista. Basta recordar que não hesitou em chamar com o seu nome próprio todas as pragas da Igreja e de denunciá-las como jamais se fizera. Na sua admirável liberdade moral ele não hesitou nem mesmo em desmentir alguns de seus colaboradores mais próximos sobre o "segredo de Fátima". Aconteceu em 2010, quando decidiu fazer uma repentina peregrinação ao santuário português e lá declarou: "Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída [...] Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima. [...] Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade". Uma expressão que certamente faz pensar (o centenário das aparições de Fátima será em 2017), também numa relação com os famosos "dez segredos" de Medjugorje. Por outro lado, o próprio anúncio da renúncia aconteceu em uma data gloriosamente mariana, o 11 de fevereiro, aniversário (e festa litúrgica) das aparições da Virgem de Lourdes. É fácil prever que agora irão se desencadear explicações fantasiosas, que irão evocar Malaquias, a monja de Dresden e todo o resto. Permanece, porém, o fato que o Papa, com o peso da decisão epocal que assumiu, coloca toda a Igreja diante da gravidade dos tempos que vivemos. Gravidade que Nossa Senhora enfatizou dolorosamente um todas as aparições modernas, desde La Salette, Lourdes, Fátima e Medjugorje (passando pelo misterioso e milagroso derramamento de lágrimas da imagem de Nossa Senhora em Civittavecchia). É de se esperar, além do mais, que não se atribua a este nosso amado Papa, aquilo que foi atribuído a um seu predecessor, Pio X, que a Igreja proclamou santo. É um episódio que tem sido difundido há alguns meses em alguns ambientes católicos e também na Cúria. Parece que Pio X, em 1909, teria tido uma visão durante uma audiência que o angustiou: "O que vi foi terrível! Serei eu, ou um meu sucessor? Vi o Papa fugir do Vaticano entre os cadáveres de seus padres. Irá refugiar-se em algum lugar, incógnito, e depois morrerá de morte violenta". Parece que teria voltado a esta visão em 1914, perto de sua morte. Ainda lúcido, transmitiu novamente o conteúdo da visão e comentou: "O respeito a Deus desapareceu dos corações. Deseja-se até mesmo apagar a sua lembrança". Há algum tempo circula esta "profecia" também porque se diz que Pio X teria igualmente declarado que se trata de "um de meus sucessores com nome igual ao meu". O nome de Pio X era Giuseppe Sarto. Ou seja, José, portanto, Joseph. Desejo ardentemente que se trate de uma falsa profecia ou que não diga respeito aos nossos dias. Mas a sua divulgação faz ver o quanto o pontificado de Bento XVI – como o de seu predecessor – esteja circundado de inquietações. Além do mais, foi ele mesmo quem o iniciou pedindo a oração dos fieis para que não fugisse diante dos lobos. O Papa não fugiu. Sofreu e realizou a sua missão até que pôde e hoje pede à Igreja um sucessor que tenha as forças para assumir este pesado ministério. Além do mais, para todos é evidente que o papado, já faz três séculos, tornou-se um lugar de martírio branco, da mesma forma com que, nos primeiros séculos, significava certamente o martírio de sangue. De fato, os tempos modernos se abriram com um outro evento místico acontecido com o papa Leão XIII, o papa da "questão social" e da "Rerum novarum". No dia 13 de outubro de 1884 (13 de outubro é também o dia do milagre do sol em Fátima) o pontífice teve uma visão durante a celebração eucarística. Ficou chocado e abalado. O pontífice explicou que dizia respeito ao futuro da Igreja. Revelou que Satanás, nos cem anos seguintes, chegaria ao cume de seu poder e que faria de tudo para destruir a Igreja. Parece que ele teria visto também a Basílica de São Pedro assediada por demônios que a faziam tremer. O fato certo, porém, é que o Papa Leão se recolheu imediatamente em oração e escreveu aquela maravilhosa oração a São Miguel Arcanjo, vencedor de Satanás e protetor da Igreja, que desde então era recitada em todas as igrejas, no fim da Missa. Esta oração foi abolida com a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, a reforma litúrgica que Bento XVI procurou tanto reelaborar. Nunca como hoje a Igreja necessita da oração de proteção a São Miguel Arcanjo. Fonte: antoniosocci.com | Tradução: padrepauloricardo.org

