sábado, 8 de dezembro de 2012
Simples. Você ouve uma cigarra e tudo não passa de um mal estar, provavelmente consequência do calor. Você descobre que estava embutido e um telefonema para um amigo dissolve o problema. Desde que não seja aquele tipo do amigo-sucesso, o defensivo, que se faz membro da casta superior dos bem resolvidos. Tem que ser aquele que te faz rir de você mesmo e te convence de que estamos todos na mesma barca. Dureza é que nessas horas você não quer sair, nem encontrar ninguém. Justo quando mais precisa. Depois se decide, como quem toma remédio amargo. E sempre conclui que devia ter feito antes. Eita imaginação maldita, fantasia do mal. Amigo bom e cigarra no verão é puro evangelho. Mata a mentira pelo pescoço e liberta o coração. Você olha pela janela e agradece. Fica até meio desconfiado, pisa mais uma vez o chão pra se certificar. Mas depois aceita sem medo que se sente feliz. E tudo fica simples demais.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
As três humanidades
por Mário Ferreira dos Santos
A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.
São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.
São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.
A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: "Tenho asfalto na alma ... " ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um "modus-vivendi"; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de "moda", na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas "exquises", instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do "taedium vitae"; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem económica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingénuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, "Os homens excelsos não são originais".
Justifico por final o título: três humanidades.
A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.
(Do livro Páginas Várias - Antologia da Literatura Mundial, Editora Logos, 5a edição, São Paulo, 1966).
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012
“Doença: antes de mais nada, tudo depende de quem está doente, de quem está louco,
epiléptico, paralítico – uma pessoa medianamente tola, em cujo caso a doença
prescinde do aspecto intelectual ou cultural, ou um Nietzsche, um Dostoiévski.
Em ambos os casos, aquilo que resulta da doença é mais importante e estimulante
para a vida e sua evolução do que qualquer normalidade aprovada do ponto de
vista médico. A verdade é que a vida nunca prescindiu da doença, e dificilmente
haverá uma afirmação mais idiota do que “a doença só pode gerar coisas
doentias”. A vida não é suave com as pessoas, e podemos dizer que ela prefere
mil vezes a doença criativa, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo,
saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé. A vida
não é delicada e está longe de querer fazer qualquer distinção moral entre
saúde e doença. A vida toma o resultado ousado da doença, ingere-o, digere-o e,
da maneira que ela o acolhe, aquilo significa saúde. Toda uma horda e geração
de rapazes receptivos e saudáveis se lança sobre a obra do gênio doente,
transformado em gênio pela doença, admirando, elogiando, elevando,
prosseguindo, transformando, legando-a para a cultura que não vive apenas do
pão ordinário da saúde. Todos se declararão fiéis ao nome do grande enfermo,
todos eles que, graças à sua insanidade, não precisam mais ficar insanos. De
sua insanidade eles haverão de se alimentar, saudáveis, e neles ele haverá de
ser saudável." (Thomas Mann, “O escritor e sua missão”, p. 124/125, Ed. Jorge Zahar)
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
A solução será "mudar"?
“A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica
a prosa de cada dia"
"[...] Muitos acham, então, que a solução consiste em “mudar” (mudar de cidade, mudar de mulher ou de marido, mudar de trabalho, mudar de religião, mudar os hábitos certos e passar a ter vida desregrada). Ou então “desligam” de tudo e de todos, e passam a viver num mundo de sonhos, de fantasias (divagações de Internet e tv), de saudades..., que, por serem evasões, facilmente desembocam na pior fuga, na alienação completa do álcool e das drogas.
Santo Agostinho, o coração inquieto que não se conformava com as coisas confusas e medíocres, dizia: “Eu temia tanto como à morte ficar preso pelo hábito rotineiro” (Et tamquam mortem reformidabam restringi a fluxu consuetudinis). Mas não resolveu o problema fugindo, e sim arrependendo-se dos seus pecados e procurando Deus com toda a sua alma.
