quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Podemos ser juízes dos nossos semelhantes?
"Lembra-te particularmente de que não podes ser juiz de ninguém. Porque na Terra não pode haver juiz de um criminoso sem que antes esse mesmo juiz saiba que também é tão criminoso como aquele que está à sua frente e, mais do que ninguém, talvez seja o culpado pelo crime que tem diante de si. Quando compreender isto poderá ser juiz. Isso é verdade, por mais insensato que pareça. pois se eu mesmo fosse um justo, talvez nem houvesse um criminoso diante de mim. Se puderes assumir o delito do criminoso que tens à frente e julgas com o teu coração, assume-o imediatamente e sofre tu mesmo por ele, liberando-o sem reprimenda. E mesmo que a própria lei te tenha constituído seu juiz, ainda assim procura criar dentro do espírito da lei até onde te for possível, pois ele será liberado e se condenará ainda mais amargamente do que faria teu julgamento. Se, apesar de teu afago, ele sair insensível e zombando de ti, não te sintas tentado: significará isto que a hora dele ainda não chegou, mas chegará oportunamente; se não chegar, não faz mal: se não for ele, outro o experimentará por ele, e sofrerá, e condenará, e acusará a si próprio, e a verdade será cumprida. Crê nisso, crê sem duvidar, porque é aí mesmo que está toda a esperança e toda a fé dos santos". (Fiódor Dostoiévski, "Os irmãos Karamásov")
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O Desaparecimento dos Adultos
Giovanni
Cucci S.I.[i]
Uma sociedade de eternos
adolescentes?
Continua-se a estar sempre mais atingido pelo nivelamento das gerações
que se vê em rapazes e moças, jovens e adultos unidos por uma mesma dinâmica:
no modo de vestir, falar, se comportar, mas, sobretudo, nas relações e na
afetividade revelam-se muitas vezes as mesmas dificuldades, até o ponto em que
se torna difícil entender quem desses é realmente o adulto. Ao mesmo tempo,
preocupa a sempre maior difundida fuga da responsabilidade, que leva a
procrastinar indefinidamente as escolhas de vida, iludindo-se de ter sempre
intactos, diante de si, todas as possibilidades.
Uma pesquisa da Istat [ii],
realizada em 2008 (e, por conseguinte, anterior à grave crise que infelizmente
levou ao desemprego milhares de jovens e de adultos), revelava que mais de 70%
das pessoas com idade entre 19 e 39 anos vivem ainda com os pais. O motivo é
também, mas não somente, econômico, já que nessa faixa há pessoas com trabalho
estável e uma renda que permitiria viver de maneira independente.
As mesmas pesquisas mostram, além disso, que na
Itália, mas também em outros países da Europa, há um aumento preocupante de
jovens/adultos que pararam numa espécie de “limbo”, sem escolhas e sem
perspectivas. Essa situação abarca uma faixa etária sempre maior, ao ponto de
ser agora classificada como categoria sociológica, “a geração nem-nem”[iii]. Mas, principalmente,
tal condição, não é vista como problemática pela maioria das pessoas: “Há 270
mil jovens entre 15 e 19 anos que não estudam e não trabalham (9%): a maior
parte porque não encontra trabalho; 50 mil porque fizeram de sua inatividade
uma escolha; há ainda 11 mil que não querem saber de trabalhar ou estudar (“não
me interessa”, “não preciso”, dizem). A mesma tendência ocorre nos dados
relativos aos jovens entre 25 e 35 anos: um milhão e noventa mil não estudam e
não trabalham; ou seja, quase um quarto deles (25%). Um milhão e duzentos mil
desses gravitam no desemprego (mas entre estes últimos há quem diga que não
procura bem porque está “desanimado” ou porque “de qualquer modo, o emprego não
existe mesmo”). Setecentos mil são, ao contrário, os “inativos convictos”: não
procuram trabalho e não estão dispostos a procurá-lo [...]. Uma pesquisa espanhola
recente, assinada pela sociedade Metroscopia, revela que 54% dos jovens da
idade dos 18 aos 35 anos declara “não haver nenhum projeto sobre o qual
desenvolver o próprio interesse ou os próprios sonhos”[iv].
A essa situação de impasse e confusão
acompanha uma igualmente grave crise de autoridade e de normatividade que, como
se verá, constituem um dever educativo irrenunciável. Tal dever é rejeitado por
muitos motivos: porque esses que deveriam fazer valer a norma, os adultos, não
possuem a força, têm medo de parecerem impopulares ou, muitas vezes, porque
muitos não acreditam mais em ditas normas, vistas somente como uma fonte de
conflito e dificuldade.
Mas o aspecto talvez mais triste dessa carência
seja que a norma que o adulto deveria estabelecer, vem a faltar
porque, às vezes, os mesmos educadores e pais se encontram perdidos em
problemas afetivos, relacionais, até mesmo de dependência. E daí a crise
profunda do adulto, com o risco de seu desaparecimento: “Se um adulto é alguém
que tenta assumir as consequências de seus atos e de suas palavras [...], não
podemos deixar de constatar um forte declínio da sua presença na nossa
sociedade [...]. Os adultos parecem estar perdidos no mesmo mar onde se
perderam os próprios filhos, sem qualquer distinção de geração”[v].
Uma motivação possível, na origem dessa amálgama
indiferenciada, pode ser detectada no prolongamento da meia idade, própria das
últimas décadas e agravada devido à crise econômica atual, a qual não encoraja
a levar em consideração os custos e os esforços adicionais para comprometer-se
numa situação futura incerta. Além disso, a nova cultura tecnológica contribui
para confundir os limites entre a realidade e a fantasia, que é a
característica típica da criança. Já o havia compreendido com lucidez Johan
Huizinga no longínquo 1935: “[O homem moderno] pode viajar de avião, falar com
pessoas do outro hemisfério, comprar guloseimas inserindo poucas moedas numa
máquina automática [...]. Aperta um botão, e a vida cai aos seus pés. Pode tal
vida torná-lo emancipado? Ao contrário. A vida para ele tornou-se um brinquedo.
É de se espantar que ele se comporte como uma criança?”[vi].
A dificuldade de crescer na sociedade tecnológica
A cultura dita tecnológica se impõe hoje, não só
pela difusão de instrumentos sempre mais sofisticados, principalmente pela
possibilidade de planificar a existência de uma maneira impensável às gerações
precedentes[vii]. E isso,
especialmente, em nível de natalidade. Em tal campo, apareceram termos usados
sempre mais frequentemente, até surgir o slogan que resume uma
concepção de vida: “procriação responsável”, filhos “queridos e desejados”, ou
mesmo “programáveis”.
Parece assim ter-se realizado o sonho, desejado por
Freud no fim do século XIX, de poder separar a concepção da pulsão erótica: tal
separação não favoreceu, todavia, como esperava o fundador da psicanálise, o
“triunfo da humanidade”[viii]. Mais precisamente
essa levou a um empobrecimento psicológico e afetivo, nunca antes conhecido,
uma verdadeira “revolução antropológica”, para retomar o subtítulo de um livro
de Marcel Gauchet.