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Nós perdemos a simplicidade

"Nós perdemos a simplicidade" - talvez seja esta a mais terrível das acusações pronunciadas contra o nosso tempo. Dizer isto não é necessariamente condenar o progresso da ciência e da técnica de que o nosso mundo tanto se orgulha. U, tal progresso em si é admirável. Mas é reconhecer que este progresso não se realizou sem um detrimento considerável no plano humano. O homem, orgulhoso da sua ciência e das suas técnicas, perdeu qualquer coisa da sua candura.
Apressemo-nos a dizer que não havia somente candura e simplicidade nos nossos antepassados. O Cristianismo tinha conquistado a antiga sabedoria nascida do contato do homem com a terra. E havia ainda sem dúvida mais terra do que Cristianismo em bom número dos nossos avós. Mais matéria do que graça. Mas o homem tinha nesse tempo raízes poderosas. Tanto os impulsos da fé, como as fidelidades humanas, apoiavam-se sobre adesões vitais e instintivas particularmente fortes. Estas não se encontravam de modo algum abaladas nem enfraquecidas. o homem participava do mundo com simplicidades.
Perdendo esta simplicidade, perdeu também o segredo de ser feliz. Toda a ciência e todas as suas técnicas o deixam inquieto e sozinho. Sozinho diante da morte. Sozinho perante as suas infidelidades e as dos outros, no meio do grande rebanho humano. Sozinho na luta contra os demônios que o não largam. Em certos momentos de lucidez, o homem compreende que nada, absolutamente nada, poderá dar-lhe uma profunda e alegre confiança na vida senão um regresso às fontes, que seja ao mesmo tempo um retorno ao espírito de infância. A palavra do Evangelho nunca surgiu tão luminosa de humana verdade: " Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus".  
(Elói Leclerc, prefácio do livro "Sabedoria dum Pobre")
Quando o orgulho vier bater à minha porta, travestido de um grande amigo ou na forma de um reles pensamento, levantarei contra ele a minha Fé, meu bastião poderoso, e o expulsarei do templo da minha vida, como um maldito vendilhão. Soará, eu sei, em meus ouvidos, a sua doce canção, pondo-me medo e desconfiança, atiçando em mim o desejo de fugir e me esconder. Mas nesta hora exporei o meu peito nu e levantarei a minha voz firme. Desprender-se-á a minha língua e ninguém me deterá, nem o veneno do pior desânimo. A Esperança se materializará em meus braços e pernas e estarei completamente entregue à graça. A inveja e a vaidade se quebrarão como galhos secos, e a Verdade se imporá soberana. Então se ouvirá, na forma de um sino, o grande anúncio que calará definitivamente o inimigo. O orgulho, humilhado, me verá nos braços do meu Pai. E o Seu Amor por mim o aniquilará.        

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Podemos ser juízes dos nossos semelhantes?

"Lembra-te particularmente de que não podes ser juiz de ninguém. Porque na Terra não pode haver juiz de um criminoso sem que antes esse mesmo juiz saiba que também é tão criminoso como aquele que está à sua frente e, mais do que ninguém, talvez seja o culpado pelo crime que tem diante de si. Quando compreender isto poderá ser juiz. Isso é verdade, por mais insensato que pareça. pois se eu mesmo fosse um justo, talvez nem houvesse um criminoso diante de mim. Se puderes assumir o delito do criminoso que tens à frente e julgas com o teu coração, assume-o imediatamente e sofre tu mesmo por ele, liberando-o sem reprimenda. E mesmo que a própria lei te tenha constituído seu juiz, ainda assim procura criar dentro do espírito da lei até onde te for possível, pois ele será liberado e se condenará ainda mais amargamente do que faria teu julgamento. Se, apesar de teu afago, ele sair insensível e zombando de ti, não te sintas tentado: significará isto que a hora dele ainda não chegou, mas chegará oportunamente; se não chegar, não faz mal: se não for ele, outro o experimentará por ele, e sofrerá, e condenará, e acusará a si próprio, e a verdade será cumprida. Crê nisso, crê sem duvidar, porque é aí mesmo que está toda a esperança e toda a fé dos santos". (Fiódor Dostoiévski, "Os irmãos Karamásov")

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Desaparecimento dos Adultos


Giovanni Cucci S.I.[i]


Uma sociedade de eternos adolescentes?

Continua-se a estar sempre mais atingido pelo nivelamento das gerações que se vê em rapazes e moças, jovens e adultos unidos por uma mesma dinâmica: no modo de vestir, falar, se comportar, mas, sobretudo, nas relações e na afetividade revelam-se muitas vezes as mesmas dificuldades, até o ponto em que se torna difícil entender quem desses é realmente o adulto. Ao mesmo tempo, preocupa a sempre maior difundida fuga da responsabilidade, que leva a procrastinar indefinidamente as escolhas de vida, iludindo-se de ter sempre intactos, diante de si, todas as possibilidades.
Uma pesquisa da Istat [ii], realizada em 2008 (e, por conseguinte, anterior à grave crise que infelizmente levou ao desemprego milhares de jovens e de adultos), revelava que mais de 70% das pessoas com idade entre 19 e 39 anos vivem ainda com os pais. O motivo é também, mas não somente, econômico, já que nessa faixa há pessoas com trabalho estável e uma renda que permitiria viver de maneira independente.
As mesmas pesquisas mostram, além disso, que na Itália, mas também em outros países da Europa, há um aumento preocupante de jovens/adultos que pararam numa espécie de “limbo”, sem escolhas e sem perspectivas. Essa situação abarca uma faixa etária sempre maior, ao ponto de ser agora classificada como categoria sociológica, “a geração nem-nem[iii]. Mas, principalmente, tal condição, não é vista como problemática pela maioria das pessoas: “Há 270 mil jovens entre 15 e 19 anos que não estudam e não trabalham (9%): a maior parte porque não encontra trabalho; 50 mil porque fizeram de sua inatividade uma escolha; há ainda 11 mil que não querem saber de trabalhar ou estudar (“não me interessa”, “não preciso”, dizem). A mesma tendência ocorre nos dados relativos aos jovens entre 25 e 35 anos: um milhão e noventa mil não estudam e não trabalham; ou seja, quase um quarto deles (25%). Um milhão e duzentos mil desses gravitam no desemprego (mas entre estes últimos há quem diga que não procura bem porque está “desanimado” ou porque “de qualquer modo, o emprego não existe mesmo”). Setecentos mil são, ao contrário, os “inativos convictos”: não procuram trabalho e não estão dispostos a procurá-lo [...]. Uma pesquisa espanhola recente, assinada pela sociedade Metroscopia, revela que 54% dos jovens da idade dos 18 aos 35 anos declara “não haver nenhum projeto sobre o qual desenvolver o próprio interesse ou os próprios sonhos”[iv].
A essa situação de impasse e confusão acompanha uma igualmente grave crise de autoridade e de normatividade que, como se verá, constituem um dever educativo irrenunciável. Tal dever é rejeitado por muitos motivos: porque esses que deveriam fazer valer a norma, os adultos, não possuem a força, têm medo de parecerem impopulares ou, muitas vezes, porque muitos não acreditam mais em ditas normas, vistas somente como uma fonte de conflito e dificuldade.
Mas o aspecto talvez mais triste dessa carência seja que a norma que o adulto deveria estabelecer, vem a faltar porque, às vezes, os mesmos educadores e pais se encontram perdidos em problemas afetivos, relacionais, até mesmo de dependência. E daí a crise profunda do adulto, com o risco de seu desaparecimento: “Se um adulto é alguém que tenta assumir as consequências de seus atos e de suas palavras [...], não podemos deixar de constatar um forte declínio da sua presença na nossa sociedade [...]. Os adultos parecem estar perdidos no mesmo mar onde se perderam os próprios filhos, sem qualquer distinção de geração”[v].
Uma motivação possível, na origem dessa amálgama indiferenciada, pode ser detectada no prolongamento da meia idade, própria das últimas décadas e agravada devido à crise econômica atual, a qual não encoraja a levar em consideração os custos e os esforços adicionais para comprometer-se numa situação futura incerta. Além disso, a nova cultura tecnológica contribui para confundir os limites entre a realidade e a fantasia, que é a característica típica da criança. Já o havia compreendido com lucidez Johan Huizinga no longínquo 1935: “[O homem moderno] pode viajar de avião, falar com pessoas do outro hemisfério, comprar guloseimas inserindo poucas moedas numa máquina automática [...]. Aperta um botão, e a vida cai aos seus pés. Pode tal vida torná-lo emancipado? Ao contrário. A vida para ele tornou-se um brinquedo. É de se espantar que ele se comporte como uma criança?”[vi].