Todos deveríamos ter pavor tanto da rotina asfixiante como da falsa solução da fuga... Porque o problema da rotina –contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetição monótona das ações e das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e amar as coisas e as pessoas. O mal está exclusivamente dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso.
Todos deveríamos ter pavor tanto da rotina asfixiante como da falsa solução da fuga... Porque o problema da rotina –contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetição monótona das ações e das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e amar as coisas e as pessoas. O mal está exclusivamente dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso.
É muito sugestiva, a respeito disso, aquela história que conta Chesterton sobre o inglês que se sentia entediado de morar sempre na mesma ilha, e por isso foi à procura de outra terra, a terra dos seus sonhos. Viajou muito. Todos os países aonde aportava não o satisfaziam. Já se estava cansando de tanto viajar, quando avistou uma terra que o atraiu extraordinariamente. Aproximou-se dela, desembarcou, começou a internar-se no território e logo chegou, cheio de entusiasmo, à conclusão: “Esta é a terra dos meus sonhos, a que sempre andei procurando!” Ao perguntar a um dos habitantes onde estava, este respondeu-lhe: “Na Inglaterra”.
Algo de parecido acontece conosco. Não precisamos ir atrás de outras “ilhas”. Basta ficarmos na nossa – na nossa vida real - , mas vendo-a e vivendo-a com frescor de novidade. [...]"
("Meditações sobre a ressureição", Pde. Francisco Faus)
sábado, 20 de outubro de 2012
Desassossegos do homem (pós) moderno
Do Livro do Desassossego, por Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Quando nasceu a geração, a que
pertenço, encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro, e
ao mesmo tempo coração. O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera
que o mundo, para o qual nascemos, não tivesse segurança que nos dar na ordem
religiosa, esteio que nos dar na ordem moral, tranquilidade que nos dar na
ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia
moral, em pleno desassossego político. Ébrias das fórmulas externas, dos meros
processos da razão e da ciência, as gerações, que nos precederam, aluíram todos
os fundamentos da fé cristã, porque a sua crítica bíblica, subindo de crítica
dos textos a crítica mitológica, reduziu os evangelhos e a anterior hierografia
dos judeus a um amontoado incerto de mitos, de legendas e de mera literatura; e
a sua crítica científica gradualmente apontou os erros, as ingenuidades
selvagens da «ciência» primitiva dos evangelhos; e, ao mesmo tempo, a liberdade
de discussão, que pôs em praça todos os problemas metafísicos, arrastou com
eles os problemas religiosos onde fossem da metafísica. Ébrias de uma coisa
incerta, a que chamaram «positividade», essas gerações criticaram toda a moral,
esquadrinharam todas as regras de viver, e, de tal choque de doutrinas, só
ficou a certeza nenhuma, e a dor de não haver essa certeza. Uma sociedade assim
indisciplinada nos seus fundamentos culturais não podia, evidentemente ser
senão vítima, na política, dessa indisciplina; e assim foi que acordámos para
um mundo ávido de novidades sociais, e [que] com alegria ia à conquista de uma
liberdade que não sabia o que era, de um progresso que nunca definira.
Mas o criticismo fruste dos nossos pais, se nos legou a
impossibilidade de ser cristão, não nos legou o contentamento com que (...)
tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, não nos
legou a indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto
o problema político, não deixou indiferente o nosso espírito a como esse
problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente, porque viviam
numa época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que
eles destruíam que dava força à sociedade para que pudessem destruir sem sentir
edifício rachar-se. Nós herdámos a destruição e os seus resultados.
Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos
insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje
quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio:
a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação.
Pertenço
a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma
descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor,
que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram
entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros
tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos
ainda iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que
entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações
nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a
representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a
todas.
Nós perdemos essa, e às outras também.
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na
desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é
navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós
encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher.
Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas:
navegar é preciso, viver não é preciso.
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a
ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos,
porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e
sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro,
também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é
senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque
nós nascemos sem o entusiasmo da luta.
