sábado, 22 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Um, nenhum, cem mil. Pirandello tem razão e vai me deixar maluco. Vou esbarrando nas diferenças, na esperança de alcançar o essencial. Recolhendo as impressões que causo, testando meu próprio juízo, elaborando ferramentas diversas com que sobreviver. Imito o que admiro, uso minhas máscaras, julgo o que estranho ou me provoca. A vida espanta, surpreende sem cessar. Formo meu repertório e sigo procurando o meu lugar. Em meio a descobertas universais vou traçando meu caminho particular. Amadureço. Enfrento. Confio. Sei que vou passar. Simplesmente sei.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Simples. Você ouve uma cigarra e tudo não passa de um mal estar, provavelmente consequência do calor. Você descobre que estava embutido e um telefonema para um amigo dissolve o problema. Desde que não seja aquele tipo do amigo-sucesso, o defensivo, que se faz membro da casta superior dos bem resolvidos. Tem que ser aquele que te faz rir de você mesmo e te convence de que estamos todos na mesma barca. Dureza é que nessas horas você não quer sair, nem encontrar ninguém. Justo quando mais precisa. Depois se decide, como quem toma remédio amargo. E sempre conclui que devia ter feito antes. Eita imaginação maldita, fantasia do mal. Amigo bom e cigarra no verão é puro evangelho. Mata a mentira pelo pescoço e liberta o coração. Você olha pela janela e agradece. Fica até meio desconfiado, pisa mais uma vez o chão pra se certificar. Mas depois aceita sem medo que se sente feliz. E tudo fica simples demais.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
As três humanidades
por Mário Ferreira dos Santos
A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.
São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.
São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.
A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: "Tenho asfalto na alma ... " ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um "modus-vivendi"; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de "moda", na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas "exquises", instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do "taedium vitae"; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem económica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingénuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, "Os homens excelsos não são originais".
Justifico por final o título: três humanidades.
A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.
(Do livro Páginas Várias - Antologia da Literatura Mundial, Editora Logos, 5a edição, São Paulo, 1966).
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012
“Doença: antes de mais nada, tudo depende de quem está doente, de quem está louco,
epiléptico, paralítico – uma pessoa medianamente tola, em cujo caso a doença
prescinde do aspecto intelectual ou cultural, ou um Nietzsche, um Dostoiévski.
Em ambos os casos, aquilo que resulta da doença é mais importante e estimulante
para a vida e sua evolução do que qualquer normalidade aprovada do ponto de
vista médico. A verdade é que a vida nunca prescindiu da doença, e dificilmente
haverá uma afirmação mais idiota do que “a doença só pode gerar coisas
doentias”. A vida não é suave com as pessoas, e podemos dizer que ela prefere
mil vezes a doença criativa, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo,
saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé. A vida
não é delicada e está longe de querer fazer qualquer distinção moral entre
saúde e doença. A vida toma o resultado ousado da doença, ingere-o, digere-o e,
da maneira que ela o acolhe, aquilo significa saúde. Toda uma horda e geração
de rapazes receptivos e saudáveis se lança sobre a obra do gênio doente,
transformado em gênio pela doença, admirando, elogiando, elevando,
prosseguindo, transformando, legando-a para a cultura que não vive apenas do
pão ordinário da saúde. Todos se declararão fiéis ao nome do grande enfermo,
todos eles que, graças à sua insanidade, não precisam mais ficar insanos. De
sua insanidade eles haverão de se alimentar, saudáveis, e neles ele haverá de
ser saudável." (Thomas Mann, “O escritor e sua missão”, p. 124/125, Ed. Jorge Zahar)
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
A solução será "mudar"?
“A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica
a prosa de cada dia"
"[...] Muitos acham, então, que a solução consiste em “mudar” (mudar de cidade, mudar de mulher ou de marido, mudar de trabalho, mudar de religião, mudar os hábitos certos e passar a ter vida desregrada). Ou então “desligam” de tudo e de todos, e passam a viver num mundo de sonhos, de fantasias (divagações de Internet e tv), de saudades..., que, por serem evasões, facilmente desembocam na pior fuga, na alienação completa do álcool e das drogas.
Santo Agostinho, o coração inquieto que não se conformava com as coisas confusas e medíocres, dizia: “Eu temia tanto como à morte ficar preso pelo hábito rotineiro” (Et tamquam mortem reformidabam restringi a fluxu consuetudinis). Mas não resolveu o problema fugindo, e sim arrependendo-se dos seus pecados e procurando Deus com toda a sua alma.