A dificuldade de crescer na sociedade tecnológica

A cultura dita tecnológica se impõe hoje, não só pela difusão de instrumentos sempre mais sofisticados, principalmente pela possibilidade de planificar a existência de uma maneira impensável às gerações precedentes[vii]. E isso, especialmente, em nível de natalidade. Em tal campo, apareceram termos usados sempre mais frequentemente, até surgir o slogan que resume uma concepção de vida: “procriação responsável”, filhos “queridos e desejados”, ou mesmo “programáveis”.
Parece assim ter-se realizado o sonho, desejado por Freud no fim do século XIX, de poder separar a concepção da pulsão erótica: tal separação não favoreceu, todavia, como esperava o fundador da psicanálise, o “triunfo da humanidade”[viii]. Mais precisamente essa levou a um empobrecimento psicológico e afetivo, nunca antes conhecido, uma verdadeira “revolução antropológica”, para retomar o subtítulo de um livro de Marcel Gauchet.
Desde o seu nascimento, o ser humano tem a ânsia de que, no fundo, poderia não ter sido desejada e que deve, de qualquer modo, “merecer” ter vindo ao mundo, correspondendo às fortes expectativas dos seus pais. Como observa Gauchet: “Disso pode derivar a invencível fé na própria sorte, ou, ao contrário, a sensação de irremediável precariedade da própria existência. Em relação àquele desejo que o subtraiu ao destino comum, manterá muitas vezes uma irredutível aflição [...]. Um filho é cada vez mais desejado quanto menos é filho da natureza; mais é fruto de um artifício, qualquer que este seja, menos é aquilo que deve ser: o filho de seus pais”[ix].
Outro aspecto paradoxal dessa desenvolvida potencialidade planificadora é que a acurada seleção do nascituro corresponde sempre menos àquela atenção afetiva e educativa indispensáveis para educá-lo, tornando-o um adulto responsável. O filho se encontra, ao contrário, sufocado pela atenção dos pais que, depois de o terem programado por tanto tempo, veem nele a possibilidade de realizarem suas expectativas, muitas vezes até de preencherem seus vazios e suas incompetências.
A criança corre o risco, assim, de ser bem cedo tratada como um mini adulto, sobretudo se está sendo criada por um genitor solteiro: nesse caso, forte será a tendência a depositar no filho esperanças e expectativas que na verdade deveriam estar voltadas ao próprio companheiro, dando origem àqueles perversos díades nas quais o filho ou a filha são chamados a tornarem-se respectivamente “vice-marido” ou “vice-esposa” do próprio genitor, impedindo-se de viver a etapa infantil e a própria filiação, duas condições essenciais para a maturidade psíquica, cognitiva e afetiva[x].
A “síndrome do filho único”, vista em outras ocasiões[xi], parece confirmar essa inconsciente agitação, o desconforto de lidar com a polaridade desejo/rejeição dos pais. Ele se torna assim esmagado pelas expectativas dos pais, da mesma forma que um brinquedo é chamado a compensar as carências dos adultos.
Tudo isso contribui à incapacidade de um filho se tornar adulto; incapaz, sobretudo, de saber o que verdadeiramente quer da própria vida. Uma vez crescido, aquele menino ou aquela menina procurarão de fato aquela infância perdida que jamais tiveram, recusando-se a crescer.
A Síndrome de Peter Pan