Uns de nós estagnaram na conquista alvar do
quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o
trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.
Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa
pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do
esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m]
não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.
Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma,
ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar
quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque
sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a
noção normal da morte.
Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora
Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. O que
vivemos foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas
vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida,
entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
[...]"
1ª Catequese do Ano da Fé - Papa Bento XVI
CIDADE DO VATICANO
Audiência Geral de quarta-feira
17 de outubro de 2012
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje vou apresentar o novo ciclo
de catequese, que se desenvolve durante todo o Ano de Fé inaugurado
recentemente e que interrompe - por este período - o ciclo dedicado à
escola de oração. Com a Carta Apostólica Porta Fidei convoquei este Ano especial,
para que a Igreja renove o entusiasmo de crerem Jesus Cristo, o único
salvador do mundo, reaviva a alegria de andar no caminho que nos indicou, e
testemunhe de maneira concreta a força transformadora da fé.
A ocorrência dos cinqüenta anos da
abertura do Concílio Vaticano II é uma importante ocasião para retornar a Deus,
para aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a
pertença à Igreja, "mestra de humanidade", que, através do anúncio da
Palavra, a celebração dos Sacramentos e obras de caridade nos leva a encontrar
e conhecer a Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Este não é o encontro
com uma idéia ou um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que transforma
profundamente a nós mesmos, revelando a nossa verdadeira identidade de filhos
de Deus. O encontro com Cristo renova nossas relações humanas, orientando-as,
dia a dia, a uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor. Ter fé
no Senhor não é algo que interessa apenas à nossa inteligência, a área do saber
intelectual, mas é uma mudança que envolve a vida, todo o nosso ser:
sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções,
relacionamentos. Com a fé realmente tudo muda em nós e para nós, e revela com
clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação na história, o
sentido da vida, o gosto de ser um peregrino em direção à Pátria celestial.
Mas – perguntamo-nos - a fé é
realmente o poder transformador em nossas vidas, em minha vida? Ou é apenas um
dos elementos que fazem parte da existência, sem ser aquele determinante que a
envolve totalmente?
Com as catequeses deste Ano
da Fé gostaríamos de
percorrer um caminho para fortalecer ou reencontrar a alegria da fé,
compreendendo que essa não é algo estranho, destacado da vida cotidiana, mas é
a alma. A fé em um Deus
que é amor, e que se fez próximo ao homem encarnando-se e entregando-se na cruz
para nos salvar e reabrir as portas do Céu, de modo luminoso que somente no
amor está a plenitude do homem. Hoje é necessário repetir isso claramente,
enquanto as transformações culturais em curso muitas vezes mostram diversas
formas de barbárie, que passam sob símbolo de "conquistas de
civilização": a fé afirma que não há verdadeira humanidade senão nos
lugares, gestos, tempos e formas em que o homem é motivado pelo amor que vem de
Deus, exprimi-se como dom, se manifesta nas relações plenas de amor, compaixão,
atenção e serviço desinteressado para com o outro. Onde há dominação, posse,
exploração, mercantilização do outro por egoísmo próprio, onde há arrogância do
eu fechado em si mesmo, o homem é empobrecido, degradado, desfigurado. A fé
cristã, operante na caridade e forte na esperança, não limita, mas humaniza a
vida, de fato torna-a plenamente humana.
A fé é acolher esta mensagem
transformadora em nossa vida, é acolher a revelação de Deus, que nos faz
conhecer quem Ele é, como age, quais são seus planos para nós. É claro, o
mistério de Deus está sempre além dos nossos conceitos e da nossa razão, dos
nossos ritos e orações. No entanto, com a revelação o próprio Deus se
autocomunica, se diz, torna-se acessível. E nós somos capazes de escutar a Sua
Palavra e de receber a sua verdade. Eis então, a maravilha da fé: Deus, no seu
amor, cria em nós - através da obra do Espírito Santo - as condições adequadas
para que possamos reconhecer a sua Palavra. Deus mesmo, na sua vontade de se
manifestar, de entrar em contato conosco, de estar presente em nossa história,
nos permite ouvi-lo e acolhê-lo. São Paulo exprime isso com alegria e gratidão:
"Por isso é que também nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes
a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e a acolhestes, não como palavra de
homens, mas como aquilo que realmente é, como palavra de Deus, que age
eficazmente em vós, os fiéis" (1 Tessalonicenses 2,13).
