segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Defesa da Legalização das Drogas

Blog Reinaldo Azevedo: "Sérgio Cabral, a defesa da legalização das drogas e o pacto com o capeta". Vídeo imperdível: alto nível intelectual, ético e moral no grande escalão brasileiro. Clique aqui

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Natal de Alfredo Corriqueiro

Novembro termina. É tempo do advento. No coração de Alfredo se renova a mesma prece. Vale de fato a pena cargo e carreira e a pequena ilusão diária de que o mundo não é, assim, tão perigoso. Quanto ao ensaio de uma rebeldia vinda de dentro ou do grito que insiste em perturbar, Alfredo, corriqueiro, pratica caminhadas, prende-se a agendas, realiza tudo na hora marcada. Afinal, há uma forma não tão traumática de carrear os dias, de organizar os medos e administrar o pensamento. O preço da vida pacata, da miséria cotidiana, que não é externa, mas nasce de dentro, de um coração ainda mais pacato e cômodo. Talvez mais tarde, quando amadurecer, ou em outra vida, se houver. Salvação nesta é difícil acreditar. No mais, devem ser histórias, lendas fabricadas pelo remorso, a vida dos santos, dos mártires e dos heróis. Eu que sou feito do puro tecido humano, não mais que ossos, músculos e pele, animados por um espírito que lhes dá vida, não posso mais que a covardia e as pequenas alegrias nascidas do bem viver. Alfredo é um homem comum de seu tempo, dividido pelo conformismo e a sede de dizer: está tudo certo, tudo no devido lugar. Não merece aspiração mais alta que o emprego, a família e um jeitinho qualquer de sobreviver. Diariamente, assume o mesmo compromisso de calar diante do espelho algo que, todas as manhãs, renova um pedido para nascer. Tal qual um ritual, ele pondera por alguns segundos e se despede, convenientemente. A loucura não é um preço que convém. O espelho não serve mais que um instrumento para a fabricação de um perfeito nó de gravata e a preparação de um penteado usual. A escolha das roupas, o café da manhã, a relação com os colegas e mesmo as cervejas depois do expediente, tudo tende ao mesmo objetivo. A vida regular e garantida, racionalmente construída sobre as expectativas e os cálculos, como deve ser. Não que Alfredo ignore os riscos, as probabilidades e os acidentes. Todavia, os possui, também, sob controle. Nem mesmo a morte o surpreenderia, suficientemente acobertado que está por completos planos de seguro: até o acaso lhe é pontual. Sobre filhos e a relação amorosa com a esposa, Alfredo é um homem não mais que normal: escolhera uma digna mulher, de beleza sensual, porém recatada, com boa formação profissional e boa remuneração. Tivera dois filhos, muito educados e inteligentes. É fiel, a despeito de pequenas escapadelas com clientes, casas de massagem, alguns casinhos, nada que não seja socialmente tolerável e mesmo desejável, num ambiente profissional. A mulher, talvez fosse o caso de comunicá-la, os filhos, mas prefere fazer às escondidas, aceitando, inclusive, o fato de que não é improvável que ela também se permita a certas aventuras. Contraprestação que está disposto a pagar em nome da manutenção de seu casamento, um tanto esfriado e desapaixonado, é verdade, depois de tantos anos de convivência. Convém aos filhos, como aos pais e aos chefes que se mantenha. Afinal de contas, nada lhe poderá ser mais seguro e confiável do que uma relação estável. Os filhos, por fim, serão úteis na velhice. Tudo somado, ponderado e minuciosamente pensado, dá-lhe a conclusão necessária para o abandono do espelho, rumo aos mesmos horários. É feliz? Pergunta a qual não se dá o luxo de conceber. Felicidade é uma dessas lendas criadas em momentos de remorsos por homens fracos e inconformados. O que há de fato é a vida. E é sobre o chão da vida que Alfredo constrói sua história. Retilíneo e comedido, não se permite a sonhos e ilusões, horas perdidas. O que o tempo lhe trouxe aproveita, o que não está nas mãos dispensa. Ardiloso arquiteto das oportunidades, é um homem bem sucedido e com um talento especial para convergir tudo ao redor em seu próprio favor. A cartilha que o mundo lhe ensina segue à risca. É um bom homem, politicamente engajado, socialmente respeitado, economicamente ativo. Cogitado para prefeito, chefe de sessão, diretor, presidente. Admirado, honrado, intitulado. É doutor em universidade estrangeira, professor em faculdade pública, digníssimo mestre e exemplo a todos os seus pares. Bom filho, mensalmente encaminha uma mesada caprichada aos pais, que só têm a agradecer. Homem elegante, freqüenta os melhores alfaiates, eloqüente, rebuscado, capaz de entreter por horas uma platéia. Um cidadão sob medida. Este é Alfredo, o homem que poderia render muitas histórias, mas cuja história está, suficientemente, contida nestas linhas. O mais são fatos sem importância, pequenos encontros, viagens, homenagens, convites, nada de tão diferente e relevante que não possa ser extraído, logicamente, de tudo o que já se narrou. É fim de novembro, tempo do advento. Em dezembro, antes mesmo do Natal, Alfredo morrerá aos cinqüenta e dois anos. Ele não sabe. E mesmo que lhe dissessem não acreditaria. A expectativa de vida prevista pelos cientistas para os homens no ano de dois mil e onze é de oitenta anos e ele confia, de fato, nas estatísticas. Além do mais, mensagens do além-chão não lhe são aprazíveis: não há espaço para tal mistério na vida tão científica e previsível de Alfredo. O homem das decisões bem tomadas e seguras terá que enfrentar, em breve, este fato tão simples e corriqueiro da vida: a própria morte. Para ele, provavelmente, em suas divagações noturnas, não mais que um fato, que causará algum transtorno à família e ao trabalho, mas que logo passará, segurado que está pelos planos completos, como se disse. Mas aos cinqüenta e dois? Talvez, seja surpreendido quando perceber a inevitabilidade de seu destino. Na certa, ponderará as razões, calculará, rapidamente, os erros e acertos, sopesará as perdas e ganhos e, nos segundos que lhe sobrarem antes do suspiro final, chegará a uma última conclusão. Racionalmente perfeita e discreta a conclusão que lhe dará as forças para se decidir e se entregar, passo a passo, em segurança, ao seu leito definitivo. Todavia, tendo sob controle até o último segundo de vida, Alfredo fechará, talvez, os olhos, diante de sua derradeira cena. Quando, num ato de loucura impensada, saltará do chão em que esteve preso e libertará, porventura, um grito profundo. Sozinho numa sala escura, em que nada persiste, apenas o grito, ele estará pronto diante do mesmo matinal espelho. O corpo, corriqueiro, falecerá para sempre no chão duro e imóvel, e Alfredo se soltará, finalmente, seguindo o eco de seu ato de misericórdia. Talvez, então, não se pode saber, já será véspera de Natal.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