A rejeição ao crescimento é um fenômeno em expansão, também desde o ponto de vista geracional, a tal ponto de ocupar a vida inteira do homem. Essa situação de “bloqueio interior”, de impossibilidade de se passar à fase adulta da vida, foi recentemente ratificada como categoria psicológica, chamada de Síndrome de Peter Pan através da obra do psicólogo junguiano Dan Kiley. Ele se inspira no célebre romance de James Barrie Peter and Wendy, publicado em 1911, embora tenha conseguido maior fama o título escolhido para a representação teatral, de 1904 (Peter Pan: o menino que nunca quis crescer).
A escolha do personagem, protagonista do romance, já é por si significativa. Peter era também o nome do irmão de James que morreu aos catorze anos num acidente de patinagem; enquanto Pan, na mitologia grega, era filho de Ermes e da filha de Driope, que o rejeitou, abandonando-o ao seu destino[xii]. Como na mitologia e no romance de Barrie, também na Síndrome de Peter Pan à base da condição instável e errante desse personagem é principalmente a ausência de relações afetivas importantes, em particular com os pais, vistos como frios e distantes, ou incapazes de suscitar respeito[xiii].
Desse modo, quem sofre dessa síndrome busca a própria infância perdida, comportando-se como se o tempo tivesse parado, assumindo por toda a vida a instabilidade psíquica e afetiva própria da adolescência, prisioneiro “no abismo entre o homem que não se quer tornar e o garoto que não se pode continuar a ser”[xiv]. E se essa pessoa, no meio tempo, também se casa, acaba por entrar em concorrência com os próprios filhos, imitando-lhes os comportamentos e os modos de pensar. Como confessava uma jovem desconsolada: “meu pai não faz outra coisa a não ser correr atrás das minhas amigas e depois quer se confidenciar comigo”[xv].
Por sua vez, os filhos, colocados no mesmo nível dos seus pais, tendem a comportarem-se como adultos: desse modo, nenhum dos dois vive as responsabilidades e peculiaridades da própria etapa de vida; como num jogo perverso, esses vêm trocados, invertendo perigosamente o significado da derrota edípica: “Se olhamos atentamente ao conteúdo da TV, podemos encontrar uma documentação bastante precisa não somente do nascimento da ‘criança adulta’, mas também do adulto ‘feito criança’ [...] Salvo raras exceções, os adultos na televisão não tomam seriamente o próprio trabalho, não educam seus filhos, não participam na vida política, não praticam nenhuma religião, não representam nenhuma tradição, não têm capacidade de pensar o próprio futuro ou de formular seriamente projetos de vida, não são capazes de fazer longos discursos e não são nunca capazes de evitar comportamentos dignos de uma criança de oito anos”[xvi].
Na atual sociedade “líquida” a fase adulta corre o risco assim de reduzir-se a uma expressão de meros dados sem mais responsabilidades específicas que a caracterizam e, sobretudo, a diferenciam das fases precedentes da vida, conferindo-lhe uma identidade: ser adultos era sinônimo de ser maduros, não certamente como as crianças, mas capazes de assumir responsabilidades. Essas características aparecem sempre mais raramente, ao ponto em que “não é excessivo falar de uma liquidação da idade adulta. Estamos assistindo a uma desagregação daquilo que significava maturidade[xvii].

O desaparecimento do pai

A contínua popularidade e atualidade de Peter Pan não falam somente de uma dificuldade de crescimento. Esse personagem é também uma forma de protesto em relação à fuga dos educadores, daqueles que podem fazer bela, ainda que difícil, a missão de tornar-se adulto, deixando-o só: “Se Peter Pan é o símbolo de um fenômeno que tem crescido sempre mais nos últimos cem anos, ou seja, a obstinada vontade de permanecer criança, Peter Pan nos diz ainda algo mais inquietante: perdemos os nossos pais como modelos, os pontos de referência sólidos, fomos abandonados a nós mesmos”[xviii].
É significativo que autores das mais diversas escolas de proveniência individuam particularmente na ausência da figura paterna, acentuada dramaticamente nas últimas décadas, uma das principais razões para o vazio de sentido e de identidade que parece ser comum a jovens e a adultos. Um autor que não pode certamente ser etiquetado de tradicionalismo nostálgico observa a esse propósito: “O vazio estrutural da moderna sociedade ocidental provem da ausência do pai. Em certo sentido o enfraquecimento ou inclusive o desaparecimento de todos os outros papéis de parentesco derivam daquela lacuna que está no vértice da família”[xix]. Nessa falta, se constata, de fato, a incapacidade de uma geração de transmitir valores e tradições capazes de ajudar o futuro adulto a enfrentar as dificuldades da vida tornando, por sua vez, educadores de outros.
O desaparecimento dos vínculos familiares foi infelizmente visto como o sinal profético da vinda de uma nova sociedade; nos anos setenta do século passado era desejada a morte do matrimônio e da família, vista como o símbolo da opressão que penaliza a liberdade do indivíduo, impedindo a auto realização[xx]. Os resultados se revelaram, porém, muito diversos, precursores de problemas bem mais graves, que correm o risco de levar ao desaparecimento da sociedade ocidental, como acentua sempre Scalfari: “na maior parte dos casos o indivíduo, abandonado na sua solidão, não encontrou outro remédio melhor do que o de confundir-se no bando, isto é, de se tornar um sujeito anônimo e indiferenciado, sustentado somente por motivações emocionais”[xxi].
Não é mais a comunidade ou o vinculo a um determinado estrato social, mas sim “o bando” a caracterizar a sociedade sem adultos, uma sociedade que abandonou o seu dever educativo.
Os Procis, filhos de um pai ausente