Desde o seu nascimento, o ser humano tem a ânsia de
que, no fundo, poderia não ter sido desejada e que deve, de qualquer modo,
“merecer” ter vindo ao mundo, correspondendo às fortes expectativas dos seus
pais. Como observa Gauchet: “Disso pode derivar a invencível fé na própria
sorte, ou, ao contrário, a sensação de irremediável precariedade da própria
existência. Em relação àquele desejo que o subtraiu ao destino comum, manterá
muitas vezes uma irredutível aflição [...]. Um filho é cada vez mais desejado
quanto menos é filho da natureza; mais é fruto de um artifício, qualquer que
este seja, menos é aquilo que deve ser: o filho de seus pais”[ix].
Outro aspecto paradoxal dessa desenvolvida potencialidade planificadora
é que a acurada seleção do nascituro corresponde sempre menos àquela atenção
afetiva e educativa indispensáveis para educá-lo, tornando-o um adulto
responsável. O filho se encontra, ao contrário, sufocado pela atenção dos pais
que, depois de o terem programado por tanto tempo, veem nele a possibilidade de
realizarem suas expectativas, muitas vezes até de preencherem seus vazios e
suas incompetências.
A criança corre o risco, assim, de ser bem cedo
tratada como um mini adulto, sobretudo se está sendo criada por um genitor
solteiro: nesse caso, forte será a tendência a depositar no filho esperanças e
expectativas que na verdade deveriam estar voltadas ao próprio companheiro,
dando origem àqueles perversos díades nas quais o filho ou a filha são chamados
a tornarem-se respectivamente “vice-marido” ou “vice-esposa” do próprio
genitor, impedindo-se de viver a etapa infantil e a própria filiação, duas
condições essenciais para a maturidade psíquica, cognitiva e afetiva[x].
A “síndrome do filho único”, vista em outras
ocasiões[xi], parece confirmar essa
inconsciente agitação, o desconforto de lidar com a polaridade desejo/rejeição
dos pais. Ele se torna assim esmagado pelas expectativas dos pais, da mesma
forma que um brinquedo é chamado a compensar as carências dos adultos.
Tudo isso contribui à incapacidade de um filho se tornar adulto;
incapaz, sobretudo, de saber o que verdadeiramente quer da própria vida. Uma
vez crescido, aquele menino ou aquela menina procurarão de fato aquela infância
perdida que jamais tiveram, recusando-se a crescer.
A Síndrome de Peter Pan
A rejeição ao crescimento é um fenômeno em
expansão, também desde o ponto de vista geracional, a tal ponto de ocupar a
vida inteira do homem. Essa situação de “bloqueio interior”, de impossibilidade
de se passar à fase adulta da vida, foi recentemente ratificada como categoria
psicológica, chamada de Síndrome de Peter Pan através da obra
do psicólogo junguiano Dan Kiley. Ele se inspira no célebre romance de James
Barrie Peter and Wendy, publicado em 1911, embora tenha conseguido
maior fama o título escolhido para a representação teatral, de 1904 (Peter
Pan: o menino que nunca quis crescer).
A escolha do personagem, protagonista do romance,
já é por si significativa. Peter era também o nome do irmão de James que morreu
aos catorze anos num acidente de patinagem; enquanto Pan, na mitologia grega,
era filho de Ermes e da filha de Driope, que o rejeitou, abandonando-o ao seu
destino[xii]. Como na mitologia e
no romance de Barrie, também na Síndrome de Peter Pan à base da condição
instável e errante desse personagem é principalmente a ausência de relações
afetivas importantes, em particular com os pais, vistos como frios e distantes,
ou incapazes de suscitar respeito[xiii].
Desse modo, quem sofre dessa síndrome busca a
própria infância perdida, comportando-se como se o tempo tivesse parado,
assumindo por toda a vida a instabilidade psíquica e afetiva própria da
adolescência, prisioneiro “no abismo entre o homem que não se quer tornar e o
garoto que não se pode continuar a ser”[xiv]. E se essa pessoa, no
meio tempo, também se casa, acaba por entrar em concorrência com os próprios
filhos, imitando-lhes os comportamentos e os modos de pensar. Como confessava
uma jovem desconsolada: “meu pai não faz outra coisa a não ser correr atrás das
minhas amigas e depois quer se confidenciar comigo”[xv].
Por sua vez, os filhos, colocados no mesmo nível dos
seus pais, tendem a comportarem-se como adultos: desse modo, nenhum dos dois
vive as responsabilidades e peculiaridades da própria etapa de vida; como num
jogo perverso, esses vêm trocados, invertendo perigosamente o significado da
derrota edípica: “Se olhamos atentamente ao conteúdo da TV, podemos encontrar
uma documentação bastante precisa não somente do nascimento da ‘criança
adulta’, mas também do adulto ‘feito criança’ [...] Salvo raras exceções, os
adultos na televisão não tomam seriamente o próprio trabalho, não educam seus
filhos, não participam na vida política, não praticam nenhuma religião, não
representam nenhuma tradição, não têm capacidade de pensar o próprio futuro ou
de formular seriamente projetos de vida, não são capazes de fazer longos discursos
e não são nunca capazes de evitar comportamentos dignos de uma criança de oito
anos”[xvi].
Na atual sociedade “líquida” a fase adulta corre o
risco assim de reduzir-se a uma expressão de meros dados sem mais
responsabilidades específicas que a caracterizam e, sobretudo, a diferenciam
das fases precedentes da vida, conferindo-lhe uma identidade: ser adultos era
sinônimo de ser maduros, não certamente como as crianças, mas capazes de
assumir responsabilidades. Essas características aparecem sempre mais
raramente, ao ponto em que “não é excessivo falar de uma liquidação da idade
adulta. Estamos assistindo a uma desagregação daquilo que significava maturidade”[xvii].
O desaparecimento do pai
A contínua popularidade e atualidade de Peter Pan
não falam somente de uma dificuldade de crescimento. Esse personagem é também
uma forma de protesto em relação à fuga dos educadores, daqueles que podem
fazer bela, ainda que difícil, a missão de tornar-se adulto, deixando-o só: “Se
Peter Pan é o símbolo de um fenômeno que tem crescido sempre mais nos últimos
cem anos, ou seja, a obstinada vontade de permanecer criança, Peter Pan nos diz
ainda algo mais inquietante: perdemos os nossos pais como modelos, os pontos de
referência sólidos, fomos abandonados a nós mesmos”[xviii].
É significativo que autores das mais diversas
escolas de proveniência individuam particularmente na ausência da figura
paterna, acentuada dramaticamente nas últimas décadas, uma das principais
razões para o vazio de sentido e de identidade que parece ser comum a jovens e
a adultos. Um autor que não pode certamente ser etiquetado de tradicionalismo
nostálgico observa a esse propósito: “O vazio estrutural da moderna sociedade
ocidental provem da ausência do pai. Em certo sentido o enfraquecimento ou
inclusive o desaparecimento de todos os outros papéis de parentesco derivam
daquela lacuna que está no vértice da família”[xix]. Nessa
falta, se constata, de fato, a incapacidade de uma geração de transmitir
valores e tradições capazes de ajudar o futuro adulto a enfrentar as
dificuldades da vida tornando, por sua vez, educadores de outros.
O desaparecimento dos vínculos familiares foi
infelizmente visto como o sinal profético da vinda de uma nova sociedade; nos
anos setenta do século passado era desejada a morte do matrimônio e da família,
vista como o símbolo da opressão que penaliza a liberdade do indivíduo,
impedindo a auto realização[xx]. Os
resultados se revelaram, porém, muito diversos, precursores de problemas bem
mais graves, que correm o risco de levar ao desaparecimento da sociedade
ocidental, como acentua sempre Scalfari: “na maior parte dos casos o indivíduo,
abandonado na sua solidão, não encontrou outro remédio melhor do que o de
confundir-se no bando, isto é, de se tornar um sujeito anônimo e
indiferenciado, sustentado somente por motivações emocionais”[xxi].