"O homem tem de se horrorizar consigo mesmo para chegar ao bom caminho"

"Pois assim como todos os dias precisamos respirar, assim como todos os dias precisamos de luz e de alimento, assim como, também todos os dias, precisamos de amizade e, na realidade, precisamos de determinadas pessoas, a relação com Deus pertence aos elementos que sustentam absolutamente a vida. Se, de repente, Deus não estivesse presente, eu não poderia respirar bem espiritualmente".

"A menor força de amor já é maior do que o maior potencial de destruição".

"Eu creio! E no próprio ato de fé está incluído que isso vem d’Aquele que é a própria razão. Ao começar por me submeter com fé Àquele que não compreendo, sei que é precisamente assim que abro a porta para a verdadeira compreensão".

"Cada ser humano vive interiormente uma tensão entre múltiplos pólos [...]. Porque também os interesses que se tem, os talentos e a ausência deles, os conhecimentos e os desconhecimentos, a fé da Igreja no seu todo, não coincidem simplesmente de modo automático. Há, pois, em cada ser humano, também em mim, uma tensão interior. Mas não lhe chamaria dilaceração. Crer com a Igreja e o fato de saber que posso confiar neste saber, que os conhecimentos restantes recebem luz dele e, por outro lado, podem aprofundá-lo, isso é consistente. Sobretudo acontece que o ato fundamental de fé em Cristo e a tentativa de, a partir dele, dar unidade à vida harmonizam as tensões, de modo que não se tornem uma dilaceração, uma ruptura".