Deus revelou-se em palavras e
obras ao longo de uma história de amizade com o homem, que culmina na
Encarnação do Filho de Deus e no seu mistério de morte e ressurreição. Deus não
apenas se revelou na história de um povo, não só falou através dos Profetas,
mas atravessou seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que
pudéssemos encontrá-lo e ouvi-lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da
salvação se difundiu até os confins da terra. A Igreja, nascida do lado aberto
de Cristo, tornou-se portadora de uma nova sólida esperança: Jesus de Nazaré,
crucificado e ressuscitado, salvador do mundo, que está sentado à direita do
Pai e é o juiz dos vivos e dos mortos. Este é o Kerigma,
o anúncio central e disruptivo da fé. Mas desde o início, surgiu o problema da
"regra de fé", ou seja, a fidelidade dos crentes à verdade do
Evangelho, na qual continuam fortes, à verdade salvadora sobre Deus e sobre o
homem a ser preservada e transmitida. São Paulo escreve: "Sereis salvos,
se o conservardes [o evangelho] como vo-lo anunciei. Caso contrário, vós teríeis
acreditado em vão” (1 Cor 15,2)
Mas onde encontramos a fórmula
essencial da fé? Onde encontramos a verdade que nos foi transmitida fielmente e
que é luz para a nossa vida cotidiana? A resposta é simples: no Credo, na
Profissão de Fé o Símbolo da fé, nós nos reportamos ao evento originário da
Pessoa e da História de Jesus de Nazaré; torna-se concreto aquilo que o
Apóstolo dos gentios dizia aos cristãos de Corinto: “Vos transmiti, antes de
tudo, aquilo que eu também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados segundo
as Escrituras, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia” (1 Cor 15,3).
Também hoje precisamos que o Credo
seja conhecido melhor, compreendido e rezado. Sobretudo é importante que o
Credo seja, por assim dizer, “reconhecido”. Conhecer, de fato, poderia ser
uma operação apenas intelectual, enquanto “reconhecer” quer dizer a necessidade
de descobrir a ligação profunda entre a verdade que professamos no Credo e a
nossa existência cotidiana, para que estas verdades sejam verdadeiramente e
concretamente – como sempre foi – luz para os passos do nosso viver, água que
irriga o calor do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida
contemporânea. No Credo se engaja a vida moral do cristão, que nesse
encontra o seu fundamento e a sua justificativa.