Essa linha de leitura vem confirmada também na mitologia, na qual está narrada a história do homem e da mulher de todos os tempos. A categoria de “bando” lembra os Procis, magnificamente descritos por Homero, aquela massa numerosa (108 segundo a Odisseia XVI, 247 s.), violenta e parasita, dominada por uma agressividade desenfreada.
Exatamente como Peter Pan, esses não são mais crianças e nem mesmo homens; não fizeram nenhuma escolha em suas vidas; vivem cada dia, dos expedientes, gozando do instante presente, sem nenhum projeto pelo qual valha a pena empenhar-se. A atualidade psicológica e social desses personagens é digna de atenção: “Os Procis [...] são a massa supérflua que logo preenche todo vazio de poder na sociedade. Mas na psiché são o adversário interno, a desagregação da responsabilidade [...]. O que Ulisses odeia decididamente neles não é a arrogância – que não lhes é uma coisa estranha – mas o viver cada dia, sem nenhum objetivo: o ato supérfluo (anenysto epi ergo) [...]. Aquilo que esses representam não pode ser readmitido na civilização, sob a pena da sua desagregação: a hilaridade, na qual o imaturo esconde o seu medo; o dia para chegar a noite; a obstinação a conquistar a mulher e a casa, a rainha e o palácio, sem a disponibilidade para organizar o sistema familiar e econômico. Mais uma vez, é o quadro do jovem desadaptado”[xxii].
O desenvolvimento narrativo da Odisseia faz agudamente notar como esses aparecem no dia seguinte ao desaparecimento do pai. A partida de Ulisses conduz à proliferação daqueles: os Procis podem ser considerados como a prefiguração ante litteram de Peter Pan. A comparação de ambos, de fato, não é forçada: é a mesma mitologia grega a colocar esses personagens em estreita relação entre eles. Pan seria, pois, o fruto da múltipla união dos Procis com Penélope durante a ausência de Ulisses[xxiii].
Colocados de frente à “prova do arco” (que, como veremos, é um símbolo da paternidade) se mostram incapazes de enfrentá-la (tendendo o arco para lançar a flecha), isso é, de assumir uma responsabilidade generativa que pode fazer deles homens. Têm idades diferentes, porém se apresentam com uma única classe, amorfa, sem identidade.
A tarefa de se tornar adultos

Mas o que significa ser adulto? Significa, antes de tudo, aceitar não ser mais criança, renunciando aos valores e comportamentos de idades precedentes para assumir a novos: a renúncia é a condição do crescimento, como bem tinha intuído Max Scheler[xxiv].
Deixar uma fase: isto é o que o adulto atual não parece mais capaz de fazer, antes de tudo, a nível imaginativo, lamentando-se sempre da criança ou do adolescente que jamais foi. Trata-se, porém, de acolher o que Freud chamava de o princípio da realidade que passa por uma ferida, uma experiência de impotência e de mortalidade que, paradoxalmente, no momento no qual vem assumido, fortalece o ser humano.
Isto era o significado dos “ritos de passagem” ou de iniciação, que nas sociedades de cada época marcavam o ingresso do jovem na idade adulta, mediante cerimônias guiadas por adultos. Os ritos de iniciação resultam fundamentais porque têm como objeto a agressividade, o sofrimento e a morte, em outras palavras, o ser humano na sua verdade e fragilidade. O rito podia fazer isso, porque recordava a sacralidade da vida e a sua relação com Deus; isso era o significado do gesto de tirar com violência a criança dos braços da mãe (que até aquele momento era o ponto de referência peculiar) para elevá-la ao céu, um gesto com o qual ela recebe a confirmação da própria identidade: “O significado desse gesto é claro: se consagram os neófitos ao Deus celeste”[xxv]. Essa tarefa sempre foi peculiar do pai.
Quando não se cumprem os ritos de iniciação, esses não desaparecem, mas enlouquecem, dando origem às derivas do “bando”. As violências das baby gang, o bullying masculino e feminino, os estupros de grupo, os “embalos de sábado à noite”, os comportamentos de risco, o uso de drogas em grupo, a atração pelo macabro são ritos de iniciação enlouquecidos, pedidos degenerados de tomar contato com a dimensão da corporeidade, da relação, da agressividade, do perigo, da morte, mas sem que exista, no entanto, um adulto capaz de acompanhar-lhes.
O desaparecimento dos adultos se traduz também numa redefinição dos papéis familiares: não são mais os filhos que devem aprender dos pais e receber deles normas e ensinamentos, mas ao contrário, são os pais que se conformam aos critérios e aos comportamentos dos filhos, procurando desse modo conseguirem a aprovação deles.
A necessidade de um modelo