"Nessa medida, precisamos outra vez dessa confiança originária, que, em última análise, só a fé pode dar: que, no fundo, o mundo é bom, que Deus está presente e é bom. Que é bom viver e ser humano. Daí vem também a coragem para alegria, que, por sua vez, leva a que outros se alegrem e possam receber a Boa Nova".

"Creio firmemente que Deus de fato nos vê e nos deixa a liberdade – e, contudo, também nos conduz. [...] Isso significa que a minha vida não é composta de acasos, mas que Alguém prevê e anda, por assim dizer, na minha dianteira, antecipa-se ao meu pensamento e prepara a minha vida. [...] No entanto, isso não significa que o Homem seja completamente determinado, mas sim que esse destino é precisamente um desafio à sua liberdade. [...] Em todo caso, cada um tem a sua missão, o seu dom especial, ninguém é supérfluo, ninguém existe em vão. Cada um tem de procurar perceber qual é a sua vocação, e como responder melhor ao apelo que lhe é feito".

"A arte é fundamental. A razão sozinha, como se exprime na ciência, não pode ser toda a resposta do Homem à realidade e não é capaz de expressar tudo o que o Homem pode, quer e deve exprimir. Penso que Deus pôs isso no Homem. A arte é, com a ciência, o maior dom que Deus deu ao Homem".

"O Homem perde a própria dignidade quando não é capaz de conhecer a verdade; quando tudo não passa do produto de uma decisão individual ou coletiva".

"Digamos que a vida não é feita de contradições, mas de paradoxos. Uma alegria baseada num fechar de olhos perante os horrores da história acabaria por ser uma mentira ou uma ficção, uma maneira de fugir à realidade. Por outro lado, quem já não é capaz de ver que o Criador também transparece num mundo mau acaba por deixar de poder existir, torna-se cínico, ou então tem de se despedir da vida. [...] Precisamente quando se quer resistir ao mal, é tanto mais importante não cair num moralismo obscuro, que já não pode alegrar, mas que se veja realmente quanto há de belo, e que assim também se possa resistir ao que destrói a alegria".

"[...] o homem é um ser moral, responsável por si mesmo e pela humanidade, mas também é um ser que só pode receber de Deus os recursos para avançar".

"Mas é precisamente na arbitrariedade que a vida se torna vazia. A vida é séria demais para um mero jogo, em que somos confrontados com a morte e com o sofrimento. O Homem pode perder a própria identidade, mas não pode desfazer-se da própria responsabilidade, e, com ela, o seu passado sempre o alcança".

"Porque se não existe disponibilidade para uma subordinação a um todo conhecido e para se colocar a si mesmo a seu serviço, não pode haver uma liberdade comum; a liberdade do Homem é sempre liberdade partilhada. Tem de ser levada em conjunto e exige, por isso, o serviço. Claro que essas virtudes (o dever, a obediência e o serviço), se quisermos chamá-las assim, também podem ser mal empregadas, quando são atribuídas a um sistema errado. De um ponto de vista formal, não podem ser boas em si, senão quando ligadas ao fim para o qual estão orientadas. Esse fim, no meu caso, é a fé, é Deus, é Cristo, e assim tenho, em consciência, a certeza de que estão no lugar certo".

Sobre o casamento: "[...] encontramos a questão de uma decisão de vida definitiva no centro da própria personalidade: posso dispor já hoje, digamos, aos vinte e cinco anos, de toda a minha vida? É algo que se amolda ao Homem? Será possível agüentar isso e crescer vivamente e amadurecer _ ou não tenho antes de me manter constantemente aberto a novas possibilidades? No fundo a questão é a seguinte: faz parte do Homem a possibilidade do definitivo no âmbito central da sua existência? Pode suportar uma ligação definitiva, precisamente na decisão relacionada com o seu modo de vida? Diria duas coisas: Ele só pode isso quando se encontra realmente num grande enraizamento de fé; e, segundo, só então ele chega à forma plena do amor humano e da maturidade humana. Tudo o que não é casamento monogâmico é de menos para o Homem".