Não é por acaso que o Beato João
Paulo II quis que o Catecismo da Igreja Católica, norma segura para o
ensinamento da fé e fonte certa para uma catequese renovada, fosse estabelecido
no Credo. Tratou-se de confirmar e guardar este núcleo central da verdade da
fé, tornando-o uma linguagem mais compreensível aos homens do nosso tempo, a
nós. É um dever da Igreja transmitir a fé, comunicar o Evangelho, a fim de que
a verdade cristã seja luz nas novas transformações culturais, e os cristãos
sejam capazes de dar razões da esperança que portam (cfr 1 Pt3,14). Hoje
vivemos em uma sociedade profundamente alterada mesmo em relação a um passado
recente, e em contínuo movimento. Os processos da secularização e de uma
difundida mentalidade niilista, em que tudo é relativo, marcaram fortemente a
mentalidade comum. Assim, a vida é vivida muitas vezes com leveza, sem ideais
claros e esperanças sólidas, dentro das ligações sociais e familiares líquidas,
provisórias. Sobretudo
as novas gerações não são educadas para a busca da verdade e do sentido
profundo da existência que supera o contingente, para a estabilidade dos
afetos, para a confiança. Ao contrário, o relativismo leva a não ter pontos
fixos, suspeita e volatilidade causam rupturas nas relações humanas, enquanto a
vida é vivida dentro de experiências que duram pouco, sem assumir
responsabilidades. Se o individualismo e o relativismo parecem dominar a alma
de muitos contemporâneos, não se pode dizer que os que crêem estão totalmente
imunes a este perigo, com o qual somos confrontados na transmissão da fé. A
pesquisa promovida em todos os continentes para a celebração do Sínodo dos
Bispos sobre a Nova Evangelização, evidenciou alguns: uma fé vivida de modo
passivo e privado, a recusa da educação na fé, o rompimento entre a vida e a fé
O cristão muitas vezes não conhece
nem sequer o núcleo central da própria fé católica, do Credo, de modo a deixar
espaço a um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre a
verdade de crer e da singularidade salvífica do cristianismo. Não está tão
longe hoje o risco de construir, por assim dizer, uma religião “faça você
mesmo”. Devemos, em vez disso, voltar para Deus, ao Deus de Jesus Cristo,
devemos redescobrir a mensagem do Evangelho, fazê-lo entrar de modo mais profundo
nas nossas consciências e na vida cotidiana.
Nas catequeses deste Ano
da Fé gostaria de
oferecer uma ajuda para percorrer este caminho, para retomar e aprofundar a
verdade central da fé em Deus, no homem, na Igreja, em toda a realidade social
e cósmica, meditando e refletindo sobre as afirmações do Credo. E gostaria que
ficasse claro que este conteúdo ou verdade da fé (fides quae) se conecta diretamente às nossas vidas; pede
uma conversão da existência, que dá vida a um novo modo de crer em Deus (fides qua). Conhecer Deus, encontrá-Lo,
aprofundar o conhecimento de sua face põe em jogo a nossa vida, porque Ele
entra nos dinamismos profundos do ser humano.
Possa o caminho que iremos
percorrer neste ano fazer-nos crescer todos na fé e no amor a Cristo, para que
aprendamos a viver, nas escolhas e nas ações cotidianas, a vida boa e bela do
Evangelho. Obrigado.
(Trad.MEM) Fonte: Zenit.org
sábado, 6 de outubro de 2012
A Família em busca da extinção
Diário do Comércio, 02 Outubro 2012
Por Olavo de Carvalho
A “família tradicional” que os cristãos e conservadores defendem ardorosamente contra o assédio feminista, gayzista, pansexualista etc., bem como contra a usurpação do pátrio poder pelo Estado, é essencialmente a família nuclear constituída de pai, mãe e filhos (poucos). O cinema consagrou essa imagem como símbolo vivente dos valores fundamentais da cultura americana, e a transmitiu a todos os países da órbita cultural dos EUA.
Mas esse modelo de família nada tem de tradicional. É um subproduto da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. A primeira desmantelou as culturas regionais e as unidades de trabalho familiar em que habilidades agrícolas ou artesanais se transmitiam de pai a filho ao longo das gerações; as famílias tradicionais desmembraram-se em pequenas unidades desarraigadas, que vieram para as cidades em busca de emprego. A Revolução Francesa completou o serviço, abolindo os laços tradicionais de lealdade territorial, familiar, pessoal e grupal e instaurando em lugar deles um novo sistema de liames legais e burocráticos em que a obrigação de cada indivíduo vai para o Estado em primeiro lugar e só secundariamente – por permissão do Estado – a seus familiares e amigos. A sociedade “natural”, formada ao longo dos séculos sem nenhum planejamento, por experiência e erro, foi enfim substituída pela sociedade planejada, racional-burocrática, em que os átomos humanos, amputados de qualquer ligação profunda de ordem pessoal e orgânica, só têm uns com os outros relações mecânicas fundadas nos regulamentos do Estado ou afinidades de superfície nascidas de encontros casuais nos ambientes de trabalho e lazer. Tal é a base e origem da moderna família nuclear.