Para ser adulto deve-se, pois, ter recebido uma ferida, aquela ruptura violenta que caracteriza o ingresso na realidade representada pelos ritos de iniciação. Tomar contato com aquela ferida significa para o jovem reconhecer e acolher a própria fragilidade. Isso lhe permite afrontar a realidade, abandonando as fantasias pueris e reconhecendo os próprios desejos profundos. Tornar-se adulto não significa de nenhuma maneira sentir-se onipotente, livre de defeitos ou limites, mas ocupar o próprio lugar, aceitando a possibilidade de equivocar, acolhendo o tempo que passa[xxvi].
O primeiro ensinamento que Deus dá ao homem na Bíblia é exatamente esse: se queres viver, se queres saborear a vida, recorda-te de que eres criatura, de que não és Deus. Isso é expresso na proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (cfr. Gn. 2, 16): no trecho, aquela árvore simboliza o próprio Deus e o homem deve preservar-se do desejo de querer tomar-lhe o posto, porque acabará se destruindo. Naquele ensinamento podem-se conter as três etapas fundamentais do desenvolvimento humano: o nascimento, o desaleitamento, a derrota edípica. Essas constituem as três diferentes derrotas da onipotência, são os três “pontos de não-retorno” próprios do crescimento (em relação à condição pré-natal, ao aleitamento, a um ligame exclusivo com a mãe), indispensáveis para entrar na realidade, para ser “vivo”. Se cumpridas corretamente, essas três renúncias permitem, na idade adulta, fazer escolhas definitivas; por outro lado, a maior parte das dificuldades e do desgosto de viver é ligada exatamente a esses três aspectos.
À raiz de muitos pedidos de ajuda psicológica está frequentemente a não aceitação da própria verdade de criatura, marcada pelo limite e pela fragilidade: não se aceitar a si mesmo, antes de tudo o próprio corpo (pensemos no boom de cirurgias plásticas e do lifting com consequências também graves para a própria saúde, mas também nos distúrbios alimentares como a bulimia e a anorexia), não se aceita a própria família de proveniência, a própria história e personalidade.
Dever fundamental da mãe e do pai, o qual, como visto em outras ocasiões, é símbolo forte do Pai celeste, é apresentar novamente aos próprios filhos esse ensinamento do livro de Gênesis[xxvii], de tomar consciência dos próprios limites, condição fundamental para se tornar adulto e para produzir frutos na própria vida. Os pais podem fazer isso porque precedentemente acertaram as contas com a própria fragilidade, com a própria ferida originária[xxviii].
Se os pais querem, em vez, salvaguardar os filhos de todo tipo de dificuldade, isso levará ao aparecimento de dúvidas e frustrações interiores, que minam, à raiz, a estima de si e a capacidade de assumir responsabilidades. Principalmente os filhos terão dificuldades em aproximar-se aos seus desejos profundos, àquilo que realmente querem das suas vidas: “A clínica dos assim ditos novos sintomas mostra bem como o problema da atual insatisfação da juventude não seja tanto aquele do conflito entre o programa do impulso e aquele da Civilização [...], mas de como aceder à experiência do desejo [...]. A crise atual da operabilidade da ordem simbólica coincide com a crise do poder de interdição, mas também com a dificuldade da transmissão do desejo de uma geração a outra”[xxix].
Trata-se de saber dizer “não”, de colocar limites, impopulares certamente, mas que permitam de aceder ao desejo do coração e tornam capaz de superar os obstáculos que se entrepõem à realização dos mesmos. O limite e a frustração são elementos essenciais da educação, ainda que acompanhados do afeto e da confiança. Às vezes é o filho mesmo a pedir esse limite e que uma relação assimétrica (de adulto a filho) seja posta, também em forma não verbal, como no caso da garota surpreendida roubando em uma grande loja: “Essa jovem não estava simplesmente fraudando a lei ou gozando da emoção causada pela sua transgressão. Em modo paradoxal, ela estava fazendo exatamente o contrário: estava buscando ser vista pela lei, isto é, de fazer existir uma lei. ‘Alguém me vê? Alguém pode me ajudar a não me perder, a não me extraviar? Existe em qualquer lugar uma lei ou, mais simplesmente, um adulto que possa responder-me, que possa perceber a minha existência?’ A pergunta dos nossos jovens insiste e nos coloca com as costas contra o muro: ‘Vocês existem? Os adultos ainda existem? Há alguém ainda que saiba assumir responsavelmente o peso da própria palavra e dos próprios atos?’ Na cleptomania daquela garota podemos perceber toda a grandeza da insatisfação da juventude contemporânea”[xxx].
O filho pode compreender o valor do limite se vê nos pais não um tirano que o rejeita, nem o “camarada” que se coloca no mesmo nível dizendo-lhe sempre “sim”, mas alguém que o introduz com afeto na realidade, na sua dimensão de mediocridade e de fragilidade. O adulto pode fazer isso porque antes a acolheu em si mesmo. Isso lhe consente não colocar-se no mesmo nível daquele que é chamado a educar e de não ceder a chantagens afetivas.
Não se trata certamente de uma tarefa fácil: essa é, porém, o único modo para não fazer do filho um escravo dos próprios caprichos. A incapacidade de dizer “não” é um dos sinais mais fortes da crise do adulto e da perigosa inversão da derrota edípica, uma inversão inédita, na qual são os pais a pedir aos filhos de serem reconhecidos[xxxi].