Sobre o sacerdócio: "Em Santo Agostinho pode-se ver isso muito bem. [...] que, na realidade, estava constantemente ocupado com as coisas do dia-a-dia, a lavar os pés ao próximo, e que estava disposto a desperdiçar, por assim dizer, a sua grande vida no que é pequeno, mas sabendo que desse modo não a desperdiçava. [...] Quando é corretamente vivido, não pode significar que se chega, finalmente, aos lugares de decisão do poder, mas que se renuncia a projetos de vida próprios e se põe ao serviço".
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(Papa Bento XVI, trechos do livro "O Sal da Terra")

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Quanto mais revoltado contra o mal no mundo o sujeito está, mais mal ele vai fazer"

“[...] A camada intelectual é constituída de pessoas frágeis, sempre foi assim... Pessoas que, às vezes, não tem uma posição definida na sociedade, muitas ambições e poucos meios de realização e que, portanto, trazem um grande ressentimento dentro de si. Então, o intelectual olha o mundo e vê o que lhe parece ser a vitória dos maus (que nem sempre são tão maus quanto ele imagina...). Diante desta revolta, ele vendo o poder do mal no mundo, ele se impressiona com o poder do mal. E se impressionar diante de um poder já é cultuá-lo, já é cair sobre o domínio dele. Então, o sujeito começa entrar na dialética do mal, ele lê Maquiavel, ele lê Nietzsche, e vai tentando elaborar a sua revolta, sem perceber que com isso está ele próprio se transformando num instrumento do demônio. Quanto mais revoltado contra o mal no mundo o sujeito está, mais mal ele vai fazer, isto é óbvio. De fato, o ser humano não nasceu para corrigir o mundo. A esfera de ação própria do ser humano é muito pequena. E, hoje em dia, todo mundo tem a ambição de criar um mundo melhor. Qualquer garoto de doze anos está criando um mundo melhor. É esta ambição de criar um mundo melhor que faz os camaradas entrarem numa luta pelo poder. Porque se você quer mudar o mundo, você tem que ter o poder de modificá-lo. Então, melhorar o mundo passa a ser o capítulo dois, o capítulo um é conquistar o poder. Então este pessoal cria uma obsessão de poder e todos eles se corrompem até o fundo da alma e se transformam, eles mesmos, em maiores propagadores do mal ainda. Então, isso não é porque o sujeito é um idealista, este papo de que o jovem entra nas lutas sociais porque é um idealista, isto é uma patacoada... Que garoto de quatorze ou quinze anos tem uma visão correta da sociedade, da pobreza etc.? Que garoto de quatorze anos está mais interessado nos outros do que em si mesmo? Isto é impossível... Um garoto de quatorze anos está lutando pela sua auto-realização... E se ele está revoltado com a injustiça no mundo é porque ele se sente injustiçado, embora na maior parte dos casos não o seja. Então, ele projeta este seu sentimento de injustiça nos outros e diz que ele está representando os pobres e oprimidos. Isto é uma mentira. Eu digo isto analisando a minha própria geração e a mim mesmo. O que eu sabia sobre a pobreza e a miséria no Brasil quando pela primeira vez me fascinei pelas idéias de esquerda? Não sabia coisíssima nenhuma... Eu sabia que eu estava me sentindo mal... Eu me sentia mal e oprimido, então odiava qualquer coisa que representasse, aos meus olhos, a autoridade. Então, estava lutando pelos meus próprios interesses, pela minha própria vaidade, como todos daquela época. Eu, inclusive, no partido comunista, se você me perguntar quem eu conheci que fosse uma pessoa piedosa, caridosa, que tivesse realmente piedade pelos pobres, que tentasse ajudá-los diretamente, eu não conheci nem um único. Eram todos corações secos. Todos eles. Então, o sujeito está lutando pela sua própria vaidade, mas como engana a si mesmo achando que ele é o salvador, que está lutando contra o mal, quanto mais ele pensa assim, mais ele se impregna do mal pela via da vaidade.”
(Olavo de Carvalho, programa True Outspeak do dia 23/11/2010: http://www.youtube.com/watch?v=rUp280iEpeI&feature=player_embedded#!)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