Não é mais a comunidade ou o vinculo a um determinado estrato social,
mas sim “o bando” a caracterizar a sociedade sem adultos, uma sociedade que
abandonou o seu dever educativo.
Os Procis, filhos de um pai ausente
Essa linha de leitura vem confirmada também na
mitologia, na qual está narrada a história do homem e da mulher de todos os
tempos. A categoria de “bando” lembra os Procis, magnificamente descritos por
Homero, aquela massa numerosa (108 segundo a Odisseia XVI, 247
s.), violenta e parasita, dominada por uma agressividade desenfreada.
Exatamente como Peter Pan, esses não são mais
crianças e nem mesmo homens; não fizeram nenhuma escolha em suas vidas; vivem
cada dia, dos expedientes, gozando do instante presente, sem nenhum projeto
pelo qual valha a pena empenhar-se. A atualidade psicológica e social desses
personagens é digna de atenção: “Os Procis [...] são a massa supérflua que logo
preenche todo vazio de poder na sociedade. Mas na psiché são o
adversário interno, a desagregação da responsabilidade [...]. O que Ulisses
odeia decididamente neles não é a arrogância – que não lhes é uma coisa
estranha – mas o viver cada dia, sem nenhum objetivo: o ato supérfluo (anenysto
epi ergo) [...]. Aquilo que esses representam não pode ser readmitido na
civilização, sob a pena da sua desagregação: a hilaridade, na qual o imaturo
esconde o seu medo; o dia para chegar a noite; a obstinação a conquistar a
mulher e a casa, a rainha e o palácio, sem a disponibilidade para organizar o
sistema familiar e econômico. Mais uma vez, é o quadro do jovem desadaptado”[xxii].
O desenvolvimento narrativo da Odisseia faz
agudamente notar como esses aparecem no dia seguinte ao desaparecimento do pai.
A partida de Ulisses conduz à proliferação daqueles: os Procis podem ser
considerados como a prefiguração ante litteram de Peter Pan. A
comparação de ambos, de fato, não é forçada: é a mesma mitologia grega a
colocar esses personagens em estreita relação entre eles. Pan seria, pois, o
fruto da múltipla união dos Procis com Penélope durante a ausência de Ulisses[xxiii].
Colocados de frente à “prova do arco” (que, como veremos, é um símbolo
da paternidade) se mostram incapazes de enfrentá-la (tendendo o arco para lançar
a flecha), isso é, de assumir uma responsabilidade generativa que pode fazer
deles homens. Têm idades diferentes, porém se apresentam com uma única classe,
amorfa, sem identidade.
A tarefa de se tornar adultos
Mas o que significa ser adulto? Significa, antes de
tudo, aceitar não ser mais criança, renunciando aos valores e comportamentos de
idades precedentes para assumir a novos: a renúncia é a condição do
crescimento, como bem tinha intuído Max Scheler[xxiv].
Deixar uma fase: isto é o que o adulto atual não parece mais capaz de
fazer, antes de tudo, a nível imaginativo, lamentando-se sempre da criança ou
do adolescente que jamais foi. Trata-se, porém, de acolher o que Freud chamava
de o princípio da realidade que passa por uma ferida, uma experiência de
impotência e de mortalidade que, paradoxalmente, no momento no qual vem
assumido, fortalece o ser humano.
Isto era o significado dos “ritos de passagem” ou
de iniciação, que nas sociedades de cada época marcavam o ingresso do jovem na
idade adulta, mediante cerimônias guiadas por adultos. Os ritos de iniciação
resultam fundamentais porque têm como objeto a agressividade, o sofrimento e a
morte, em outras palavras, o ser humano na sua verdade e fragilidade. O rito
podia fazer isso, porque recordava a sacralidade da vida e a sua relação com
Deus; isso era o significado do gesto de tirar com violência a criança dos
braços da mãe (que até aquele momento era o ponto de referência peculiar) para
elevá-la ao céu, um gesto com o qual ela recebe a confirmação da própria
identidade: “O significado desse gesto é claro: se consagram os neófitos ao
Deus celeste”[xxv]. Essa
tarefa sempre foi peculiar do pai.
Quando não se cumprem os ritos de iniciação, esses
não desaparecem, mas enlouquecem, dando origem às derivas do “bando”. As
violências das baby gang, o bullying masculino e
feminino, os estupros de grupo, os “embalos de sábado à noite”, os
comportamentos de risco, o uso de drogas em grupo, a atração pelo macabro são
ritos de iniciação enlouquecidos, pedidos degenerados de tomar contato com a
dimensão da corporeidade, da relação, da agressividade, do perigo, da morte,
mas sem que exista, no entanto, um adulto capaz de acompanhar-lhes.
O desaparecimento dos adultos se traduz também numa redefinição dos
papéis familiares: não são mais os filhos que devem aprender dos pais e receber
deles normas e ensinamentos, mas ao contrário, são os pais que se conformam aos
critérios e aos comportamentos dos filhos, procurando desse modo conseguirem a
aprovação deles.
A necessidade de um modelo
Para ser adulto deve-se, pois, ter recebido uma
ferida, aquela ruptura violenta que caracteriza o ingresso na realidade
representada pelos ritos de iniciação. Tomar contato com aquela ferida
significa para o jovem reconhecer e acolher a própria fragilidade. Isso lhe
permite afrontar a realidade, abandonando as fantasias pueris e reconhecendo os
próprios desejos profundos. Tornar-se adulto não significa de nenhuma maneira
sentir-se onipotente, livre de defeitos ou limites, mas ocupar o próprio lugar,
aceitando a possibilidade de equivocar, acolhendo o tempo que passa[xxvi].
O primeiro ensinamento que Deus dá ao homem na
Bíblia é exatamente esse: se queres viver, se queres saborear a vida,
recorda-te de que eres criatura, de que não és Deus. Isso é expresso na
proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (cfr. Gn. 2,
16): no trecho, aquela árvore simboliza o próprio Deus e o homem deve preservar-se
do desejo de querer tomar-lhe o posto, porque acabará se destruindo. Naquele
ensinamento podem-se conter as três etapas fundamentais do desenvolvimento
humano: o nascimento, o desaleitamento, a derrota edípica. Essas constituem as
três diferentes derrotas da onipotência, são os três “pontos de não-retorno”
próprios do crescimento (em relação à condição pré-natal, ao aleitamento, a um
ligame exclusivo com a mãe), indispensáveis para entrar na realidade, para ser
“vivo”. Se cumpridas corretamente, essas três renúncias permitem, na idade
adulta, fazer escolhas definitivas; por outro lado, a maior parte das
dificuldades e do desgosto de viver é ligada exatamente a esses três aspectos.
À raiz de muitos pedidos de ajuda psicológica está
frequentemente a não aceitação da própria verdade de criatura, marcada pelo
limite e pela fragilidade: não se aceitar a si mesmo, antes de tudo o próprio
corpo (pensemos no boom de cirurgias plásticas e do lifting com
consequências também graves para a própria saúde, mas também nos distúrbios
alimentares como a bulimia e a anorexia), não se aceita a própria família de
proveniência, a própria história e personalidade.