Retomar o arco de Ulisses

A crise do adulto, reconhecida e descrita pela mitologia, pode encontrar, na mesma mitologia, possíveis saídas. Toda a primeira parte da Odisseia é chamada de Telemaqueia, a busca afanosa pelo pai ausente, por parte do filho. Ele não se resigna com o seu desaparecimento, mas deseja ver o pai, ainda que não o tenha jamais conhecido verdadeiramente, anseia de poder ter dele ao menos uma imagem para ser impressa na sua mente[xxxii].
O caso de Telêmaco é muito parecido à situação da juventude atual. Para ambos não são, certamente, algumas coisas que lhes faltam, nem mesmo o bem-estar; esses se descobrem, às vezes, desprovidos daquela representação ideal de si que somente o pai é capaz de dar.
Na Odisseia, Ulisses pode ser finalmente reconhecido como pai somente quando, no final da poesia, o filho o vê empunhar o arco, com aparência humilde, mas decidido: “parece que Homero pensou nos nossos tempos e que nos advertiu: jamais o pai desaparece totalmente. Mas não creiais de reencontrá-lo nos machos barulhentos: aqueles são os Procis, os eternos não-adultos. Se alguém, em vez, é humilde, paciente, poderia ser ele, o sobrevivente de guerras e tempestades”[xxxiii].
O arco pode simbolizar o papel e a tarefa do pai, que não é delegável; e, de fato, nenhum dos Procis tem a capacidade de manejá-lo, porque não possuem autoridade para isso. Mas o pai do qual se fala não é certamente o pai-patrão que caracterizou as nossas sociedades dos últimos dois séculos, levando ao final à sua rejeição e afastamento. Ulisses, em vez, diz com precisão Homero, sabe tender o arco como um músico acaricia a harpa, associando com esse gesto as duas funções essenciais do pai: a força e a ternura[xxxiv].
Somente quando é capaz de unirem em si essas duas virtudes, a autoridade e a ternura, Ulisses pode novamente empunhar o seu arco e meter fim à “noite dos Procis” [xxxv].