Todos deveríamos ter pavor tanto da rotina asfixiante como da falsa solução da fuga... Porque o problema da rotina –contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetição monótona das ações e das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e amar as coisas e as pessoas. O mal está exclusivamente dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso.
Todos deveríamos ter pavor tanto da rotina asfixiante como da falsa solução da fuga... Porque o problema da rotina –contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetição monótona das ações e das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e amar as coisas e as pessoas. O mal está exclusivamente dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso.
É muito sugestiva, a respeito disso, aquela história que conta Chesterton sobre o inglês que se sentia entediado de morar sempre na mesma ilha, e por isso foi à procura de outra terra, a terra dos seus sonhos. Viajou muito. Todos os países aonde aportava não o satisfaziam. Já se estava cansando de tanto viajar, quando avistou uma terra que o atraiu extraordinariamente. Aproximou-se dela, desembarcou, começou a internar-se no território e logo chegou, cheio de entusiasmo, à conclusão: “Esta é a terra dos meus sonhos, a que sempre andei procurando!” Ao perguntar a um dos habitantes onde estava, este respondeu-lhe: “Na Inglaterra”.
Algo de parecido acontece conosco. Não precisamos ir atrás de outras “ilhas”. Basta ficarmos na nossa – na nossa vida real - , mas vendo-a e vivendo-a com frescor de novidade. [...]"
("Meditações sobre a ressureição", Pde. Francisco Faus)
sábado, 20 de outubro de 2012
Desassossegos do homem (pós) moderno
Do Livro do Desassossego, por Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Quando nasceu a geração, a que
pertenço, encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro, e
ao mesmo tempo coração. O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera
que o mundo, para o qual nascemos, não tivesse segurança que nos dar na ordem
religiosa, esteio que nos dar na ordem moral, tranquilidade que nos dar na
ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia
moral, em pleno desassossego político. Ébrias das fórmulas externas, dos meros
processos da razão e da ciência, as gerações, que nos precederam, aluíram todos
os fundamentos da fé cristã, porque a sua crítica bíblica, subindo de crítica
dos textos a crítica mitológica, reduziu os evangelhos e a anterior hierografia
dos judeus a um amontoado incerto de mitos, de legendas e de mera literatura; e
a sua crítica científica gradualmente apontou os erros, as ingenuidades
selvagens da «ciência» primitiva dos evangelhos; e, ao mesmo tempo, a liberdade
de discussão, que pôs em praça todos os problemas metafísicos, arrastou com
eles os problemas religiosos onde fossem da metafísica. Ébrias de uma coisa
incerta, a que chamaram «positividade», essas gerações criticaram toda a moral,
esquadrinharam todas as regras de viver, e, de tal choque de doutrinas, só
ficou a certeza nenhuma, e a dor de não haver essa certeza. Uma sociedade assim
indisciplinada nos seus fundamentos culturais não podia, evidentemente ser
senão vítima, na política, dessa indisciplina; e assim foi que acordámos para
um mundo ávido de novidades sociais, e [que] com alegria ia à conquista de uma
liberdade que não sabia o que era, de um progresso que nunca definira.
Mas o criticismo fruste dos nossos pais, se nos legou a
impossibilidade de ser cristão, não nos legou o contentamento com que (...)
tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, não nos
legou a indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto
o problema político, não deixou indiferente o nosso espírito a como esse
problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente, porque viviam
numa época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que
eles destruíam que dava força à sociedade para que pudessem destruir sem sentir
edifício rachar-se. Nós herdámos a destruição e os seus resultados.
Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos
insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje
quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio:
a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação.
Pertenço
a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma
descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor,
que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram
entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros
tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos
ainda iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que
entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações
nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a
representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a
todas.
Nós perdemos essa, e às outras também.
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na
desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é
navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós
encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher.
Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas:
navegar é preciso, viver não é preciso.
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a
ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos,
porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e
sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro,
também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é
senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque
nós nascemos sem o entusiasmo da luta.
Uns de nós estagnaram na conquista alvar do
quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o
trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.
Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa
pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do
esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m]
não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.
Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma,
ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar
quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque
sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a
noção normal da morte.
Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora
Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. O que
vivemos foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas
vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida,
entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
[...]"
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