Dever fundamental da mãe e do pai, o qual, como
visto em outras ocasiões, é símbolo forte do Pai celeste, é apresentar
novamente aos próprios filhos esse ensinamento do livro de Gênesis[xxvii], de tomar
consciência dos próprios limites, condição fundamental para se tornar adulto e
para produzir frutos na própria vida. Os pais podem fazer isso porque
precedentemente acertaram as contas com a própria fragilidade, com a própria
ferida originária[xxviii].
Se os pais querem, em vez, salvaguardar os filhos
de todo tipo de dificuldade, isso levará ao aparecimento de dúvidas e frustrações
interiores, que minam, à raiz, a estima de si e a capacidade de assumir
responsabilidades. Principalmente os filhos terão dificuldades em aproximar-se
aos seus desejos profundos, àquilo que realmente querem das suas vidas: “A
clínica dos assim ditos novos sintomas mostra bem como o problema da atual
insatisfação da juventude não seja tanto aquele do conflito entre o programa do
impulso e aquele da Civilização [...], mas de como aceder à experiência do
desejo [...]. A crise atual da operabilidade da ordem simbólica coincide com a
crise do poder de interdição, mas também com a dificuldade da transmissão do
desejo de uma geração a outra”[xxix].
Trata-se de saber dizer “não”, de colocar limites,
impopulares certamente, mas que permitam de aceder ao desejo do coração e
tornam capaz de superar os obstáculos que se entrepõem à realização dos mesmos.
O limite e a frustração são elementos essenciais da educação, ainda que
acompanhados do afeto e da confiança. Às vezes é o filho mesmo a pedir esse
limite e que uma relação assimétrica (de adulto a filho) seja posta, também em
forma não verbal, como no caso da garota surpreendida roubando em uma grande
loja: “Essa jovem não estava simplesmente fraudando a lei ou gozando da emoção
causada pela sua transgressão. Em modo paradoxal, ela estava fazendo exatamente
o contrário: estava buscando ser vista pela lei, isto é, de fazer existir uma
lei. ‘Alguém me vê? Alguém pode me ajudar a não me perder, a não me extraviar?
Existe em qualquer lugar uma lei ou, mais simplesmente, um adulto que possa
responder-me, que possa perceber a minha existência?’ A pergunta dos nossos
jovens insiste e nos coloca com as costas contra o muro: ‘Vocês existem? Os
adultos ainda existem? Há alguém ainda que saiba assumir responsavelmente o
peso da própria palavra e dos próprios atos?’ Na cleptomania daquela garota
podemos perceber toda a grandeza da insatisfação da juventude contemporânea”[xxx].
O filho pode compreender o valor do limite se vê nos pais não um tirano
que o rejeita, nem o “camarada” que se coloca no mesmo nível dizendo-lhe sempre
“sim”, mas alguém que o introduz com afeto na realidade, na sua dimensão de
mediocridade e de fragilidade. O adulto pode fazer isso porque antes a acolheu
em si mesmo. Isso lhe consente não colocar-se no mesmo nível daquele que é
chamado a educar e de não ceder a chantagens afetivas.
Não se trata certamente de uma tarefa fácil: essa
é, porém, o único modo para não fazer do filho um escravo dos próprios
caprichos. A incapacidade de dizer “não” é um dos sinais mais fortes da crise
do adulto e da perigosa inversão da derrota edípica, uma inversão inédita, na
qual são os pais a pedir aos filhos de serem reconhecidos[xxxi].
Retomar o arco de Ulisses
A crise do adulto, reconhecida e descrita pela
mitologia, pode encontrar, na mesma mitologia, possíveis saídas. Toda a
primeira parte da Odisseia é chamada de Telemaqueia,
a busca afanosa pelo pai ausente, por parte do filho. Ele não se resigna com o
seu desaparecimento, mas deseja ver o pai, ainda que não o tenha jamais
conhecido verdadeiramente, anseia de poder ter dele ao menos uma imagem para
ser impressa na sua mente[xxxii].
O caso de Telêmaco é muito parecido à situação da juventude atual. Para
ambos não são, certamente, algumas coisas que lhes faltam, nem mesmo o
bem-estar; esses se descobrem, às vezes, desprovidos daquela representação
ideal de si que somente o pai é capaz de dar.
Na Odisseia, Ulisses pode ser
finalmente reconhecido como pai somente quando, no final da poesia, o filho o
vê empunhar o arco, com aparência humilde, mas decidido: “parece que Homero
pensou nos nossos tempos e que nos advertiu: jamais o pai desaparece
totalmente. Mas não creiais de reencontrá-lo nos machos barulhentos: aqueles
são os Procis, os eternos não-adultos. Se alguém, em vez, é humilde, paciente,
poderia ser ele, o sobrevivente de guerras e tempestades”[xxxiii].
O arco pode simbolizar o papel e a tarefa do pai,
que não é delegável; e, de fato, nenhum dos Procis tem a capacidade de
manejá-lo, porque não possuem autoridade para isso. Mas o pai do qual se fala
não é certamente o pai-patrão que caracterizou as nossas sociedades dos últimos
dois séculos, levando ao final à sua rejeição e afastamento. Ulisses, em vez,
diz com precisão Homero, sabe tender o arco como um músico acaricia a harpa,
associando com esse gesto as duas funções essenciais do pai: a força e a
ternura[xxxiv].
Somente quando é capaz de unirem em si essas duas
virtudes, a autoridade e a ternura, Ulisses pode novamente empunhar o seu arco
e meter fim à “noite dos Procis” [xxxv].
[i] Artigo publicado em La
Civiltà Cattolica, II 220-232, caderno 3885 (5 de maio de 2012).
[ii] Istat é
o instituto nacional de estatísticas, um ente de pesquisas públicas na Itália
(nota do tradutor).
[iii] Assim traduzimos
à expressão italiana “generazione né-né”, que quer se referir àquelas
pessoas que nem estudam, nem trabalham (Nota
do tradutor).
[iv] MANGIAROTTI, A. Generazione
“né-né”. Settecentomilla giovani “inattivi convinti” In: Corrieri
della Serra, 16 de julho de 2009, p. 25.
[v] RECALCATI, M. Dove
sono finiti gli adulti? In: La Repubblica, 19 de fevereiro de
2012, p. 56. O recente filme 17 ragazze (17 moças) (de
Delphine e Muriel Coulin) inspirado no fato real de um grupo de adolescentes
estadunidenses, unidas por um pacto comum, de ficarem ao mesmo tempo grávidas,
apresenta ao mesmo tempo toda a dificuldade
do mundo adulto (na escola como na família) a compreender o desconforto dessas
jovens, por estarem com os mesmos problemas não resolvidos.
[vi] HUIZINGA, J. La
crisi della civiltà. Totino, Einaudi, 1962, p. 115.
[vii] Veja-se as
célebres análises de HEIDEGGER, M. “A questão da técnica”, In ID., Saggi
e discorsi, Milano, Mursia, 1991, p. 5 -27.
[viii] PREUD, S. “La
sessualità nell’etiologia delle neurosi”, in ID., Opere (1892-98), Torino,
Boringhieri, 1968, 410.
[ix] Cfr. GAUCHEI, M. Il
figlio del desiderio. Una rivoluzione antropologica, Milano, Vita e
Pensiero, 2010, 70; cfr. 49. Cfr. os problemas levantados por PAROT, F. –
TEITBAUM, E. Des enfants sans toi ni moi, Paris, Flammarion, 2002,
e por J. HABERMAS, segundo o qual programar o nascimento comporta a
“dificuldade de conceber-se como autônomo”, também desde o ponto de vista da
responsabilidade moral (L’avenir de la nature humaine. Vers un
éugenisme liberale, Paris, Gallimard, 2002, 82).