Max Weber descreve esse processo como um capítulo essencial do “desencantamento do mundo”, em que a perda de um sentido maior da existência é mal compensada por sucedâneos ideológicos, pela indústria das diversões públicas e por uma “religião” cada vez mais despojada da sua função essencial de moldar a cultura como um todo. Nessas condições, assinala Weber, é natural que a busca de uma ligação com o sentido profundo da existência reflua para a intimidade de ambientes cada vez mais restritos, entre os quais, evidentemente, a família nuclear. Mas, na medida mesma em que esta é uma entidade jurídica altamente regulamentada e cada vez mais exposta às intrusões da autoridade estatal, ela deixa de ser aos poucos o abrigo ideal da intimidade e é substituída, nessa função, pelas relações extramatrimoniais.
Separada da proteção patriarcal, solta no espaço, dependente inteiramente da burocracia estatal que a esmaga, a família nuclear moderna é por sua estrutura mesma uma entidade muito frágil, incapaz de resistir ao impacto das mudanças sociais aceleradas e a cada “crise de gerações” que as acompanha necessariamente. Longe de ser a morada dos valores tradicionais, ela é uma etapa de um processo histórico-social abrangente que vai em direção à total erradicação da autoridade familiar e à sua substituição pelo poder impessoal da burocracia.
Não por coincidência, o esfarelamento da sociedade em unidades familiares pequenas permanentemente ameaçadas de autodestruição veio acompanhada do fortalecimento inaudito de umas poucas famílias patriarcais, justamente aquelas que estavam e estão na liderança do mesmo processo. Refiro-me às dinastias nobiliárquicas e financeiras que hoje constituem o núcleo da elite globalista. Quanto mais uma “ciência social” subsidiada por essas grandes fortunas persuade a população de que a dissolução do patriarcalismo foi um grande progresso da liberdade e dos direitos humanos, mais fortemente a elite mandante se apega à continuidade patriarcalista que garante a perpetuação e ampliação do seu poder ao longo das gerações. Com toda a evidência, a família patriarcal é uma fonte de poder: a história social dos dois últimos séculos é a da transformação do poder patriarcal num privilégio dos muito ricos, negado simultaneamente a milhões de bocós cujos filhos aprendem, na universidade, a festejar o fim do patriarcado como o advento de uma era de liberdade quase paradisíaca. O desenvolvimento inevitável desse processo é a destruição – ou autodestruição -- das próprias famílias nucleares, ou do que delas reste após cada nova “crise de gerações”.
A “defesa da família” torna-se, nesse contexto, a defesa de uma entidade abstrata cujo correspondente no mundo concreto só veio à existência com a finalidade de extinguir-se. A ameaça feminista, gayzista ou pansexualista existe, mas só se torna temível graças à fragilidade intrínseca da entidade contra a qual se volta.
Ou as famílias se agrupam em unidades maiores fundadas em laços pessoais profundos e duradouros, ou sua erradicação é apenas questão de tempo. As comunidades religiosas funcionam às vezes como abrigos temporários onde as famílias encontram proteção e solidariedade. Mas essas comunidades baseiam-se numa uniformidade moral estrita, que exclui os divergentes, motivo pelo qual se tornam vítimas fáceis da drenagem de fiéis pela “crise de gerações”. A família patriarcal não é uma unidade ético-dogmática: é uma unidade biológica e funcional forjada em torno de interesses objetivos permanentes, onde os maus e desajustados sempre acabam sendo aproveitados em alguma função útil ao conjunto.
Em últimas contas, se o patriarcalismo fosse coisa ruim os ricos não o guardariam ciumentamente para si mesmos, mas o distribuiriam aos pobres, preferindo, por seu lado, esfarelar-se em pequenas famílias nucleares. Se fazem precisamente o oposto, é porque sabem o que estão fazendo.
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