The Big Pussy

É o fim da picada! (Desconfio que esteja sob o efeito da leitura do “Imbecil Coletivo”: tolerância zero). Ah, tenha dó! O cara me expõe uma “big pussy” na Bienal e tem a coragem de chamar essa merda de arte. Não tem paciência que dê conta de interpretar a tal da instalação! O pior é que tem gente que tem coragem de levar os filhos para apreciar: que beleza! A família inteira, juntinha, penetrando o vaginão! Depois o professor de constitucional, pós-moderníssimo, vem contar que na Holanda foi fundada a Igreja do Culto ao Cigarro e aos deuses da fumaça (alguma coisa assim), para fugir da lei anti-fumo, afinal de contas está garantida a liberdade de culto e religião. Pode acreditar? Acho ótimo, inteligentíssimo por parte dos holandeses... Afinal, o que fizeram foi bastante lógico, segundo a lógica ilógica do oba-oba relativista. Ora, se toda opinião, qualquer que seja, tem o mesmo valor, porque não? Aliás, de fato não existe diferença nenhuma entre a Unip e a Universidade de Oxford, entre o Pão de Açucar e o mercadinho aqui perto de casa, entre o papel do homem e da mulher... É tudo a mesma coisa... E ai de quem disser que não! E tem mais... Hoje em dia tornou-se preciso fazer uma advertência aos pais. Srs. Pais: comunicamos que nem todos os filhos nasceram para serem líderes. Não se desesperem se o seu filho for imperfeito: isso é normal! Eu fico aqui quieto, pensando que se todo mundo for líder, não vai mais haver líder nenhum. Sim, porque hoje em dia está todo mundo querendo ser líder e sonhando com a gerência. Além de ser rico, bonito, bem sucedido e absolutamente feliz. Estamos fabricando uma horda de frustrados... Converse com um jovem. A chance dele reclamar da própria vida é de 9 em 10. Por quê? Simplesmente porque o mundo em que ele vive é como político populista: promessas irreais e, obviamente, não cumpridas, com uma boa dose de subterfúgios carismáticos e esmolinhas ao gosto popular. O sujeito abraça a causa, sem nem desconfiar que é justamente daí que brotam todos os seus males: luta, luta, sonha, perde a vida a procura de algo que simplesmente não existe! Sobra a desilusão... e o ressentimento invejoso (porque, querendo ou não, existem sim pessoas muito bonitas, existem líderes verdadeiros e também os que conseguiram enriquecer... e daí?). É vergonhoso, irritante, triste pra valer. E tem paciência que dê conta? Não tem. Já tentou conversar com louco de hospício? No fim da conversa ele continua louquinho como sempre, nem se abala, e você sai se perguntando se o louco não é você... E se não tomar cuidado acaba se convencendo que “aquele” mundo existe de verdade. Então meus caros, na base do diálogo não funciona, não. Com louco só tem um jeito de lidar. Você pode até respeitá-lo, com uma boa dose de piedade, inclusive. Mas deve deixá-lo quietinho no canto dele, falando sozinho (ele não vai nem perceber), enquanto você cuida de tocar a vida para frente. Sim, minha gente, tocar a vida pra frente! E com os pesinhos no chão! Está na hora de acertar o prumo, de pôr o navio na direção correta! Sim, existe sim uma direção correta e outra incorreta, como existem o bem e o mal e a gente pode sim errar... E errar feio... E se dar muito mal por isso! Santa paciência! Santa paciência!

sábado, 9 de outubro de 2010

Sob a égide do Princípio da Igualdade: "tutti buona gente"