[x] O célebre estudo de
Miller sobre o alto custo que a nível afetivo paga a criança “constituída
dote”, isto é, sensível a acolher a necessidade do progenitor, reprimindo o
próprio, se insere nesta perversa dinâmica relacional, na qual os papéis são
trocados. Esta afetividade reemerge na idade adulta nos níveis nas quais tinha
sido congelada, e, uma vez adulto e progenitor, traz à tona uma série de
desejos desatendidos. Frequentemente tal situação está na origem da atração de
profissões relacionadas com o escutar e à ajuda, como a psicoterapia. Miller
resume a própria experiência dos seus vinte anos em relação a três elementos
fundamentais: “1)estava sempre presente uma mãe profundamente
insegura no campo emotivo, a qual para o próprio equilíbrio afetivo
dependia de um certo comportamento ou modo de ser de criança. Essa insegurança
podia facilmente ficar velada à criança e às pessoas do seu ambiente, escondida
atrás de uma fachada de durezaautoritária ou inclusive totalitária; 2) a
essa necessidade da mãe ou dos dois progenitores, correspondia uma
surpreendente capacidade da criança de percebê-lo e de dar-lhe
resposta intuitivamente; 3) em tal modo a criança se assegurava ‘o amor’ dos
pais. Ela percebia que tinham necessidade dela e isso legitimava a sua vida e o
seu existir” (MILLER, A. Il dramma dei bambino dotato e la ricerca del
vero sé, Torino, Boringhieri, 1999, 16 s). Daqui vem a dinâmica
instintiva de ajuda aos outros, mesmo na escolha da profissão, mas em forma
perturbada, tendendo ao apagamento dos vazios afetivos que não ficaram
resolvidos no curso da infância.
[xi] Cfr. CUCA, «Il
matrimonio, ultimo simbolo di eternità dell’uomo occidentale», in Civ.
Catt. 2011 II 431 433. Cfr. PHILIPS, A. I «no» che aiutatino a
crescere, Milano, Feltrinelli, 1999, 47 s.
[xii] Cfr. GRIMAL, P. Mitologia, Milano,
Garzanti, 2006, 475.
[xiii] KILEY, D. The Peter Pan
Syndrome: Men Who Have Never Grown up, New York, Avon Books, 1984, 26 s.
[xiv] Ivi, 23.
[xv] RECALCATI, M. «Dove
sono finiti gli adulti?», cit., 56.
[xvi] POSTMAN, N. La
scomparsa dell’infanzia, Roma, Armando, 1984, 156; cfr. OLIVERIO FERRARIS,
A. La Síndrome Lolita. Perché i nostri figli crescono troppo in fretta,
Rizzoli, 2008.
[xvii] GAUCHET, M. Il
figlio del desiderio…, cit., 42; cursiva no texto. Cfr. BOUTINET, J. P.L’immaturité
de la vie adulte, Paris, PUF, 1998; ID., Psychologie de la vie
adulte, ivi, 2002; ANATRELLA, T. Interminables adolescences. La
psychologie des 12/30 ans, Paris, Cerf-Cujas, 1998; LADAME, F. Gli
eterni adolescenti, Milano, Salani, 2004.
[xviii] CATALUCCIO, F.
M. Immaturità. La malattia del nostro tempo, Torino, Einaudi, 2004,
40.
[xix] SCALFARI, E. «Il
padre che manca alla nostra società», in La Repubblica, 27
dicembre 1998.
[xx] Cfr. COOPER, D. La
morte della famiglia. Il nucleo familiare nella società capitalistica,
Torino, Einaudi, 1972.
[xxi] SCALFARI, E. «Il
padre che manca alla nostra società», cit.
[xxii] ZOJA, L. Il
gesto di Ettore. Preistoria, storia, attualità, scomparsa del padre, Torino
Boringhieri, 2000, 115 s.
[xxiii] Cfr. GRIMAL, P. Mitología,
cit., 476.
[xxiv] Cfr. SCHELER, M. Il
risentimento nella edificazione delle morali, Milano, Vita e Pensiero,
1975, 53.
[xxv] ELIADE, M. La
nascita mistica. Riti e simboli d’iniziazione, Brescia, Morcelliana, 1974,
24; cfr. tbm. ZOJA, L.: «A elevação da criança entre os Romanos servia ao
nascimento psíquico do filho e do pai como pai» (Il gesto di
Ettore …, cit., 247; cursiva no texto). De outra época e cultura,
veja-se a descrição de MANDELA, N. culminante com o grito “Ndiyindoda!
(‘Sou um homem!’)” (Lungo cammino verso la libertà, Milano, Feltrinelli,
2010, 35). Sobre os ritos de iniciação permanecem fundamentais os estudos de
VAN GENNEP, A. I riti di passaggio, Torino, Boringhieri, 1981.
[xxvi] Cfr. RECALCATI,
M. Cosa resta del padre? La paternità nell’’epoca ipermoderna,
Milano, Cortina, 2011, 111-115.
[xxvii] Para ser mais
preciso, os dois primeiros aspectos vêem a mãe como protagonista, o terceiro
não redutível apenas à derrota edipiana, é próprio do pai e reflete o
simbolismo mais complexo dos ritos de iniciação. Na realidade, ambos os pais
também são fundamentais na diferente especificidade de suas intervenções, para
a ajuda mútua que são chamados a dar-se, nas diferentes fases da vida dos
filhos (cf. Cucci, G. Esperienza religiosa e psicologia,
Leumann [To] – Roma, Elledici – La Civiltà Cattolica, 2009, 79,98;. ID., La
forza dalla debolezza. Aspetti psicologici dela vita spirituale, Roma, Adp,
2011, 121-133).
[xxviii] Cfr. RISÉ, C. Il
padre, l’assente inaccettabile, Cinisello Balsamo (Mi), San Paolo, 2003,
14-24. C. CUCCI, “o pai é chamado a desenvolver um papel decisivo n avida de
fé”, in Civ. Catt. 2009 III 118-127; “Il suicidio
giovanile. Una drammatica realtà del nostro tempo”, ivi, 2011 II 121-134.
[xxix] RECALCATI, M. Cosa
resta del padre? …, cit., 105-107. Cfr. CUCCI, G. «Il desiderio,
motore della vita», in Civ. Catt., 2010 I 568-578.
[xxx] RECALCATI, M. “Dove
sonno finiti gli adulti?”, cit., 57.
[xxxi] Cfr. ID., Cosa
resta del padre? …, cit., 108 s.
[xxxii] “Na Telemachia o
protagonista busca notícias do pai não só para saber onde era e para saber como
era, mas, sobretudo, para conhecer a personalidade e desenvolver a si mesmo
segundo aquele modelo» (PRIVITERA, G. A. Il ritorno del guerriero. Lettura
dell’Odissea, Torino, Einaudi, 2005, 57; cfr. HOMERO, Odisseia, Torino,
Utet, 2005, 1. I, 83.111.115 s. 240; 1, IV, 317).
[xxxiii] ZOJA, L. Il
gesto di Ettore, cit, 113 s; HOMERO, Odissea, cit., XVI, 148 s.