[i] Artigo publicado em La Civiltà Cattolica, II 220-232, caderno 3885 (5 de maio de 2012).
[ii] Istat é o instituto nacional de estatísticas, um ente de pesquisas públicas na Itália (nota do tradutor).
[iii] Assim traduzimos à expressão italiana “generazione né-né”, que quer se referir àquelas pessoas que nem estudam, nem trabalham (Nota do tradutor).
[iv] MANGIAROTTI, A. Generazione “né-né”. Settecentomilla giovani “inattivi convinti” In: Corrieri della Serra, 16 de julho de 2009, p. 25.
[v] RECALCATI, M. Dove sono finiti gli adulti? In: La Repubblica, 19 de fevereiro de 2012, p. 56. O recente filme 17 ragazze (17 moças) (de Delphine e Muriel Coulin) inspirado no fato real de um grupo de adolescentes estadunidenses, unidas por um pacto comum, de ficarem ao mesmo tempo grávidas, apresenta ao mesmo tempo toda a dificuldade do mundo adulto (na escola como na família) a compreender o desconforto dessas jovens, por estarem com os mesmos problemas não resolvidos.
[vi] HUIZINGA, J. La crisi della civiltà. Totino, Einaudi, 1962, p. 115.
[vii] Veja-se as célebres análises de HEIDEGGER, M. “A questão da técnica”, In ID., Saggi e discorsi, Milano, Mursia, 1991, p. 5 -27.
[viii] PREUD, S. “La sessualità nell’etiologia delle neurosi”, in ID., Opere (1892-98), Torino, Boringhieri, 1968, 410.
[ix] Cfr. GAUCHEI, M. Il figlio del desiderio. Una rivoluzione antropologica, Milano, Vita e Pensiero, 2010, 70; cfr. 49. Cfr. os problemas levantados por PAROT, F. – TEITBAUM, E. Des enfants sans toi ni moi, Paris, Flammarion, 2002, e por J. HABERMAS, segundo o qual programar o nascimento comporta a “dificuldade de conceber-se como autônomo”, também desde o ponto de vista da responsabilidade moral (L’avenir de la nature humaine. Vers un éugenisme liberale, Paris, Gallimard, 2002, 82).
[x] O célebre estudo de Miller sobre o alto custo que a nível afetivo paga a criança “constituída dote”, isto é, sensível a acolher a necessidade do progenitor, reprimindo o próprio, se insere nesta perversa dinâmica relacional, na qual os papéis são trocados. Esta afetividade reemerge na idade adulta nos níveis nas quais tinha sido congelada, e, uma vez adulto e progenitor, traz à tona uma série de desejos desatendidos. Frequentemente tal situação está na origem da atração de profissões relacionadas com o escutar e à ajuda, como a psicoterapia. Miller resume a própria experiência dos seus vinte anos em relação a três elementos fundamentais: “1)estava sempre presente uma mãe profundamente insegura no campo emotivo, a qual para o próprio equilíbrio afetivo dependia de um certo comportamento ou modo de ser de criança. Essa insegurança podia facilmente ficar velada à criança e às pessoas do seu ambiente, escondida atrás de uma fachada de du­rezaautoritária ou inclusive totalitária; 2) a essa necessidade da mãe ou dos dois progenitores, correspondia uma surpreendente capacidade da criança de percebê-lo e de dar-lhe resposta intuitivamente; 3) em tal modo a criança se assegurava ‘o amor’ dos pais. Ela percebia que tinham necessidade dela e isso legitimava a sua vida e o seu existir” (MILLER, A. Il dramma dei bambino dotato e la ricerca del vero sé, Torino, Borin­ghieri, 1999, 16 s). Daqui vem a dinâmica instintiva de ajuda aos outros, mesmo na escolha da profissão, mas em forma perturbada, tendendo ao apagamento dos vazios afetivos que não ficaram resolvidos no curso da infância.
[xi] Cfr. CUCA, «Il matrimonio, ultimo simbolo di eternità dell’uomo occidentale», in Civ. Catt. 2011 II 431 433. Cfr. PHILIPS, A. I «no» che aiutatino a crescere, Milano, Feltrinelli, 1999, 47 s.
[xii] Cfr. GRIMAL, P. Mitologia, Milano, Garzanti, 2006, 475.
[xiii] KILEY, D. The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown up, New York, Avon Books, 1984, 26 s.
[xiv] Ivi, 23.
[xv] RECALCATI, M. «Dove sono finiti gli adulti?», cit., 56.
[xvi] POSTMAN, N. La scomparsa dell’infanzia, Roma, Armando, 1984, 156; cfr. OLIVERIO FERRARIS, A. La Síndrome Lolita. Perché i nostri figli crescono troppo in fretta, Rizzoli, 2008.
[xvii] GAUCHET, M. Il figlio del desiderio…, cit., 42; cursiva no texto. Cfr. BOUTINET, J. P.L’immaturité de la vie adulte, Paris, PUF, 1998; ID., Psychologie de la vie adulte, ivi, 2002; ANATRELLA, T. Interminables adolescences. La psychologie des 12/30 ans, Paris, Cerf-Cujas, 1998; LADAME, F. Gli eterni adolescenti, Milano, Salani, 2004.
[xviii] CATALUCCIO, F. M. Immaturità. La malattia del nostro tempo, Torino, Einaudi, 2004, 40.
[xix] SCALFARI, E. «Il padre che manca alla nostra società», in La Repubblica, 27 dicembre 1998.
[xx] Cfr. COOPER, D. La morte della famiglia. Il nucleo familiare nella società capitalistica, Torino, Einaudi, 1972.
[xxi] SCALFARI, E. «Il padre che manca alla nostra società», cit.
[xxii] ZOJA, L. Il gesto di Ettore. Preistoria, storia, attualità, scomparsa del padre, Torino Boringhieri, 2000, 115 s.
[xxiii] Cfr. GRIMAL, P. Mitología, cit., 476.
[xxiv] Cfr. SCHELER, M. Il risentimento nella edificazione delle morali, Milano, Vita e Pensiero, 1975, 53.
[xxv] ELIADE, M. La nascita mistica. Riti e simboli d’iniziazione, Brescia, Morcelliana, 1974, 24; cfr. tbm. ZOJA, L.: «A elevação da criança entre os Romanos servia ao nascimento psíquico do filho e do pai como pai» (Il gesto di Ettore …, cit., 247; cursiva no texto). De outra época e cultura, veja-se a descrição de MANDELA, N. culminante com o grito “Ndiyindoda! (‘Sou um homem!’)” (Lungo cammino verso la libertà, Milano, Feltrinelli, 2010, 35). Sobre os ritos de iniciação permanecem fundamentais os estudos de VAN GENNEP, A. I riti di passaggio, Torino, Boringhieri, 1981.
[xxvi] Cfr. RECALCATI, M. Cosa resta del padre? La paternità nell’’epoca ipermoderna, Milano, Cortina, 2011, 111-115.
[xxvii] Para ser mais preciso, os dois primeiros aspectos vêem a mãe como protagonista, o terceiro não redutível apenas à derrota edipiana, é próprio do pai e reflete o simbolismo mais complexo dos ritos de iniciação. Na realidade, ambos os pais também são fundamentais na diferente especificidade de suas intervenções, para a ajuda mútua que são chamados a dar-se, nas diferentes fases da vida dos filhos (cf. Cucci, G. Esperienza  religiosa e psicologia, Leumann [To] – Roma, Elledici – La Civiltà Cattolica, 2009, 79,98;. ID., La forza dalla debolezza. Aspetti psicologici dela vita spirituale, Roma, Adp, 2011, 121-133).
[xxviii] Cfr. RISÉ, C. Il padre, l’assente inaccettabile, Cinisello Balsamo (Mi), San Paolo, 2003, 14-24. C. CUCCI, “o pai é chamado a desenvolver um papel decisivo n avida de fé”, in Civ. Catt. 2009 III 118-127; “Il suicidio giovanile. Una drammatica realtà del nostro tempo”, ivi, 2011 II 121-134.
[xxix] RECALCATI, M. Cosa resta del padre? …, cit., 105-107. Cfr. CUCCI, G. «Il desiderio, motore della vita», in Civ. Catt., 2010 I 568-578.
[xxx] RECALCATI, M. “Dove sonno finiti gli adulti?”, cit., 57.
[xxxi] Cfr. ID., Cosa resta del padre? …, cit., 108 s.
[xxxii] “Na Telemachia o protagonista busca notícias do pai não só para saber onde era e para saber como era, mas, sobretudo, para conhecer a personalidade e desenvolver a si mesmo segundo aquele modelo» (PRIVITERA, G. A. Il ritorno del guerriero. Lettura dell’O­dissea, Torino, Einaudi, 2005, 57; cfr. HOMERO, Odisseia, Torino, Utet, 2005, 1. I, 83.111.115 s. 240; 1, IV, 317).
[xxxiii] ZOJA, L. Il gesto di Ettore, cit, 113 s; HOMERO, Odissea, cit., XVI, 148 s.
[xxxiv] “O astuto Odisseu, não apenas deliberou e em todas as partes provou o gran­de arco, como quando um homem experto em tocar citra e em cantar move facilmente a corda [...] imediatamente moveu assim, sem esforço, o grande arco” (HOMERO, Odisseia, cit., XXI, 404-410).
[xxxv] ZOJA, L. Il gesto di Ettore…, cit., 305.