Outro dia concluí que estamos nos acostumando demais a considerar tudo “à luz da igualdade” (em linguagem grosseiramente jurídica). Quase uma epidemia, em tempos de democracia e luta por direitos, da bandeira da tolerância hasteada sobre tudo. Durante uma caminhada rotineira pelas ruas da cidade, soou bastante estranho aos meus olhos a feiúra de uma pessoa. Esquisito e assustador de repente ter que aceitar que de fato existe gente feia, e muito feia, andando por ai. Em minutos muitas das certezas que tenho trazido, tranquilamente, como muletas, sabe-se lá há quanto tempo, foram abaixo. E, em seguida, me dei conta de que se um dia for brigar com um cara forte, desses que passam o dia na academia e vivem a base de suplementos alimentares, será preciso correr, e correr muito, porque direito nenhum dará conta de me defender (contando com o fato de que o excesso de músculos, em geral, é acompanhado de uma correspondente falta de agilidade...). A burrice, por exemplo. Existe mesmo, minha nossa! Não tem direito à educação que dê conta desta constatação tão óbvia: tem gente estúpida no mundo. E o mais grave é que as pessoas convivem perfeitamente com a estupidez, assim como sobrevivem os feios. Ou alguém será capaz de dizer que a beleza vale tanto quanto a feiúra? Ora, então que se case com uma mulher horrorosa, porque eu prefiro algo, digamos, mais bonito... Digo isto, porque foi quase insuportável perceber que não há luta que inverta esta realidade. Não tem suor ou argumento que dêem conta deste fato tão óbvio e absurdo. Por exemplo, agora temos esta mania de querer todo mundo sendo doutor e universitário. Maluquice quase igual a querer todo mundo rico, ridículo! (eu sei, já não posso fazer parte do clubinho... a cada dia que passa torno-me mais indesejável... mas é que é tão evidente... como faço?). Fico pensando no pobre coitado que não tem muito jeito com o estudo e que preferiria mil vezes, e com muito mais eficiência, outra ocupação, mas que se vê obrigado a ser chique e respeitado, afinal de contas, todos querem dinheiro e algum sucesso. Onde é que vão colocar tanto doutor ninguém diz, nem para quê servirá tanto letrado. É perverso, tão perverso ou mais, do que um doido que decide matar alguns pela cor da pele. E alguém escolheu a cor da pele quando nasceu? Deprimente, triste mesmo, como a menininha gorda que se mata em dietas, perde horas em frente ao espelho e se envenena com remédios de emagrecer. Quase igual Michel Jackson tentando descorar a pele e ficar branco. Ou essas velhinhas de saia curta e a pele esticada, a orelha encostada à nuca e os peitos inchados até a boca. Tão patético quanto ler livro de auto-ajuda e se convencer que basta mentalizar. Não basta, minha gente, não basta! Sem tragédia ninguém se comove. E é importante demais a comoção. Que sirva de consolo que nesta seara não tem discussão, nem privilégio. A regra é de outra ordem, não é humana, como aquela que cria a bolsa família. Não adianta se valer de uma balança de desgraças: a uns deu isso e tirou aquilo. Nem o pensamento mesquinho de dizer: é inteligente, mas em compensação, coitado, é tão bobo... Para não dizer de comentários mais ácidos... Porque esta é a nascente da fofoca e do maldizer: uma pitada de inveja e outra bem grande de própria desilusão. Porque é triste demais e libertador descobrir a própria pequenez, consolador desistir de ser grande. Terrível demais ter o orgulho ferido, desesperador almejar à vida dos outros. É quase como descobrir que a guerra, apesar de indesejável, é necessária, porque tem vezes que o diálogo é inútil. Não acha, não? Então, vá trocar umas figurinhas com Fernandinho Beiramar... Quem sabe ele não te entende (ou não te convence...)? Que tal discutir a democracia com Hitler ou Stalin? Lembra o maníaco do parque ou o traficante do seu bairro? “Tutti bona gente”! Porque seria lindo se tudo fosse azul e todos estivessem automaticamente dispostos. Que bastasse o direito ao voto e a democracia ideal para que a vida fosse uma flauta, como acreditam os pacifistas. Seria perfeito se toda opinião merecesse ser ouvida, com o mesmo valor da pessoa que a exprimisse. Mas convenhamos... Sem inventar bobagens em elucubrações tóxicas e viagens psicodélicas de filosofiazinhas da moda... Vamos à base do “pão-pão, queijo-queijo”, que já dá trabalho demais. De resto, também aceitemos de uma vez por todas que não viemos do nada, que não somos tão donos assim de nossas próprias vidas, que corremos o risco do insucesso e que somos definitivamente, completamente, até as vísceras, desiguais! Por fim, não custa lembrar o anúncio cortante do nosso amigo de caminhança (durmamos com esta...): “Mas não se engane! Nem sempre tudo dá certo no final... Sem a batalha diária, tudo pode convergir para o caos...”