[xxxiv] “O astuto
Odisseu, não apenas deliberou e em todas as partes provou o grande arco, como
quando um homem experto em tocar citra e em cantar move facilmente a corda
[...] imediatamente moveu assim, sem esforço, o grande arco” (HOMERO, Odisseia, cit.,
XXI, 404-410).
[xxxv] ZOJA, L. Il
gesto di Ettore…, cit., 305.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Bento XVI: "Onde Deus não é glorificado não há paz"
Ao presidir a Missa de Véspera de natal celebrada na Basílica de São Pedro no dia 24 à noite, o Papa Bento XVI sublinhou que "com a glória de Deus nas alturas, está relacionada a paz na terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz".
O Santo Padre lamentou em sua homilia a existência de correntes de pensamento populares que "afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo".
Segundo as mesmas correntes de pensamento "primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia, fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única.".
O Santo Padre indicou que embora seja "incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz".
"Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros".
O Papa assinalou que "o tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado.".
"Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por miserável que seja sua situação, sua dignidade é inviolável".
Bento XVI remarcou que "no decurso de todos estes séculos, não houve apenas casos de mau uso da religião; mas, da fé no Deus que Se fez homem, nunca cessou de brotar forças de reconciliação e magnanimidade. Na escuridão do pecado e da violência, esta fé fez entrar um raio luminoso de paz e bondade que continua a brilhar".
"Cristo é a nossa paz e anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto".
O Santo Padre também pediu a Deus para que Ilumine a quantos acreditam que devem praticar violência em nome da religião, para que aprendam a compreender o absurdo da violência e a reconhecer o vosso verdadeiro rosto.
"Ajudai a tornarmo-nos homens «do vosso agrado»: homens segundo a vossa imagem e, por conseguinte, homens de paz", rogou.
O Papa exortou os fiéis a ousarem "o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração.".
"Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós, concluiu".
Fonte: ACI/EWTN Noticias
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Evangelizar mediante a alegria
Terceira Pregação do Advento do Padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap., pregador da Casa Pontifícia, dirigida na manhã do dia 21 de dezembro de 2012.
Depois de refletir sobre a graça do ano da fé e sobre o aniversário do
concílio Vaticano II, dedicamos esta última meditação do advento ao terceiro
grande tema do ano, a evangelização.
O papa convidou a Igreja a fazer deste ano uma oportunidade de
redescobrir a "alegria do encontro com Cristo", a alegria de ser
cristãos. Ecoando essa exortação, eu gostaria de falar sobre como evangelizar
através da alegria, procurando permanecer o mais fiel possível ao tempo
litúrgico atual, em preparação para o Natal.
1. A alegria escatológica
Nos evangelhos da infância, inspirado pelo Espírito Santo, Lucas
conseguiu não só apresentar fatos e personagens, mas também recriar a atmosfera
e o clima daqueles eventos. Um dos mais evidentes elementos desse mundo
espiritual é a alegria. A piedade cristã não se enganou quando deu à infância
de Jesus o nome de "mistérios gozosos", mistérios de alegria.
A Zacarias, o anjo promete "alegria e exultação" pelo
nascimento do filho, e que muitos "se alegrarão" com a sua vinda (cf.
Lc 1, 14). Há uma palavra grega que, a partir deste momento, reaparecerá na
boca de vários personagens de modo contínuo: é o termo agallìasis,
que indica "a alegria escatológica pela irrupção do tempo messiânico".
Ao ouvir a saudação de Maria, o bebê "regozijou-se" no ventre de
Isabel (Lucas 1, 44), sinalizando, assim, a alegria do "amigo do
esposo" pela presença do esposo (Jo 3, 29). O ápice acontece no cântico de
Maria: "Meu espírito se alegra (egallìasen) em Deus" (Lc 1,
47); espalha-se na alegria tranquila de amigos e parentes ao redor do berço do
precursor (cf. Lc 1, 58) e explode, finalmente, com pleno vigor, no nascimento
de Cristo, na declaração dos anjos para os pastores: "Eis que vos anuncio
uma grande alegria" (Lc 2, 10).
Não são apenas mostras dispersas de alegria, mas uma onda de alegria
calma e profunda, que percorre os "evangelhos da infância" do começo
ao fim e se expressa de muitas maneiras diferentes: no entusiasmo com que Maria
se levanta para ir até a casa de Isabel e os pastores para irem ver a criança;
nos gestos humildes, e típicos da alegria, que são as visitas, os bons desejos,
as saudações, os parabéns, os presentes. Mas, acima de tudo, a alegria se
expressa na maravilha e na sincera gratidão desses protagonistas: "Deus
visitou o seu povo! [...] Lembrou-se da sua santa aliança". O que todos
tinham pedido em oração, que Deus se lembrasse das suas promessas, era agora
realidade! Os personagens dos "evangelhos da infância" parecem mover-se
e falar na atmosfera de sonho cantada pelo Salmo 126, o Salmo do retorno do
exílio:
"Quando o Senhor libertou os prisioneiros de Sião,
parecia um sonho.
Então a nossa boca se encheu de riso
e a nossa língua soltou-se em cantos de alegria.
Disseram assim entre as nações:
O Senhor fez grandes coisas por eles.
Grandes coisas fez por nós o Senhor,
inundou-nos de alegria".
Maria incorpora a máxima expressão deste salmo quando exclama: "Fez
grandes coisas em mim o Todo-Poderoso". Estamos diante do exemplo mais
puro da "sóbria ebriedade" espiritual. É uma verdadeira “ebriedade”
espiritual, mas é "sóbria". Eles não se exaltam, não se preocupam em
ter um lugar mais importante ou menos importante no incipiente Reino de Deus.
Não se preocupam nem mesmo com o final de tudo: Simeão diz que agora o Senhor
pode deixá-lo partir em paz. O que importa é que a obra de Deus vá em frente,
não importa se com eles ou sem eles.
2. Da liturgia à vida
Passemos agora da bíblia e da liturgia para a vida. Este é sempre o
objetivo da palavra de Deus. A intenção do evangelista Lucas não é apenas
narrar, mas envolver o público e arrastá-lo, como os pastores, em procissão
alegre até Belém. "Aqueles que lêem estas linhas”, diz um exegeta moderno,
“são chamados a partilhar a alegria. Apenas a comunidade concelebrante dos
crentes em Cristo pode estar à altura desses textos" (H. Schürmann, O
Evangelho de Lucas, I, Paideia, Brescia 1983).
Isto explica porque os evangelhos da infância têm pouca coisa a dizer a
quem busca neles apenas a história e ao invés muito a dizer a quem busca também
o significado da história, como faz o Santo Padre em seu último volume sobre
Jesus. São muitos os fatos acontecidos, mas não são “históricos” no sentido
alto do termo, porque não deixaram nenhum vestígio na história, não criaram
nada. Os fatos relativos ao nascimento de Jesus são fatos históricos no sentido
mais forte, não só porque aconteceram, mas incidiram, e de forma decisiva, na
história do mundo.
De onde nasce a alegria? A fonte da alegria é Deus, a Trindade. Mas nós
estamos no tempo e Deus está na eternidade: como é que a alegria pode passar
entre esses dois planos tão distantes? Se questionarmos a bíblia, descobriremos
que a fonte imediata da alegria está no tempo: é o agir de Deus na história.
Deus que age! No ponto em que "cai" uma ação divina, é produzida uma
vibração e uma onda de alegria que se espalha pelas gerações; mais ainda, no
caso de ações da Revelação, elas se espalham para sempre.
A ação de Deus é, cada vez, um milagre que maravilha o céu e a terra:
"Exultai, ó céus, porque o Senhor agiu!”, diz o profeta. “Rejubilai,
profundezas da terra!" (Is 44, 23; 49, 13). A alegria que vem do coração
de Maria e das outras testemunhas do início da salvação se baseia toda nesta
razão: Deus ajudou Israel! Deus agiu! Deus fez grandes coisas!
Como pode, esta alegria pela ação de Deus, chegar até a igreja de hoje e
contagiá-la? Primeiro, pela memória, no sentido de que a Igreja
"relembra" as obras maravilhosas de Deus em seu favor. A Igreja é
convidada a fazer suas as palavras da Virgem: "Ele fez grandes coisas em
mim, o Todo-Poderoso". O magnificat é a canção que Maria cantou primeiro e
legou à Igreja para prolongá-la pelos séculos. Grandes coisas, de fato, fez o
Senhor pela Igreja nestes vinte séculos!
Temos, em certo sentido, mais razões objetivas para nos alegrarmos do
que Zacarias, Simeão, os pastores e toda a Igreja primitiva. Ela começou
"carregando a semente para a semeadura", como diz o Salmo 126,
mencionado acima; ela recebeu promessas, como "Eu estou convosco!", e
mandados, como "Ide pelo mundo inteiro". Já nós vimos o cumprimento.
A semente cresceu, a árvore do Reino tornou-se imensa. A Igreja de hoje é como
o semeador que "volta com alegria”.
Quantas graças, quantos santos, quanta sabedoria de doutrina e riqueza de
instituições, quanta salvação operada nela e através dela! Que palavra de
Cristo não encontrou cumprimento perfeito? Cumpriram-se as palavras "No
mundo tereis aflições" (João 16, 33), mas também as palavras "As
portas do inferno não prevalecerão" (Mt 16, 18).
Com que direito a Igreja pode tornar sua, perante o sem-número dos seus
filhos, a maravilha da antiga Sião e dizer: “Quem os gerou para mim? Eu não
tinha filhos e era estéril; estes, quem os criou?" (Is 49, 21). Quem,
olhando para trás com os olhos da fé, não vê cumpridas perfeitamente na Igreja
as palavras proféticas sobre a nova Jerusalém, reconstruída depois do exílio?
"Levanta os olhos e olha ao teu redor: todos eles se reúnem e vêm a ti.
Teus filhos vêm de longe [...] Tuas portas estarão abertas por sempre [...]
para deixar virem a ti as riquezas das nações" (Is 60, 4.11).
Quantas vezes a Igreja teve de alargar, nestes vinte séculos, ainda que
nem sempre rápido nem sem resistências, o "espaço da sua tenda", a
sua capacidade de acolher, de deixar entrar a riqueza humana e cultural dos
diferentes povos! Para nós, os filhos da Igreja, que nos nutrimos "da
abundância do seu seio", é que vem o chamado do profeta a nos alegrarmos
pela Igreja, "a brilhar de alegria com ela", depois de participar do
seu luto (cf. Is 66, 10).
A alegria pelo agir de Deus chega até nós, os crentes de hoje, pela via
da memória, porque vemos as grandes coisas que Deus fez por nós no passado. Mas
há outro modo, não menos importante: a via da presença, porque vemos que, mesmo
agora, no presente, Deus está agindo entre nós, na Igreja.
Se a Igreja de hoje, no meio de todos os problemas e atribulações que a
golpeiam, quer reencontrar o caminho da coragem e da alegria, ela deve abrir os
olhos para o que Deus está hoje fazendo nela. O dedo de Deus, que é o Espírito
Santo, ainda está escrevendo na Igreja e nas almas histórias maravilhosas de
santidade, que um dia, quando desaparecer todo pecado, farão que se olhe para o
nosso tempo com espanto e santa inveja. Fechamos os olhos, ao fazer isso, aos
muitos males que afligem a Igreja e às traições de muitos dos seus ministros?
Não. Mas se o mundo e sua mídia não destacam na Igreja nada além dessas coisas,
é bom levantarmos o olhar e vermos também seu lado bom, sua santidade.
Em cada época, mesmo na nossa, o Espírito diz à Igreja, como no tempo do
deutero-Isaías: "Agora te narro coisa nova e secreta, de que sequer
suspeitavas. São coisas criadas agora, em vez de há muito tempo" (Is 48,
6-7). Não será que é "coisa nova e secreta" esse fôlego poderoso do
Espírito que ressuscita o povo de Deus e desperta em seu meio carismas de todo
tipo, ordinários e extraordinários? Este amor pela palavra de Deus? Esta
participação ativa dos leigos na vida da Igreja e na evangelização? O compromisso
constante do magistério e de muitas organizações em favor dos pobres e dos que
sofrem e o desejo de consertar a unidade rompida do Corpo de Cristo? Em que
época passada a Igreja teve tal série de papas doutos e santos como de um
século e meio para cá, e tantos mártires da fé?
3. Uma relação diferente entre a alegria e a dor
Do eclesial, passamos para o existencial e pessoal. Alguns anos atrás,
houve uma campanha do ateísmo militante cujo slogan publicitário, afixado no
transporte público de Londres, dizia: "Deus provavelmente não existe.
Então pare de se atormentar e desfrute da vida!".
O mais insidioso desse slogan não é a premissa "Deus não
existe" (que precisa ser provada), mas a conclusão: "Desfrute da
vida!". A mensagem subjacente é que a fé em Deus impede as pessoas de
aproveitarem a vida, que a fé é inimiga da alegria. Sem ela haveria mais
felicidade no mundo! Precisamos dar uma resposta a essa insinuação que mantém
distantes da fé especialmente os jovens.
Jesus provocou, a propósito da alegria, uma revolução tamanha que é
difícil exagerar sobre o seu alcance e que pode ser de grande ajuda na
evangelização. É um pensamento que eu acho que já manifestei neste mesmo lugar,
mas o assunto o exige novamente. Existe uma experiência humana universal: nesta
vida, prazer e dor se sucedem com a mesma regularidade com que, após uma onda
no mar, sucede-se um mergulho e um vácuo que aspira o náufrago de volta.
"Um não-sei-quê de amargo”, escreveu o poeta pagão Lucrécio, “surge do
íntimo de cada prazer e nos angustia em meio às delícias" (Lucrécio, De
rerum natura, IV, 1129 s). O uso de drogas, o abuso do sexo, a violência
homicida, em seu momento proporcionam a ebriedade momentânea do prazer, mas
conduzem à dissolução moral e, muitas vezes, até física da pessoa.
Cristo inverteu a relação entre prazer e dor. “Em vez da alegria, Ele
suportou a cruz" (Hebreus 12, 2). Não era mais um prazer que terminava em
sofrimento, mas um sofrimento que conduz à vida e à alegria. Não é apenas uma
ordem diferente das coisas; é a alegria, desta forma, que tem a última palavra,
e não o sofrimento; e é uma alegria que vai durar para sempre. "Cristo
ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte não tem mais domínio sobre
ele" (Romanos 6,9). A cruz termina na Sexta-Feira Santa, mas a felicidade
e a glória do domingo da Ressurreição se estendem para sempre.
Esta nova relação entre sofrimento e prazer se reflete até na forma de
medir o tempo na bíblia. No cômputo humano, o dia começa com a manhã e termina
com a noite; na bíblia, começa com a noite e termina com o dia: "E foi a
noite e a manhã: o primeiro dia", diz o relato da criação (Gênesis 1, 5).
Na liturgia também a festa começa com as vésperas da vigília. O que isto
significa? Que, sem Deus, a vida é um dia que termina na noite; com Deus, é uma
noite, e às vezes uma "noite escura", que termina no dia, e um dia
sem ocaso.
Mas devemos evitar uma objeção fácil: a alegria, então, é apenas para
depois da morte? Esta vida, para os cristãos, não é nada mais do que um
"vale de lágrimas"? Pelo contrário: ninguém experimenta nesta vida a
verdadeira alegria como os verdadeiros crentes. Conta-se que um dia um santo
clamou a Deus: "Chega de alegria! Meu coração não pode conter mais tanta
alegria!". Os crentes, exorta o apóstolo, são "spe gaudentes",
alegres na esperança (Rm 12, 12), o que não significa apenas que eles "esperam
ser felizes" (na vida após a morte), mas também que eles "são felizes
por esperar", felizes já, agora, graças à esperança.
A alegria cristã é interior, não vem de fora, mas de dentro, como alguns
lagos alpinos que se alimentam não de um rio, mas de uma nascente que jorra em
seu próprio fundo. Nasce do agir misterioso e presente de Deus no coração do
homem em graça. Pode causar abundância de alegria até nos sofrimentos (cf. 2
Cor 7, 4). É "fruto do Espírito" (Gl 5, 22, Rm 14, 17) e se expressa
na paz do coração, na plenitude do significado, na capacidade de amar e ser
amado e, acima de tudo, na esperança, sem a qual não pode haver alegria.
Em 1972, por sugestão de Herbert von Karajan, o Conselho da Europa
adotou como hino oficial da Europa unida a Ode à Alegria que encerra a Nona
Sinfonia de Beethoven. Trata-se, certamente, de um dos ápices da música
mundial, mas a alegria que ele canta é vaga, não realizada; é um grito que sobe
do coração humano, mais do que uma resposta que desce até ele.
Na Ode de Schiller, que inspirou a letra do hino, lemos palavras
inquietantes: "Aqueles que sentiram a alegria de ter um amigo ou uma boa
esposa, aqueles que conheceram, ainda que apenas por uma hora, o que é o amor,
estes se aproximem! Mas quem não souber de nada disso, que se afaste, chorando,
do nosso círculo”. A alegria que os homens "bebem do seio da
natureza" não é para todos, mas apenas para alguns poucos privilegiados
pela vida.
Isto é muito distante da linguagem de Jesus, que diz: "Vinde a mim,
todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" (Mt 11, 28).
O verdadeiro hino cristão à alegria é o magnificat de Maria. Ele fala de uma
exultação (agallìasis) do espírito pelo que Deus fez por ela e faz por
todos os humildes e famintos da terra.
4. Testemunhar a alegria
Esta é a alegria que temos de testemunhar. O mundo busca a alegria.
"Só escutar o seu nome – escreve Santo Agostinho – todos se levantam e
olham para as tuas mãos, para ver se você é capaz de dar algo às suas
necessidades". Todos queremos ser felizes. É algo comum a todos, bons e
maus.
Quem é bom, é bom porque é feliz; quem é mal, só é mal porque espera,
com isso, ser feliz. Se todos nós amamos a alegria é porque, de alguma maneira
misteriosa, a conhecemos; porque se não a conhecêssemos – se não tivéssemos
sido feitos para ela -, não a amaríamos. Este desejo da alegria é a parte do
coração humano naturalmente aberta para receber a “alegre mensagem”.
Quando o mundo bate à porta da Igreja – mesmo quando faz isso com
violência e raiva – é porque busca a alegria. Os jovens, especialmente,
procuram a alegria. O mundo ao seu redor é triste. A tristeza, por assim dizer,
nos encurrala, mais no Natal que no resto do ano. Não é uma tristeza que
depende da falta de bens materiais porque é muito mais evidente nos países
ricos do que nos países pobres.
Em Isaías lemos estas palavras, dirigidas ao povo de Deus: "eis o
que dizem vossos irmãos que vos odeiam, que vos renegam por causa de meu nome:
Que o Senhor manifeste sua glória para que vejamos vossa alegria!” O mesmo
desafio é dirigido, silenciosamente, ao povo de Deus, também hoje. Uma Igreja
melancólica e medrosa não estaria, por isso, à altura da sua tarefa; não
poderia responder às expectativas da humanidade e sobretudo dos jovens.
A alegria é o único sinal que até mesmo os não-crentes são capazes de
receber e que pode colocá-los seriamente em crise. Não argumentos e censuras. O
testemunho mais bonito que uma esposa pode dar ao seu esposo é um rosto alegre.
Porque isso fala por si mesmo; fala que ele foi capaz de preencher plenamente a
sua vida, de fazê-la feliz. Este é também o testemunho mais bonito que a Igreja
pode dar ao seu Esposo divino.
São Paulo, dirigindo aos cristãos de Filipos aquele convite à alegria,
que marca toda a terceira semana do Advento: “Alegrai-vos sempre no Senhor.
Repito: alegrai-vos!”, explica também como é possível testemunhar, na prática,
esta alegria: “Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade” (Fil 5, 4-5).
A palavra "afabilidade” traduz aqui um termo grego (epieikès) que indica
todo um conjunto de atitudes feito de clemência, indulgência, capacidade de
saber ceder, de não ser exigentes. (É o mesmo vocábulo do qual deriv a palavra
epicheia, usada no direito!).
Os cristãos testemunham, por isso, a alegria quando colocam em prática
estas disposições; quando, evitando toda amargura e ressentimento inútil no
diálogo com o mundo e entre si, sabem irradiar confiança, imitando, desta
maneira, a Deus, que faz chover sobre os injustos. Quem é feliz, no geral, não
é amargo, não sente a necessidade de apontar tudo e sempre; sabe relativizar as
coisas, porque conhece algo que é maior. Paulo VI, na sua “Exortação apostólica
sobre a Alegria”, escrita nos últimos anos do seu pontificado, fala de um
“olhar positivo sobre as pessoas e sobre as coisas, fruto de um espírito humano
iluminado e do Espírito Santo”. Até mesmo dentro da Igreja, não apenas para
aqueles que estão de fora, há uma necessidade vital do testemunho da alegria.
São Paulo falava de si e dos outros apóstolos: “Não porque pretendamos dominar
sobre a vossa fé. Queremos apenas contribuir para a vossa alegria” (2 Cor 1,
24). Que definição maravilhosa da tarefa dos pastores na Igreja! Colaboradores
da alegria: aqueles que infundem segurança às ovelhas do rebanho de Cristo, os
capitães valorosos que, com o seu olhar tranquilo, animam os soldados
envolvidos na luta.
Em meio a provas e calamidades que afligem a Igreja, especialmente em
algumas partes do mundo, os pastores podem repetir, também hoje, aquelas
palavras que Neemias, um dia, depois do exílio, dirigiu ao povo de Israel
abatido e em lágrimas: “não haja nem aflição, nem lágrimas [...], porque a
alegria do Senhor é a vossa força" (Ne 8, 9-10).
Que a alegria do Senhor, Santo Padre, veneráveis padres, irmãos e irmãs,
seja realmente, a nossa força, a força da Igreja. Feliz Natal!
Ode à Alegria
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